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Há 25 anos, Pedro Lamy conquistou o primeiro ponto português na F1: "Um 6.º lugar naquela altura sentia-se como uma vitória"

A 12 de novembro de 1995, com um modesto Minardi, Pedro Lamy era um dos oito pilotos que terminava um caótico GP Austrália, na altura a prova que encerrava o Mundial de Fórmula 1. À Tribuna Expresso, o piloto de 48 anos recorda o feito, aquele 6.º lugar que para lá de fazer Portugal pontuar pela primeira vez na categoria, ainda fez a sua equipa poupar muitos milhões na temporada seguinte

Lídia Paralta Gomes

Michael Cooper/Getty

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Naquele fim de semana de novembro, Adelaide era uma festa. Os australianos que moravam na cidade a 650 quilómetros de Melbourne saíam às ruas por onde todos os dias andavam, mas que uma vez por ano fechavam para que por ali passassem os carros mais rápidos do Mundo. Foi durante muitos anos a última paragem do Mundial de Fórmula 1, um circuito citadino nos antípodas e que para Portugal também significa festa.

Porque a 12 de novembro de 1995, há 25 anos portanto, naquele que seria o último GP Austrália em Adelaide, Pedro Lamy conquistou pela primeira vez um ponto, o primeiro para ele, o primeiro para Portugal na Fórmula 1, ao levar o seu modesto Minardi ao 6.º lugar, na altura o último que dava pontos - hoje pontuam os 10 primeiros. Nas bancadas, 210 mil pessoas. Por aqueles dias também um recorde.

Hoje, e por hoje leia-se 12 de novembro de 2020, a nossa linha telefónica vai encontrar a linha de Pedro Lamy também numa pista. Não na de Adelaide, mas igualmente a Este, no Bahrain. À última hora, Pedro Lamy foi convidado para participar nas 8h do Bahrain, última prova do Mundial de Resistência, depois do positivo à covid-19 de Alex Lynn ter provocado uma cadeia de trocas na entry list.

“Não estava em Portugal quando me ligaram, vim para cá direto, nem sequer trouxe as minhas coisas”, conta à Tribuna Expresso, com os sons dos mecânicos a trabalhar como música de fundo. Na verdade, à partida, tudo o que necessita é do talento para correr, o mesmo que o levou ao 6.º lugar naquele GP Austrália em 1995, depois de partir de um pouco auspicioso 17.º posto da grelha, e que Lamy recorda essencialmente com um dia salvador para a Minardi.

“Foi muito importante principalmente para a equipa. Aquele ponto em termos financeiros significou muito dinheiro”, lembra o piloto de 48 anos. O único ponto da Minardi naquela temporada permitiu à equipa italiana agarrar o 10.º lugar no Mundial de construtores, à frente da Forti e da Pacific. Na prática isso significava uma poupança de, diz o “Autosport”, qualquer coisa como o equivalente a mais de três milhões de euros para a época seguinte. “Por exemplo, pagavam muito menos nos transportes para as corridas fora da Europa. No fundo foi dinheiro que a equipa deixou de ter de gastar. E é muito complicado gerir uma equipa com problemas financeiros”, explica Lamy.

Sobre a corrida, o piloto recorda “um grande prémio com muitas desistências”. Na verdade, apenas oito dos 23 carros que começaram a corrida terminaram, num fim de semana marcado pelo brutal acidente de Mika Hakkinen nos treinos de sexta-feira e por um pódio pouco usual: Damon Hill foi primeiro, e até aqui tudo normal, mas em segundo ficou Olivier Panis, num Ligier, e em terceiro Gianni Morbidelli, num Footwork que normalmente andava pelo meio da tabela - foi o primeiro e único pódio do piloto italiano na F1.

Mesmo com um pião a meio da prova, Lamy foi um dos que resistiu ao caos que se tornou aquele GP Austrália, terminando a morder os calcanhares a Mika Salo, num Tyrrell bem mais competitivo que o Minardi do português.

Lamy correu na Minardi em 1995 e 1996

Lamy correu na Minardi em 1995 e 1996

Paul-Henri Cahier/Getty

“Desistiu muita gente, senão não tínhamos hipóteses de lutar. A Minardi não era uma equipa muito competitiva. Fiz um pião, mas consegui voltar à pista e terminei na mesma em 6.º. Não andávamos na luta pelos primeiros lugares e um 6.º lugar naquela altura sentia-se como uma vitória”, sublinha. O já campeão Michael Schumacher, na sua última temporada na Benetton, foi um dos que não acabou.

No final, houve “uma festazinha, mas não muito grande”, recorda o piloto português, lembrando Adelaide como um “grande prémio muito animado” e com um ambiente que “faz falta” à Fórmula 1.

Anos de resultados pouco felizes

Pedro Lamy estreou-se na Fórmula 1 em 1993, ao fazer as quatro últimas corridas do ano com a Lotus. No ano seguinte, tornou-se piloto permanente da equipa britânica mas em maio um grave acidente num teste privado em Silverstone a mais de 240 quilómetros por hora provocou-lhe várias fraturas, incluindo nas duas pernas.

Em 1995, após uma longa recuperação, assinou com a Minardi para fazer a segunda parte da temporada. Mas as dificuldades da equipa nunca permitiram ao português fazer mais do aquele ponto. “O ambiente da equipa era ótimo, tinham ótimos profissionais, mecânicos, engenheiros. O dono, o Giancarlo Minardi, era uma pessoa cinco estrelas, sempre muito positivo. Mas não estar num carro competitivo, que nos permitisse lutar por lugares na frente torna as corridas menos interessantes”, refere Lamy, que recorda que o chassis da Minardi era “bastante equilibrado”, mas a falta de potência do motor Cosworth tornava as ambições da equipa muito limitadas.

“Era um carro interessante de guiar. Se os outros tivessem a mesma potência que nós as coisas teriam sido completamente diferentes. Mas por isso é que foi tão saboroso aquele ponto, porque sabíamos que a possibilidade de pontuar era muito pequena”, sublinha.

Pedro Lamy ainda correu em 1996 pela Minardi - que em 2005 foi comprada pelo grupo Red Bull, lançando as bases para o que é hoje a Alpha Tauri -, antes de fazer a despedida definitiva da Fórmula 1 no GP Japão desse ano. A partir daí dedicou-se à resistência, tornando-se campeão mundial no GT2 em 1998. Nas 24 horas de Le Mans, foi duas vezes 2.º à geral com a Peugeot, em 2007 e 2011, antes de vencer na categoria GTE-Am em 2012.

Lamy no GP Monaco em 1994, ainda na Lotus

Lamy no GP Monaco em 1994, ainda na Lotus

Jean-Yves Ruszniewski/Getty

E no meio de todo este sucesso, onde fica aquele ponto conquistado há precisamente 25 anos? “O chegar à Fórmula 1 é a realização de um sonho e depois conseguir pontuar foi muito positivo, de alguma forma remata a minha passagem pela Fórmula 1. Infelizmente não tive possibilidades de ter melhores resultados, mas posso dizer que ficou marcado na minha carreira”, conta.

Ainda assim, Lamy diz que não pode dizer que tenha sido dos seus dias mais felizes atrás de um volante: “Momentaneamente sim, foi uma sensação ótima para a equipa, mas durante toda a carreira estive habituado a vencer. E a minha passagem pela Fórmula 1, em geral, não foi muito feliz porque um piloto gosta é de vencer corridas e lutar por campeonatos. Mas marcar um ponto é um marco histórico, porque fui o primeiro português a pontuar na Fórmula 1 e tenho de guardar o momento com carinho. É algo que não vou esquecer para o resto da vida”.

No sábado, ainda que de surpresa, haverá nova etapa na carreira de Pedro Lamy, nas 8 horas do Bahrain, onde vão correr também o já campeão do Mundo nos LMP2 Filipe Albuquerque e, na mesma categoria, António Félix da Costa.