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“Lewis, it’s James”. Ou como o 6.º título de Hamilton tem muito de quem lhe sopra ao ouvido

Ter um bom carro para vencer na Fórmula 1 é essencial, ter um grande piloto também o é. Mas não só. O 6.º título de Lewis Hamilton também tem a mão de um pacato inglês de 40 anos. James Vowles é o responsável máximo pela estratégia da Mercedes e as suas decisões foram fulcrais para algumas das vitórias mais difíceis do ano

Lídia Paralta Gomes

A importante vitória de Hamilton no GP Hungria saiu da mastermind do Chefe de Estratégia da Mercedes, o britânico James Vowles. Que, merecidamente, subiu ao pódio com o piloto, que acabou de se sagrar hexacampeão do Mundo de Fórmula 1

Dan Mullan/Getty Images

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Vencer na Fórmula 1 é uma equação complexa e com muitos elementos. Ter um bom carro? Essencial. Um bom piloto? Provavelmente menos, mas obrigatório. Mas onde cabem os pormenores que muitas vezes ganham corridas numa disciplina em que a qualidade dos pilotos e dos carros da frente está tão nivelada por cima? Muitas vezes eles estão nos ouvidos dos pilotos, nas comunicações com a box, onde dezenas de engenheiros trabalham na sombra à procura daquilo que está para lá do piloto e do carro: a estratégia.

A estratégia está em cada pedaço de informação, em cada volta que um piloto faz num circuito específico, no imprevisível comportamento de um determinado jogo de pneus. Está numa série de dados, em cálculos e mais cálculos que permitem chegar a probabilidades. Está nas decisões que se tomam ao segundo numa corrida de Fórmula 1. Por estes dias, um bom departamento de estratégia é quase tão essencial quanto um carro competente. E nesse particular, o 6.º título de Lewis Hamilton, conquistado este domingo em Austin, também é muito de um homem chamado James Vowles.

James Vowles é um pacato inglês de 40 anos que todos os adeptos de Fórmula 1 se habituaram a conhecer como a voz que surge nos ouvidos de Lewis Hamilton e Valtteri Bottas nos momentos mais críticos de cada grande prémio - ao ponto do “Lewis, it’s James” ou “Valtteri, it’s James”, que é como Vowles se dirige aos dois pilotos, já se ter tornado numa espécie de jargão entre quem segue o Mundial.

Dados e mais dados: é esta a matéria-prima de James Vowles, o homem que define a estratégia da Mercedes

Dados e mais dados: é esta a matéria-prima de James Vowles, o homem que define a estratégia da Mercedes

Peter J Fox/Getty Images

As decisões de quando ir à box, que pneus utilizar, todas elas são tomadas pelos responsáveis pela estratégia da Mercedes, uma equipa de 26 engenheiros na pista e mais 20 na fábrica da escuderia, em Brackley, Inglaterra. Mas a decisão final é sempre de Vowles e muitas delas já no decorrer de cada corrida. Opções essas que valeram vitórias num ano em que a Mercedes não tinha inequivocamente o melhor carro.

Os três momentos decisivos

A superioridade demonstrada pela Mercedes no primeiro terço da temporada deixou o título desde logo muito bem encaminhado, mas depois do descalabro do GP Alemanha, em que tanto Hamilton como Bottas bateram, numa corrida caótica disputada à chuva - e em que a Mercedes comemorava a preceito o seu 125.º aniversário nos desportos motorizados -, o construtor alemão parecia pela primeira vez vulnerável.

No Grande Prémio seguinte, na Hungria, chegou a resposta cabal para os que duvidavam e logo num circuito não favorável à Mercedes. Foi um momento mastermind de James Vowles. Depois de Hamilton passar boa parte da corrida atrás de Max Verstappen sem conseguir colocar em risco a liderança do holandês da Red Bull, Vowles decidiu de forma surpreendente chamar o britânico para uma segunda ida às boxes, onde colocou pneus médios novos. Pelo rádio, Hamilton criticou duramente a opção, que o deixaria muito mais longe de Verstappen. Mas Vowles sabia o que fazia: Hamilton saiu do pit lane a 20 segundos do holandês mas, com pneus frescos, nas 14 voltas seguintes recuperou todo o atraso para o homem da Red Bull e ultrapassou-o a quatro voltas do final, voltando a colocar a Mercedes no topo do pódio.

Na volta de consagração, foi a vez de Hamilton falar para a box: “James, desculpa ter duvidado da tua estratégia. Foi definitivamente uma ordem arriscada, mas fico agradecido por termos apostado nela”. E no pódio, Vowles foi o representante da Mercedes - afinal de contas, a vitória era quase toda dele.

Dedinho de James Vowles teve também a vitória de Hamilton no GP Rússia, depois de quatro triunfos seguidos da Ferrari e em mais um circuito em que os italianos pareciam partir com teórica vantagem. Aqui, o azar e a atrapalhação da Ferrari uniu-se à enorme capacidade de reação e de ler a corrida do engenheiro britânico. A corrida estava a caminhar para um 1-2 da Ferrari quando pouco depois de sair da box Sebastian Vettel foi obrigado a encostar com uma falha de motor. E com a entrada do virtual safety car, Vowles foi rápido: chamou os dois Mercedes à box, numa altura em que Hamilton e Bottas eram líderes mas ainda não tinham parado, ao contrário de Leclerc. E sem poder atacar, o monegasco acabou mesmo por perder posição para os dois Mercedes.

A vitória da última semana, no GP México também não seria possível sem o trabalho de bastidores de James Vowles e da sua equipa. Numa corrida com variadas estratégias de paragens nas boxes, a Mercedes optou por apenas uma paragem quando percebeu pelo comportamento do Renault de Daniel Ricciardo que os pneus duros não estavam a degradar-se ao ritmo que se previa. Daí, Vowles chamou britânico, que havia partido da 3.ª posição da grelha, à box mais cedo que o previsto, apostando num longo stint de pneus duros, isto enquanto a Ferrari apostava em duas paragens para Charles Leclerc.

Quando a estratégia falhou, Hamilton segurou a equipa. E é disto que se fazem os campeões

Quando a estratégia falhou, Hamilton segurou a equipa. E é disto que se fazem os campeões

David Davies/PA Images via Getty Images

Tal como em Budapeste, Hamilton duvidou do seu estratega e não teve problemas em dizê-lo pelo rádio da equipa: “Acho que parámos cedo demais”. Mas por esta altura, Hamilton já devia saber que tem de pelo menos dar o benefício da dúvida a James Vowles. Com Leclerc na estratégia errada, o único desafio passou a ser fazer o undercut a Vettel - por undercut leia-se parar mais cedo que o adversário e tirar vantagem dos pneus frescos para ganhar vantagem suficiente para ficar em primeiro após a paragem do rival. E esse desafio foi amplamente ultrapassado, dando à Mercedes e a Hamilton uma improvável vitória em mais um circuito em que a equipa de Brackley não tende a dar-se bem.

Há pilotos e pilotos

Isto porque, é certo, uma estratégia arriscada também está dependente de um grande piloto. E quando se tem Lewis Hamilton ao volante, qualquer estratégia arriscada corre o risco de resultar. Mesmo com pneus frescos e Verstappen a lutar contra a degradação dos seus, os 20 segundos que recuperou para o holandês na Hungria só estão ao alcance de um grande piloto.

Aliás, após Hamilton cortar a meta em Hungaroring, Peter Bonnington disse via rádio a frase que define aquilo que a Mercedes foi nos momentos decisivos da época: uma máquina bem oleada. “Só tu poderias fazer com que isto resultasse”, disse o engenheiro que acompanha o britânico há sete anos, desde que Hamilton chegou à Mercedes.

E talvez só mesmo um piloto do calibre de Lewis Hamilton o conseguisse. Longe de estar a ser o seu ano mais espectacular, o britânico ficou a apenas um título dos sete de Michael Schumacher dominando praticamente a primeira metade da temporada, não falhando nas pistas em que a Mercedes tinha vantagem teórica e segurando a equipa nas poucas vezes que James Vowles falhou. Porque até as máquinas por vezes também falham.

Como no GP Mónaco, quando a opção de colocar Hamilton mais de 60 voltas com pneus médios obrigou o britânico a uma corrida de nervos, em que precisou de conter Verstappen e ao mesmo tempo gerir uns pneus que ameaçavam morrer a qualquer momento. E é por causa de pormenores como estes, como o que aconteceu em Monte Carlo ou em Hungaroring, que Lewis Hamilton está neste momento a festejar o seu 6.º título mundial.

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    Fórmula 1

    Sem passado familiar ligado aos motores ou milhões no banco, Lewis Hamilton chegou à Fórmula 1 à custa de um misto de suor, talento e ambição. Em miúdo, quando percorria a Inglaterra com pai nas provas de kart com o pai, Anthony, eram "a família negra mal amanhada". Na escola chegou a sofrer de bullying. Nada disso parou Hamilton, piloto, pop star, que este domingo conquistou pela sexta vez o título mundial e que há muito confirmou que é o mais talentoso (e carismático) da sua geração. A Tribuna Expresso republica o perfil do piloto, originalmente publicado a 29 de outubro de 2017