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No dia em que a Williams disse adeus ao passado, toda a Fórmula 1 deu um salto ao futuro

Mais surpreendente era francamente difícil: Pierre Gasly, da Alpha Tauri, venceu pela primeira vez na carreira no GP Itália, uma corrida em que Carlos Sainz, da McLaren, foi segundo, e Lance Stroll, da Racing Point, terceiro. Lewis Hamilton acabou em 7º e Max Verstappen desistiu, tal como ambos os Ferrari, numa corrida louca

Mariana Cabral

Mark Thompson

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Antes do início deste Grande Prémio de Itália que vai ficar para a história (e já estamos todos a imaginar os bastidores disto no próximo "Drive to survive", não estamos?), ninguém adivinharia que o futuro estava já ali à espreita. Bem pelo contrário: na qualificação para a corrida, Lewis Hamilton até tinha conseguido a volta mais rápida de sempre da Fórmula 1, garantindo a sexta pole position da temporada, em oito corridas.

O piloto que mais vezes partiu do primeiro lugar da grelha na história da competição parecia ir ter mais um fim de semana descansado, daqueles que até a ele o aborrecem - "se eu fosse fã teria visto o início, voltava a dormir e acordava outra vez para ver o final", disse depois do GP Bélgica -, mas depois de um início de corrida relativamente banal, instalou-se a loucura.

Num fim-de-semana marcado pela despedida oficial da família Williams da equipa fundada por Sir Frank Williams e gerida pela filha, Claire Williams, que anunciou a sua saída, não foi apenas a ex-campeã mundial a dizer adeus ao passado.

O que vimos em Monza foi, na verdade, uma espécie de vislumbre do futuro: um além sem Lewis Hamilton, eterno campeão já com os seus 35 anos, com outros competidores a aproveitarem para mostrar qualidades para lutar pelas vitórias, como Pierre Gasly, 24 anos - de escorraçado da Red Bull à primeira vitória numa corrida em pouco mais de ano -, Carlos Sainz Jr., 26 anos, e Lance Stroll, 21 anos. Max Verstappen e Charles Leclerc, ambos com 22 anos, também deviam figurar neste lote, mas ambos tiveram uma tarde para esquecer, já que fizeram parte do lote de desistentes em Monza.

Rudy Carezzevoli

Recapitulando: a corrida até começou às mil maravilhas para o líder do Mundial, que acelerou em 1º e assim se manteve até meio da corrida. O principal prejudicado na partida foi mesmo o colega de Hamilton na Mercedes, Valtteri Bottas, que perdeu o 2º lugar em que começou, baixando rapidamente para 6º, queixando-se de problemas no carro, que não se confirmaram - a equipa não descobriu nada e o finlandês nem chegou a parar.

O mal de uns é a sorte de outros e foi assim que Carlos Sainz, que já tinha brilhado na qualificação, subiu de 3º para 2º lugar, vendo o seu colega na McLaren, Lando Norris, a fechar o pódio das primeiras voltas da corrida.

E foi também logo na quinta volta que a Ferrari, enfim, comprovou que parece piorar a cada corrida que passa: Vettel ficou sem travões e teve de desistir.

Foi à 20ª volta que tudo começou a mudar: Kevin Magnussen parou e teve de sair da pista, o que motivou a entrada do safety car - imediatamente antes deste momento, a AlphaTauri tinha mandado Gasly mudar os pneus, o que seria essencial para o que viria depois; e imediatamente após aquele momento, Hamilton também entrou na pit lane - que já estava fechada - para mudar de pneus.

A paragem fora de tempo de Hamilton seria penalizada com 10 segundos de atraso, algo que deixou o piloto da Mercedes furioso - foi, inclusivamente, discutir com os responsáveis, isto já depois da corrida parar por uma segunda vez, quando Charles Leclerc foi contra uma parede - saiu ileso.

Quando a corrida foi retomada, com 24 voltas ainda por disputar, Hamilton ressurgiu em 17º e último (!) lugar, o que permitiu aos novos competidores aproveitar o espaço: Gasly, que retomou já em 3º, ultrapassou Stroll e ficou na liderança, e Sainz subiu até chegar ao 2º lugar. O único que não aproveitou foi mesmo Max Verstappen, que foi à box e... abandonou, aparentemente por problemas no carro.

As últimas voltas foram de intensa pressão de Sainz sobre Gasly, mas o jovem francês aguentou-se com mestria, perante um adversário que parecia claramente mais rápido, e conquistou a sua primeira vitória - tal como a Alpha Tauri - sucedendo a Olivier Panis, o último piloto francês a sair vencedor, em 1996, no Mónaco. "Foi uma corrida tão louca. Passei por muito nos últimos 18 meses... Não tenho palavras. Esta equipa deu-me a minha primeira oportunidade, o meu primeiro pódio e agora a minha primeira vitória", disse Gasly no final, claramente extasiado.

Já Hamilton, com cara de poucos amigos, ainda recuperou alguns lugares, terminando em 7º e mantendo a liderança do Mundial - vai com 164 pontos, enquanto Bottas tem 117.

Depois de Hamilton, ficaram Ocon, Kvyat e Perez, e só é pena que Nicholas Latifi, 11º, por um triz, não tinha ficado nos lugares pontuáveis, tal como George Russell, que terminou em 14º. "É uma pena ver-te sair", disse, ainda no carro, Russell, dirigindo-se, em jeito de despedida, à líder Claire Williams, visivelmente emocionada com as palavras dos pilotos.

"Obrigado por tudo, do fundo do meu coração", acrescentou, à semelhança do que disse Latifi. "Obrigado por esta oportunidade que me deste. A Fórmula 1 vai sentir a tua falta. Vamos continuar a lutar pelo nome da Williams", prometeu. O futuro está aí ao virar da curva.

Resultados finais

1 Gasly (AlphaTauri)

2 Sainz Jr (McLaren)

3 Stroll (Racing Point)

4 Norris (McLaren)

5 Bottas (Mercedes)

6 Ricciardo (Renault)

7 Hamilton (Mercedes)

8 Ocon (Renault)

9 Kvyat (AlphaTauri)

10 Perez (Racing Point)

11 Latifi (Williams)

12 Grosjean (Haas)

13 Raikkonen (Alpha Romeo)

14 Russell (Williams)

15 Albon (Red Bull)

16 Giovinazzi (Alfa Romeo)

Monza marca o fim: 43 anos e 739 corridas depois, a família Williams vai deixar a Fórmula 1

Claire Williams, filha do fundador Sir Frank Williams, que substituiu o pai em 2013 aos comandos da histórica equipa, anunciou que deixará a Williams logo a seguir ao GP Itália. A decisão surge pouco tempo depois da escuderia ser vendida à Dorilton Capital. O renascer da Williams será feito à margem da família, mas a equipa deverá manter o nome