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De Farina a Hamil... aliás, Verstappen: 70 anos depois, a Fórmula 1 continua bem viva

O Red Bull de Max Verstappen ultrapassou os Mercedes de Valtteri Bottas e Lewis Hamilton (e, inicialmente, o Racing Point de Nico Hulkenberg) e venceu de forma brilhante o Grande Prémio do 70º aniversário da Fórmula 1, em Silverstone, o mesmo circuito onde o italiano Giuseppe Farina foi o primeiro vencedor

Mariana Cabral

O piloto italiano Giuseppe Farina venceu o primeiro Grande Prémio de Fórmula 1, em Silverstone, em 1950, e foi o primeiro campeão mundial

Hulton Archive

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13 de maio de 1950. Podia ter sido um sábado soalheiro como tantos outros (bom, em Inglaterra talvez não sejam assim tantos), não fosse uma história de 70 anos estar ali prestes a formar-se, sob o olhar atento, com pompa e circunstância, do rei Jorge VI e da rainha Isabel. O circuito de Silverstone recebia o primeiro Grande Prémio de Fórmula 1, numa década que ficaria marcada pela mestria de (Juan Manuel) Fangio, mas que teria como primeiro grande vencedor - da corrida britânica e do primeiro Mundial - o italiano Giuseppe Farina, da Alfa Romeo.

70 anos depois, a corrida em direção à bandeira axadrezada mantém-se igualmente feroz, mas quase tudo mudou, começando claramente pelas condições de segurança - os pilotos usavam então 'capacetes' de linho e havia apenas montes de feno a separar o alcatrão do público -, passando pela gigantesca dose de tecnologia envolvida em cada carro - o imbróglio com a Racing Point a comprová-lo - e terminando com o peso atual da Alfa Romeo - Antonio Giovinazzi e Kimi Räikkönen partiram para a corrida deste domingo em penúltimo e em último, respetivamente.

Bryn Lennon

Na frente, a surpresa mais ligeira da qualificação foi a 'pole' de Valtteri Bottas, que conseguiu roubar o primeiro lugar de partida a Lewis Hamilton, e a surpresa mais robusta foi o pódio de Nico Hulkenberg, que estava apenas a substituir Perez, ainda com covid-19.

Mas não era crível que o piloto substituto da Racing Point, que detém um recorde que ninguém quer - é o que tem mais corridas, 177, sem conseguir um pódio -, se mantivesse por lá: assim que os semáforos ficaram verdes, Bottas e Hamilton ainda prosseguiram nas mesmas posições, mas Max Verstappen ultrapassou imediatamente Hulkenberg, que passou a ter atrás dele o colega Lance Stroll.

Ainda assim, a pior partida foi claramente outra: a de Sebastian Vettel (que época para esquecer por parte da Ferrari), que fez um pião sozinho e caiu drasticamente para a última posição, depois de ter começado em 11º (acabou a corrida em 12º).

Pool

Depois do "pneugate" da semana anterior no GP britânico, quando Hamilton teve de terminar a corrida com um pneu furado e só não foi ultrapassado por Verstappen por um triz, os pneus da Mercedes pareciam novamente em condições duvidosas. À volta 25, o campeão mundial já se queixava de uma "bolha no pneu direito", que era claramente visível. Já antes, na 11ª volta, tinha sido Verstappen a tranquilizar a própria equipa relativamente aos pneus, quando lhe pediram para se afastar de Hamilton por precaução e o piloto rejeitou. E continuou, nas voltas seguintes, às mil maravilhas: "Os meus pneus estão ótimos, amigo, está tudo bem".

Era por isso que, à 26ª volta, só os pneus (duros) de Verstappen (e de Räikkönen) se mantinham, já com o holandês a passar para a liderança da corrida, depois das paragens dos Mercedes.

Mas, à 27ª volta, Verstappen parou mesmo e saiu das boxes atrás de Bottas. Só que o finlandês não aguentou muito mais do que uma mísera curva: Verstappen acelerou e voltou à liderança, com Hamilton a mostrar-se pouco satisfeito, dizendo à equipa não só que seria uma "ameaça" se Verstappen só parasse uma vez, nas 52 voltas previstas, mas também insinuando que a pressão dos pneus do rival poderia estar fora do permitido.

Bryn Lennon

Na 33ª volta, afinal, Verstappen parou mesmo novamente, tal como Bottas, o que deixou Hamilton temporariamente na liderança. Mas nem o britânico confiava que a bonança durasse, ao questionar se não teria um pneu em risco de rebentar.

A Mercedes sossegou-o e o campeão só parou, 2.7 segundos, na 42ª volta, tempo suficiente para Verstappen voltar para a liderança, Bottas avançar para 2º, Charles Leclerc para 3º e Hamilton, finalmente, para 4º.

O piloto mais novo da Ferrari, a salvar a honra da scuderia, dada a prestação de Vettel, não conseguiu, ainda assim, impedir a ultrapassagem de Hamilton, à 46ª volta (a mesma em que Kevin Magnussen, da Haas, desistiu). Seguia-se, agora, o colega Valtteri Bottas e, com quatro voltas para terminar a corrida, a mensagem via rádio foi clara para ambos os Mercedes: "Estão à vontade para correr".

Foi então à vontade que Hamilton acelerou e ultrapassou Bottas, na volta 50, agarrando o lugar menos mau: o 2º. É que, a nove segundos do líder, Hamilton já não conseguiria dificultar a vida a Verstappen.

E o piloto da Red Bull - equipa que ainda não tinha vencido esta temporada - seguia com a sua ligeireza habitual, já sabendo que sairia vitorioso. "Hidrataram-se durante a corrida? Devem estar com as mãos suadas por isso não se esqueçam de higienizá-las", gracejou, via rádio, mesmo antes de conquistar - muito graças à excelente estratégia de troca de pneus da equipa - uma corrida que tinha começado em 4º.

Dan Istitene - Formula 1

Lewis Hamilton - que ficou com a volta mais rápida - mantém-se, ainda assim, na liderança do Mundial, mas Bottas foi destronado da 2ª posição: Verstappen subiu a vice líder, com 77 pontos, a 30 do líder e com mais quarto do que o finlandês, que terminou a corrida em 3º lugar.

Nos restantes lugares que dão pontos, Leclerc (Ferrari) acabou em 4º, Alexander Albon (Red Bull) em 5º, Stroll (Racing Point) em 6º, Hulkenberg (Racing Point) em 7º, Esteban Ocon (Renault) em 8º, Lando Norris (McLaren) em 9º e Daniil Kvyat (Alphatauri Honda) em 10º.

Em dia de festa, boas notícias para a Fórmula 1: os Mercedes não são, afinal, imbatíveis.