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O último adeus ao escocês voador, Stirling Moss

Evocação de Stirling Moss, descendente do guerreiro escocês William Wallace, um cavalheiro ao volante antes da era do politicamente correto

Rui Cardoso

Bernard Cahier

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William Wallace, imortalizado no ecrã por Mel Gibson em “Braveheart”, fez tremer os ingleses mas não viveu o suficiente para assistir à libertação da sua amada Escócia. O seu longínquo descendente Stirling Crawford Moss ganhou tudo o que havia para ganhar na década de 50 mas nunca conseguiu ser campeão do mundo de Fórmula 1 (foi quatro vezes segundo). Deixou-nos domingo passado, dia 12 de abril, aos 90 anos depois de, como diria Bocage, ter levado “vida folgada e milagrosa”.

A referência ao grande poeta luso advém de, tal como este, Moss ter passado à posteridade com uma aura de sedutor. Diz-se que poucas mulheres resistiam ao sorriso tímido deste piloto, imortalizado pela primeira vez nos jornais quando, em 1950, aos 22 anos, debaixo de uma chuvada infernal e num piso transformado em manteiga, venceu num Jaguar emprestado o Tourist Trophy em Dundros na Irlanda do Norte.

Mulheres e sorrisos

Se na pista e fora desta será sempre recordado como um cavalheiro, capaz de gestos de um desportivismo lendário, era um gentleman mas à maneira dos anos 50. As suas piadas brejeiras sobre as corridas e as suas observações misóginas ter-lhe-iam valido, nos tempos de hoje, um coro de críticas. Para ele, as mulheres “não tinham fibra para correr”, tirada que, de resto, era um preito de injustiça à sua própria irmã, Pat Moss-Carlsson, cinco vezes campeã europeia de ralis…

Stirling e Pat Moss

Stirling e Pat Moss

J. Wilds

Era ao volante que Stirling Moss fazia a diferença, conseguindo tirar o máximo partido de qualquer coisa que tivesse quatro rodas e volante. Tinha uma condução fina, pouco dada a fantasias para entusiasmar a bancada mas de uma eficácia a toda a prova. Se alguém interpretou esta frase como sinónimo de não arriscar e andar a pisar ovos, atente no seguinte: em 1955, ao volante de um Mercedes 300 SLR, tendo como co-piloto Denis Jenkinson, bateu o recorde das Mil Milhas em Itália, à média de 157,65 km/h. Eram 1600 km seguidos em estrada aberta com público indisciplinado, possibilidade de trânsito, travessia de localidades, pisos degradados, etc, onde para fazer tal média teve que andar quase sempre a mais de 200 km/h…

E quem ficou atrás dele? O lendário Fangio de quem era então companheiro de equipa da Mercedes na Fórmula 1. Os dois batiam-se na pista mas adoravam-se. Fangio ofereceu a Moss um relógio onde estava gravado “ao futuro campeão do mundo”. Em Aintree, Moss ultrapassa Fangio à vista da meta e torna-se no primeiro britânico a vencer um grande prémio em casa. Perguntou se o tinha deixado ganhar, ao que o argentino respondeu: “Qual quê! Já andavas a merecer esta vitória há muito…” Entre 1955 e 1957 o britânico será sempre segundo no campeonato atrás do argentino. E voltará a sê-lo em 1958 atrás de Mike Hawthorn, cuja desclassificação por, na sequência de um pião, ter andado uns metros em sentido contrário no Grande Prémio do Porto, foi anulada graças ao testemunho de Moss.

Stirling Moss com Juan Manuel Fangio

Stirling Moss com Juan Manuel Fangio

Bernard Cahier

O carro que travava melhor

Patriota, ao ponto de ser quase fanático, Moss sonhava com a vitória mas ao volante de um carro britânico. A oportunidade surgiu em 1957 com o Vanwall, um carro muito alto e pouco equilibrado mas dispondo, pela primeira vez, de caixa de cinco velocidades, travões de disco e barra de torção à frente (aperfeiçoados pelo lendário Colin Chapman, futura estrela da Lotus). Por alguma coisa a marca foi, dois anos seguidos, campeã mundial de construtores. Era uma solução à medida do britânico que, depois de andar uma prova inteira a tentar manter o Vanwall a direito, se desforrava nas últimas voltas quando a concorrência já não tinha travões…

Ganhou em Portugal nos Grande Prémios do Porto (1958) e de Monsanto (1959), bem como em Vila Real na prova de Sport (1958). A sua mais lendária corrida terá sido o Grande Prémio do Mónaco em 1961. Naquele tempo a prova tinha cem voltas em vez das atuais 78. Ao volante de um Lotus passou para a frente à 86ª volta e resistiu à perseguição de dois Ferrari, mais potentes. No ano seguinte em Goodwood um gravíssimo acidente no Grande Prémio deixa-o às portas da morte e decide abandonar os circuitos, a não ser para aparições esporádicas.

Na tradição de não ter papas na língua, apontava as grandezas e misérias dos carros que guiara: “Em Nurburgring não havia melhor que o Maserati 250 F; o Mercedes era fiável mas tramado de guiar; o Aston Martin DBR1 era fenomenal mas a caixa de velocidades era uma sucata; o Lotus era melhor que o Cooper mas de vez em quando perdia uma roda…” E, fiel ao seu estilo, concluía: “É como as mulheres, cada uma tinha a sua mania…”