Tribuna Expresso

Perfil

Fórmula 1

“A morte era para ter levado o Niki em 1976, que lutava com isso há 43 anos. Mostra bem o caráter do bicho: porreiro, mas irascível”

O ex-piloto austríaco faleceu há um ano. Na altura, a Tribuna Expresso conversou com Domingos Piedade, ex-manager de Fittipaldi e ex-vice-presidente da Mercedes, que conhecia Niki Lauda desde o início da década de 70. A Tribuna Expresso republica este texto no dia em que se passa um ano da morte do antigo corredor

Hugo Tavares da Silva

Frank Barratt

Partilhar

O Ferrari escapou-lhe numa das curvas de Nürburgring e transformou-se num fogo desolador. Depois, para piorar o cenário, veio o abalroamento por outro furioso carro de F1. As chamas antecipavam um final infeliz. Mas Niki era Lauda e, embora um padre lhe tenha dito as últimas palavras enquanto estava em coma, sobreviveu àquele acidente de 76.

A pele ficou queimada, inútil, morta. A que morava na perna viajou até à face e testa. Seis semanas depois, voltou a entrar no seu Ferrari para discutir o título de campeão do mundo com James Hunt. Lauda recuou, na derradeira corrida, perante um dilúvio no GP do Japão, acontecimento esse que resultou na vitória do britânico. Esta rivalidade foi transformada em filme: “Rush”.

Grand Prix Photo

“Era um grande campeão. Era um tipo porreiro, mas irascível, irrequieto, muitas vezes incompreendido. Com reações e comportamentos inesperados. Até com a vida”, começa a contar à Tribuna Expresso Domingos Piedade, ex-manager de Emerson Fittipaldi, que lidou com muitas referências da indústria automóvel, chegando a vice-presidente da AMG-Mercedes. “A morte era para o ter levado em 1976. E ele há 43 anos que lutava com isso, mostra bem o caráter do bicho.”

A relação entre ambos começou algures em 72. Piedade era dos poucos que falava com Lauda em alemão. Era adversário, pois estava com Fittipaldi, mas era amigo, diz. “Tenho inúmeras peripécias com ele, mas são muito pessoais e ficarão pessoais. Quando eu, um dia, estiver para bater as botas e estiver para ir ter com ele, deixo algo escrito sobre isso.”

-

O português e o austríaco conheceram-se quando o piloto queimava os pneus do BMW Alpina, em provas de Turismo, precisamente em Nürburgring, onde Lauda teria o acidente poucos anos depois. O diálogo entre ambos teve que ver com dinheiro. E rivalidade. “Veio ter comigo para saber quanto é que o Emerson ia ganhar, porque ia passar para McLaren. Havia uma guerra naquela altura para quem é que ganhava mais, não era só quem era o melhor piloto. Começou logo aí. Mesmo antes de estar com o Emerson, já havia relacionamento. Ia vê-lo e já era o maior, digamos assim.”

Mas quem era, afinal, este “bicho” na pista? “Era um piloto estilo [Alain] Prost”, reflete Piedade. “Não era do estilo de Ronnie Peterson, ou, assim mais moderno, Max Verstappen, aquele que faz a volta de qualificação e despede-se da família antes [da corrida]. Era um piloto que andava sempre, sempre a 99,9%. Nem chegava aos 100%, porque podia correr mal, nem passava os 100%. Era tal como o Prost. Era um estilo matemático, um sujeito em que se podia apostar na corrida. Fazia sempre a corrida certinha, rápido, sem erros, aproveitando os erros dos outros. Não era um homem de pole-positions. Fazia corridas extraordinárias, tal como o Prost, que acho que nunca entortou um dedo, nunca teve um acidente grande.”

Domingos Piedade salienta o “calculismo” e “realismo” de Lauda, por ter recuado naquele GP do Japão, entregando o campeonato a Hunt. “Mostra bem que era um calculista. Fazer a prova de 76, com aquele dilúvio, era um risco que não valia a pena, nem mesmo para ser campeão do mundo de novo, algo que voltaria a fazer em 84, em Portugal.”

Bernard Cahier

Segundo este português, que seria próximo de Ayrton Senna, Niki Lauda era daqueles “que toda a gente gostava à brava no paddock”. Ou, para simplificar, “era meio desaparafusado”, pois “estava sempre pronto para arrumar uma encrenca". Isso deve-se, arrisca, ao sangue austríaco, puxando pela lembrança outros exemplos como Gerhard Berger, Helmut Marko e Toto Wolff.

“O Niki era um sujeito extraordinário, era muito diferente. Vinha de uma família muito boa, de Viena. Começou a correr com dinheiro emprestado, apesar de vir de família rica. O avô dizia que um Lauda nunca devia estar nas páginas desportivas. Para estar num jornal, devia ser na primeira página com algo referente a economia. O Niki disse que chegaria à primeira página com uma notícia desportiva. Mostra um bocadinho a forma de ele ser…”