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Mick Schumacher, o rapaz que começou a correr sem usar o nome do pai, chega à Fórmula 1. E por direito próprio

Começou a competir nos karts como Mick Betsch, usando o apelido da mãe, mas os resultados desde logo o denunciaram. Aos 21 anos, e depois de um percurso de sucesso nas fórmulas de promoção, Mick Schumacher vai fazer a estreia na Fórmula 1 no próximo ano, com as cores da Haas. A pressão do nome está lá, mas Mick não é Michael, apesar do pai, há anos recolhido após um acidente de esqui, ser o seu ídolo

Lídia Paralta Gomes

NurPhoto/Getty

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“É a maneira como ele inclina a cabeça quando ouve uma questão, a forma que ele dá aos lábios quando está a controlar-se antes de entrar num território onde não deseja entrar”. Mark Hughes foi editor da revista “Autosport” durante 10 anos e anda pelos paddocks da Fórmula 1 há muito mais. Em março de 2019, no fim de semana em que Mick Schumacher fazia a estreia na Fórmula 2, uma das categorias de promoção que servem de porta de entrada para a Fórmula 1, o jornalista escrevia na “Motorsport” que as semelhanças nos maneirismos entre Mick e o seu pai, o sete vezes campeão do Mundo Michael Schumacher, eram “assustadoras”.

Há coisas que nos são naturais e que são impossíveis de esconder. Porque vêm de casa, da nossa infância. Os gestos, a forma de falar. Aí, Mick Schumacher, que no próximo ano fará a sua estreia na Fórmula 1, na Haas, é mesmo filho do seu pai e não há forma de disfarçar. Mas quando começou a fazer as primeira competições de karting aos oito anos, Mick surgia nas folhas de tempos como “Mick Betsch”. Betsch é o apelido de solteira da mãe Corinna e a proteção do nome materno afastou inicialmente os olhares do mundo do pequeno Mick, que nasceu em 1999, quando o pai já era duas vezes campeão mundial de Fórmula 1.

Contudo, os bons resultados e as parecenças físicas com o pai logo o arrancaram de um anonimato que Mick preferiu ter, porque ele é Mick e não Michael, apesar do pai ser o seu grande ídolo. Ser filho de antigo piloto traz carga acrescida, mas pilotos como Kevin Magnussen ou Max Verstappen, falando só de atuais nomes da grelha, tiveram uma vantagem: nasceram bem mais talentosos que os respetivos pais, que passaram mais ou menos incógnitos pela Fórmula 1. Já Mick tem atrás das costas o peso que nenhum outro piloto alguma vez teve, até porque o pai é o único, em igualdade com Lewis Hamilton, a conseguir sete títulos. Pedir-lhe melhor, é pedir-lhe aquilo que até hoje nunca foi feito.

Rudy Carezzevoli/Getty

O nome Schumacher importa, claro: Mick é o sonho de qualquer diretor de marketing e a delapidada Haas poderá beneficiar, e muito, da exposição que o alemão nascido na Suíça, onde cresceu e ainda vive, lhe trará. Mas Mick é também um piloto com resultados. Nunca foi absolutamente dominador nas categorias de acesso, mas cresceu paulatinamente, sem queimar etapas e sem passos em falso, fazendo o seu caminho de forma segura e sem grande fanfarra até chegar ao topo das diversas fórmulas. E muito provavelmente chegará à Fórmula 1 como campeão da Fórmula 2, um título que tem todas as condições para confirmar este fim de semana nas duas últimas provas do campeonato, no Bahrain, seguindo os passos de nomes como Charles Leclerc ou George Russell, também eles campeões da F2.

Os primeiros passos

Mick entrou pela primeira vez num kart com apenas dois anos e meio e com o apoio e aconselhamento do pai começou a competir em 2008, ainda como Mick Betsch. Em 2014, então já com o nome de Mick Junior, sagrou-se vice-campeão europeu e mundial com os pequenos e rápidos veículos, o primeiro amor de quase todos os pilotos.

Por esses dias, já a família Schumacher vivia um drama que se estende até hoje: em finais de 2013, tinha Mick apenas 15 anos, Michael sofreu um acidente de esqui e esteve em coma até junho do ano seguinte. Em 2015, no seu primeiro ano nos fórmulas, Mick optou finalmente por correr com o nome do pai.

A sua passagem pela Fórmula 4 foi o espelho daquilo que marcaria a carreira de Mick até hoje: um primeiro ano para se adaptar, um segundo para lutar pelo título. Depois de um 10.º lugar final na estreia, no ano seguinte foi vice-campeão tanto na Fórmula 4 alemã como na italiana, entrando na Fórmula 3 com a Prema, uma das mais bem-sucedidas equipas nas fórmulas de promoção e que já tinha representado no ano anterior.

Tal como na Fórmula 4, o seu primeiro ano na Fórmula 3 não foi totalmente feliz, conseguindo como melhor resultado um 3.º lugar em Monza. Em 2018, no seu segundo ano na F3, nada correu bem na primeira metade da temporada e a meio do ano era apenas 10.º. Contudo, uma vitória em Spa, onde curiosamente o pai venceu o seu primeiro GP de Fórmula 1, foi como um catalisador para a reviravolta: daí até final, Mick foi o mais regular dos pilotos, venceu mais sete corridas e sagrou-se campeão da categoria, com um total de 14 pódios. Num campeonato por onde passaram e passam quase todos os maiores campeões da Fórmula 1, o título na F3 foi a prova provada que Mick não era apenas o filho de Schumacher, mas um piloto com méritos próprios.

E como não há duas sem três, a sua caminhada na Fórmula 2 está a emular o que aconteceu na Fórmula 4 e Fórmula 3: um primeiro ano complicado, com vários erros e problemas de consistência e uma resposta à altura no ano seguinte. Em 2019, como rookie, foi apenas 12.º no final do ano, com uma vitória na corrida sprint do GP Hungria. Agora, um ano depois, o título está perto: numa categoria tão equilibrada como é a Fórmula 2, Mick tem-se destacado em 2020 por ser mais consistente que os outros. Apesar de ter apenas duas vitórias em 22 corridas, subiu 10 vezes ao pódio e tem muitas outras corridas terminadas entre os pontos. Não sendo um talento puro em qualificação, o seu calcanhar de Aquiles, Mick parece ser um bom exemplo daquilo que se chama de “piloto de domingo”, que se destaca nas corridas.

A cultura de corridas

Mick habituou-se desde cedo às cores, aos sons e cheiros e ao ambiente electrizante do paddock da Fórmula 1. E quem o conhece diz que isso se nota.

“É daqueles pilotos em que logo na primeira vez que trabalhei com ele deu para ver que tinha cultura de corridas. Vê-se que teve muitos ensinamentos dos tempos em que o pai o acompanhava nos karts”, contou Nuno Pinto, o português que treina Lance Stroll numa entrevista à Tribuna Expresso em setembro de 2019, quando trabalhava na estrutura da Prema, bem perto do jovem alemão.

E dá um exemplo dessa tal cultura de corridas: “A primeira vez que ele testou Fórmula 4 connosco, saía do carro e ia olhar para os pneus, coisa que outros pilotos não ligam. Ele aprendeu isso do pai”, disse então Nuno Pinto, caracterizando Mick Schumacher como alguém “eticamente muito correto, muito educado, muito humilde”, alguém “com os pés bem assentes na terra”, mesmo com toda a pressão que tinha - e tem - nos ombros.

Uma pressão que terá aumentado com a entrada de Mick para a Ferrari Driver Academy no início de 2019. Mas também se abriram muitas portas. Logo nesse ano testou com a Ferrari e com a Alfa Romeo, com resultados interessantes, e esta temporada foi chamado pela Alfa Romeu para fazer o primeiro treino livre do GP Eifel, em Nurburgring. O mau tempo acabou por cancelar a sessão e a estreia oficial do jovem Schumacher na Fórmula 1 ficou adiada - deverá acontecer no primeiro treino livre do GP Abu Dhabi, a última prova do calendário, já com a Haas.

SOPA Images/Getty

Na Fórmula 1, Mick Schumacher terá desde já um desafio bem mais complicado que o pai: ser competitivo logo na estreia. Em 1991, Michael estreou-se na Fórmula 1 como piloto de substituição na Jordan no GP Bélgica, conseguindo logo um sétimo lugar na qualificação. Na corrida seguinte, já estava na Benetton, equipa então candidata a pódios, com a primeira vitória a surgir logo no ano seguinte - em 1992 subiu oito vezes ao pódio e terminou o ano em 3.º no Mundial de pilotos. Os primeiros títulos mundiais, ainda com a Benetton, chegariam em 1994 e 1995.

Mas a Haas está longe do potencial da Benetton. Depois de surpreender pela sua competitividade nos primeiros anos na Fórmula 1, conseguindo mesmo um 5.º lugar entre os construtores em 2018, nas últimas duas temporadas a Haas tem sido uma das mais desapontantes equipas da grelha, situação agravada este ano pela falta de desempenho dos motores Ferrari.

Com uma situação financeira delicada, a equipa vai correr no próximo ano com dois rookies, Nikita Mazepin, filho de um dos homens mais ricos da Rússia e neste momento 3.º classificado na F2, e Mick Schumacher, que chega à Haas também como parte do acordo da equipa com a Ferrari para fornecimento de unidades motrizes. A grande vitória de Schumacher passará, essencialmente, por fazer melhor que o colega de equipa e superar o score da Haas este ano, em que fez apenas três pontos, graças a um 9.º lugar de Romain Grosjean e um 10.º de Kevin Magnussen. Pior, só mesmo a Williams, que ainda não pontuou.

Parece faltar a Mick o instinto matador do pai, aquela competitividade implacável que o levava não poucas vezes a ultrapassar alguns limites dentro de pista para vencer. Mas dentro de Mick está o método e o foco de Michael, o profissionalismo, a capacidade de trabalho e a confiança. Olhando para o currículo e não para o BI, Mick Schumacher é piloto da Fórmula 1 por direito próprio, depois de anos e anos de pressão e expectativas às quais respondeu com aquilo, no final de contas, interessa: bons resultados e títulos.