Tribuna Expresso

Perfil

Fórmula 1

O incrível Hulk já não é assim tão incrível

Chegou à Fórmula 1 como um futuro campeão do Mundo e partirá (para já) como o piloto com mais grandes prémios realizados sem qualquer pódio. Ainda assim, a saída de Nico Hulkenberg da Renault e da grelha, onde será substituído por Esteban Ocon, parece estranha aos colegas do alemão, um talento a quem talvez tenha faltado uma oportunidade numa das equipas de topo

Lídia Paralta Gomes

Mark Thompson/Getty

Partilhar

Em 2006, Willi Weber, mítico manager de Michael Schumacher, apontou outro alemão como futuro campeão do Mundo de Fórmula 1. Esse alemão não era Sebastian Vettel. Nessa altura, de quem se falava era de Nico Hulkenberg, que no ano anterior havia conquistado a Fórmula BMW no seu ano de estreia na categoria. Para Weber, o “talento inacreditável” de Hulkenberg emulava, em certa medida, aquele que havia visto um dia em Schumacher, que esse ano diria adeus à Fórmula 1 pela primeira vez. Webber também o apelidou de "The Hulk", porque dizia que ele se transformava ao volante.

Nos anos seguintes, Hulkenberg, nascido pouco mais de um mês depois de Vettel, em Emmerich am Rhein, a dois passos da fronteira alemã com a Holanda, fez aquilo que se pode chamar de percurso sem mácula nas fórmulas de formação. Em 2009 foi campeão na Fórmula 3 e no ano seguinte nas GP2 Series, temporada em que já servia como piloto de testes da Williams, equipa pela qual se estreou na Fórmula 1, em 2010.

Parecia estar tudo encaminhado para que Hulkenberg chegasse ao topo: era jovem, fresco, rápido, inteligente, tinha pedigree e a pole position no GP Brasil no ano de estreia com aquele frágil Williams dava a entender que rapidamente o alemão subiria a uma das equipas de topo.

Mas dez temporadas depois, sabemos que a profecia de Willi Weber foi um tudo nada ao lado. Sabemos que Sebastian Vettel tem quatro títulos mundiais no bolso e que, apesar de não viver o momento mais cintilante da carreira, continua a ser um dos principais pilotos da grelha, na mais mítica das equipas, a Ferrari. E sabemos que Hulkenberg se prepara para dizer adeus à Fórmula 1 este fim de semana, na última prova da temporada, em Abu Dhabi, com um daqueles infames recordes que ninguém quer ter: é o piloto da história da Fórmula 1 que fez mais corridas sem conseguir qualquer pódio.

São 176 corridas sem saber o que é o sabor do champanhe, numa disciplina normalmente implacável para quem não apresenta resultados.

Ao longo de quase uma década, Nico Hulkenberg conseguiu manter certa aura de piloto talentoso, trabalhador e bom rapaz, a quem a glória faltava por um misto de falta de oportunidades em equipas de topo e de azar, ao contrário de Vettel, que foi parar ao universo Red Bull precisamente quando as duas equipas patrocinadas pela bebida energética austríaca começaram a apresentar resultados. A aura, diga-se, continua lá, em parte, mas em 2019 as equipas parecem ter deixado de considerar Hulkenberg essencial.

Hulkenberg ao lado de Vettel e Mark Webber depois de conquistar a pole no GP Brasil de 2010

Hulkenberg ao lado de Vettel e Mark Webber depois de conquistar a pole no GP Brasil de 2010

Paul Gilham/Getty

E em 2020 não haverá lugar para ele no Mundial, depois de se esfumarem as hipóteses na Haas e Alfa Romeo, que preferiram manter as mesmas duplas de pilotos no próximo ano.

Abu Dhabi será portanto a última oportunidade de Nico Hulkenberg deixar a tal lista de pilotos que nunca chegaram a um pódio, logo ele que leva tantos anos disto. Depois do espectacular GP Brasil deste ano, que valeu as estreias entre o top 3 para Pierre Gasly e Carlos Sainz, Hulkenberg passou a ser um de cinco pilotos da atual grelha sem pódio: a diferença é que os restantes, Antonio Giovinazzi, Lando Norris, Alexander Albon e George Russell estão na sua primeira época na Fórmula 1.

Mas face à época cheia de altos e baixos da Renault, parece que o alemão dirá mesmo adeus sem nunca ter cumprido aquilo que tantos acreditavam ser possível.

A estranheza da ausência

É um pouco como aquela peça de roupa que temos e não usamos, mas ficamos tristes quando percebemos que já não nos serve. A saída quase certa de Nico Hulkenberg fez muitos pilotos lembrarem-se que a Fórmula 1 será um lugar estranho quando no próximo ano o paddock se descobrir sem Nico Hulkenberg.

E vários falam de injustiça.

“O facto de um piloto como Hulkenberg não ter lugar na grelha é muito amargo. É um exemplo de que talvez algumas coisas não estejam a fazer-se da melhor maneira na Fórmula 1”, sublinhou Sebastian Vettel em declarações reproduzidas pelo jornal “Marca”, em que sublinha também que espera ainda ver o regresso do compatriota à disciplina, até porque não quer ser “o único piloto alemão na grelha”.

Também Carlos Sainz, o espanhol que foi companheiro de Hulkenberg na Renault no ano passado, mostrou a sua incredulidade por ver o alemão sair da grelha pela porta pequena. Uma decisão que, diz, se baseou em algo mais do que desempenho. “Há muitas coisas que são levadas em consideração na Fórmula 1, além do talento e da velocidade. Porque se fosse só talento e velocidade, ele estaria na grelha até quando quisesse”, sublinhou o agora piloto da McLaren.

Mais do que da falta de resultados, Hulkenberg parece ter sido vítima da chegada de uma nova geração de talentos à Fórmula 1 e das ambições da Renault que nos próximos anos quer fazer cócegas às três equipas de topo, Mercedes, Ferrari e Red Bull. Uma aposta que se viu esta temporada com a contratação de Daniel Ricciardo, aliciado com um dos maiores salários da grelha. No confronto direto com o australiano, Hulkenberg tem saído a perder e no caótico GP Alemanha desperdiçou uma enorme oportunidade para subir ao pódio pela primeira vez, ao despistar-se quando seguia em 4.º lugar, mas com boas perspectivas de melhorar. As imagens de Hulk na box da Renault com a cabeça afogada nas mãos mostravam com a maior das crueldades a desilusão do alemão.

Um mês depois, durante a pausa de verão, a Renault anunciou que Esteban Ocon substituiria Nico em 2020. Tivesse conquistado aquele pódio e talvez a história fosse outra.

Após três temporadas na Renault, o alemão será substituído por Esteban Ocon em 2020

Após três temporadas na Renault, o alemão será substituído por Esteban Ocon em 2020

Peter J Fox/Getty

A Renault procura em Ocon, que esta temporada foi piloto de testes na Mercedes depois de perder o lugar na Racing Point para Lance Stroll, aquilo que Hulkenberg parece ter deixado de oferecer: é jovem, empertigado, confiante e, também muito importante, francês. Aos 23 anos e cheio de vontade de apanhar o comboio onde já estão Max Verstappen e Charles Leclerc, que muitos veem como futuros campeões do Mundo, Ocon obrigará também Daniel Ricciardo a ficar mais alerta, já que o gaulês não é exatamente conhecido por não se deixar amarrar por hierarquias, como provam os atritos que teve com o mais experiente Sergio Pérez dentro de pista na Force India, a equipa que deu origem à Racing Point.

O lugar na Williams que ele não quer

Experiente e conhecedor do paddock, Nico Hulkenberg continua a ser um piloto conceituado e esta temporada chegou-se até a falar de uma possível ida para a Red Bull, na eventualidade da equipa austríaca pensar num piloto mais tarimbado, algo que acabou por não passar apenas de um rumor.

E é talvez por já ter um certo estatuto que Hulkenberg não parece disposto a ficar na Fórmula 1 a qualquer preço. Quando as hipóteses Haas e Alfa Romeo caíram, restou um lugar por ocupar na grelha: o de Robert Kubica na Williams. Seria um regresso à equipa que viu Hulkenberg estrear-se na categoria máxima da Fórmula 1, mas em 2019 os tempos são outros para o icónico construtor britânico, que nas duas últimas temporadas se arrastou pela cauda do pelotão, tendo conquistado apenas um ponto esta temporada.

“Não há lugar para mim agora na Fórmula 1. A Williams não é a equipa certa para mim e eu também não sou a pessoa certa para eles”, disse o alemão numa entrevista à “Motorsporweek” no início do mês. Um lugar como piloto de testes também não é do agrado de Hulkenberg.

Em declarações ao site oficial da Fórmula 1, Daniel Ricciardo frisou que acredita que o tempo do seu em breve ex-colega de equipa na Fórmula 1 ainda não terminou e o alemão diz também que não se sente “aposentado”.

“Não sinto que estou a deixar a Fórmula 1. Posso não estar na grelha, mas se houver uma oportunidade, estarei pronto”, disse à “Autosport” britânica. Em 2020, o alemão ainda não sabe onde vai correr e também não parece disposto a apressar a sua decisão, até porque pretendentes não lhe devem faltar, não fosse ele, além de piloto de monolugares, vencedor das 24 horas de LeMans, em 2015: “Recebi chamadas de diferentes equipas e categorias mas não estou a negociar nada neste momento. Para ser sincero, estou bastante relaxado. Vou terminar a temporada e quero fazer o melhor possível. Depois disso, vou tirar algum tempo para mim e perceber o que quero fazer, o que me parece mais interessante”.

Em 2021 muito vai mudar na Fórmula 1 e talvez aí as portas se voltem a abrir para Hulkenberg. Por isso, para já, fica um adeus, mas também um até já.