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Chama-se Hannah Schmitz e tornou-se numa das poucas mulheres a alguma vez subir ao pódio na F1. Porque a vitória de Verstappen também é dela

O triunfo do holandês da Red Bull chegou com uma mistura de talento e velocidade dentro do carro e de coragem e risco na box. Foi lá que Hannah Schmitz, engenheira de estratégia da equipa austríaca, congeminou o plano que deixou Verstappen no controlo da corrida. E, por isso, a Red Bull ofereceu-lhe a justa honra de subir ao pódio para receber a taça da vitória por construtores, tornando-se apenas na 6.ª mulher em mais de mil corridas a fazê-lo

Lídia Paralta Gomes

Mark Thompson

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Penalizações, ultrapassagens, acidentes entre colegas, motores que raramente rebentam a rebentar, um piloto despromovido a meio da época a ficar em 2.º, safety cars, pódios inéditos, enfim, o diabo a sete. Não se pode dizer que o GP Brasil tenha sido uma prova sem emoção, algo comum em Interlagos, circuito de glória para uns e muito más recordações para outros.

Até este domingo, Max Verstappen era um desses pilotos com contas a ajustar no circuito paulistano: há um ano, seguia para a vitória quando Esteban Ocon, com uma volta de atraso, o colocou fora de pista. No final, o holandês, que não é exatamente conhecido pela cabeça fria, foi tirar de esforço ao francês, situação que acabou com vários empurrões e Max obrigado a fazer uma espécie de trabalho comunitário para a FIA.

Este ano, tudo foi diferente. Verstappen partiu da pole position e liderou com alguma tranquilidade até à primeira dança das boxes. Aí, Lewis Hamilton e a Mercedes decidiram parar primeiro para tentar o undercut (ou seja, aproveitar os pneus mais frescos para fazer voltas mais rápidas após a paragem e assim ganhar o tempo necessário para ficar à frente do adversário quando este sai da box) e conseguiram. Acontece que Max, a dar o primeiro sinal que estava in the zone em Interlagos, com todos os astros bem alinhados, não demorou muito para se aproximar de Hamilton e ultrapassar o britânico.

A partir daí a corrida parecia estar na mão do holandês, mas a entrada em cena do safety car, após a desistência de Valtteri Bottas, mudou tudo. Com o pelotão agrupado, a Red Bull arriscou chamar Verstappen à box para trocar os pneus médios por uns mais rápidos pneus macios, oferecendo assim a liderança a Lewis Hamilton. Uma estratégia arriscada, mas da qual a equipa colheu frutos, já que no recomeço Verstappen rapidamente ultrapassou Hamilton (com pneus médios) e mesmo com a entrada de novo safety car após o acidente entre Sebastian Vettel e Charles Leclerc, Max não mais perdeu o controlo da corrida, conseguindo assim a 3.ª vitória do ano e a redenção que necessitava em São Paulo, depois da desilusão do ano anterior.

Trocar de pneus durante o safety car foi uma aposta corajosa, mas decisiva para a vitória sem espinhas de Max em São Paulo

Trocar de pneus durante o safety car foi uma aposta corajosa, mas decisiva para a vitória sem espinhas de Max em São Paulo

NELSON ALMEIDA/Getty

O risco da estratégia foi alto, mas resultou em cheio, deixando Max longe de todas as confusões que marcaram as últimas voltas do GP Brasil, em que o grande prejudicado acabaria por ser o seu colega de equipa na Red Bull, Alex Albon, que seguia para um mais que provável primeiro pódio até ser empurrado para fora de pista por Hamilton.

E para premiar o artífice da vitória de Max, Christian Horner, diretor da Red Bull, convidou o autor para subir ao pódio e receber o prémio correspondente ao construtor vencedor.

O autor não, a autora.

Porque o plano foi traçado por Hannah Schmitz, engenheira de estratégia da Red Bull, que assim se tornou apenas na 6.ª mulher a subir ao pódio na Fórmula 1, a 6.ª mulher em mais de mil corridas que a história da categoria já tem, sempre em representação da marca vencedora do Grande Prémio.

“Todo o crédito da vitória para a Hannah”, sublinhou Horner em São Paulo, explicando a decisão de enviar a engenheira para o pódio. “Ela deu-nos a estratégia e a recomendação dela foi que parássemos na box. Foi uma escolha corajosa porque sabíamos que o Lewis ia fazer o oposto. Foi uma decisão agressiva, mas resultou. E foi por isso que a mandei ao pódio”, disse ainda o diretor da Red Bull.

Hannah Schmitz está de regresso esta temporada a tempo inteiro à Red Bull após licença de maternidade e o seu profissionalismo foi ressalvado por Horner: “Ela é uma mãe trabalhadora, que conduz horas absurdas todos os dias para ir trabalhar, dá tudo, e isso é o verdadeiro trabalho de equipa”.

As pioneiras

Antes de Hannah Schmitz, só cinco mulheres haviam subido ao pódio, a primeira das quais apenas em 1986. Foi Ginny Williams, mulher de Frank Williams, patrão da Williams, que foi ao pódio após a vitória de Nigel Mansell no GP Grã-Bretanha em representação do marido, então a recuperar do acidente que o deixou tetraplégico.

Uma mulher só voltaria ao pódio em 2013: Gill Jones, chefe do departamento de eletrónica da Red Bull, recebeu o prémio pela vitória no GP Bahrein.

Dois anos depois seria Kim Stevens, engenheira de aerodinâmica da Mercedes, a subir ao pódio após a vitória de Nico Rosberg no GP Abu Dhabi de 2015. Em 2016, a Mercedes voltou a levar uma mulher ao pódio, Victoria Vowles, à altura diretora de relações institucionais, após a vitória de Lewis Hamilton no GP EUA. Já este ano, Hamilton foi acompanhado no pódio do GP Canadá pela engenheira responsável pelo motor do seu carro, a espanhola Marga Torres.