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A maldição da Netflix, mais um não muito emocionante Grande Prémio da Rússia

Valtteri Bottas é da Mercedes e foi o mais rápido em Sochi, mas quem luta pelo título mundial e é a figura da equipa acabou em terceiro, após ser alvo de duas penalizações. Não foi desta que Lewis Hamilton igualou o recorde de vitórias de Michael Schumacher em Grandes Prémios e, coincidência ou não, aconteceu na corrida em que os produtores da série "Drive to Survive" voltaram a acompanhar a equipa alemã

Diogo Pombo

Este é Valtteri Bottas, a banhar-se com champanhe após conquistar o Grande Prémio da Rússia

MAXIM SHEMETOV/Getty

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Há dois anos, a fauna tão peculiar que é o paddock da Fórmula 1 abriu as portas a uns cuscos, uma espécie curiosa, na forma de repórteres de imagem, tipos munidos de perguntas, microfones colocados estrategicamente, enfim, gente não nativa da velocidade, que por ali começou a andar e a ver o que se passava no reino dos pilotos, dos engenheiros, das equipas, dos egos, das politiquices e dos interesses endinheirados que têm no acelerar uma forma de vida.

A Fórmula 1 deixou entrar a Netflix. A Netflix captou o que queria, ou o que a deixaram gravar, dramatizou a preceito. A Netflix atraiu o interesse de gentes a quem a Fórmula 1 talvez não dissesse nada e terá sido isso, também, a fazer a Ferrari e a Mercedes mudarem de ideias: as duas principais equipas negaram-se a participar na primeira temporada, mas acederam a entrarem na segunda, como aceitaram, também, estar na terceira que agora está em plena gravação, em plena pandemia.

Este contexto vem a reboque do Grande Prémio da Rússia, este domingo vencido por Valtteri Bottas, finlandês com ordem para acelerar dentro de um Mercedes, porque era a corrida em que as câmaras da Netflix iam focar-se na escuderia alemã, presumivelmente não devido às façanhas do simpático Bottas, mas atraídas para o carismático Lewis Hamilton - o inglês está a um título mundial de igualar os sete de Michael Schumacher e faltava-lhe uma corrida para também chegar às 91 vitórias em corridas.

A primeira hipótese ainda é bem possível, a segunda idem, mas adiada ficou em Sochi, porque Hamilton foi castigado com duas penalizações de cinco segundos, ao praticar o arranque no final da volta de aquecimento, onde não lhe era permitido. O inglês chegou aos 10 pontos de penalização esta época, fasquia que jamais um piloto ultrapassou na história da Fórmula 1, pois a partir daí virão consequências mais a sério: se, por acaso, foi penalizado com outros dois pontos, o próximo castigo do inglês será a suspensão por uma corrida.

A dupla penalização deixou Hamilton no terceiro lugar do Grande Prémio, com Max Verstappen, da Red Bull (após não terminar as duas corridas anteriores), entre ele e Bottas, todo um estado de coisas que deu em reminiscência do que aconteceu o ano passado, em Hockenheim. Era a corrida que assinalava o 125 aniversário da Mercedes, em casa, e um embate contra as barreiras de proteção de pista e uma paragem nas boxes de 50 segundos o fizeram o inglês terminar na 9.ª posição. Bottas teve um acidente e nem terminou a corrida.

E era o dia em que a Netflix estava a concentrar todas as atenções na Mercedes.

Daí se colou uma maldição, fez-se por navegar na maré de azares e misticismos, até Toto Wolff, o chefe da equipa, embarcou na viagem e este Grande Prémio da Rússia tramou Lewis Hamilton, embora não por intervenção invisível dos deuses da sorte, sim por culpa própria. Ae, ao menos, Valtteri Bottas acabou por ser o mais rápido, ficando com a nona vitória da carreira e a segunda em Sochi, que não parece livrar-se tão cedo de ser anfitriã de corridas um pouco devedoras à emoção.

De ultrapassagens, carros colados, pilotos a picarem-se e batalhas entre arriscar por dentro ou por fora de curvas houve coisa pouca. Entusiasmante terá sido apenas a luta pelo 8.º lugar, tida por Esteban Ocon (Renault) e Daniel Kyvat (Alpha Tauri).