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Fórmula 1

A Fórmula 1 em 2020: primeiro não aconteceu nada. Depois aconteceu tudo

A pandemia quase riscou 2020 da Fórmula 1, mas o regresso deu-nos um dos Mundiais mais animados de que há memória: “desafiante” e “excitante”, diz à Tribuna Expresso Óscar Góis, comentador da Eleven, antes da última prova, em Abu Dhabi (13h10, Eleven)

Lídia Paralta Gomes

Clive Mason - Formula 1

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A temporada 2020 da Fórmula 1 começou por ser nada, depois foi tudo e mais um bocadinho, e por isso nunca será fácil de definir. “Desafiante” e “excitante” são dois adjetivos que rimam e os dois adjetivos que Óscar Góis atira para falar de um ano como nenhum outro e que terá o seu final este fim de semana, no GP de Abu Dhabi.

A voz de Óscar é aquela que ouvimos em Portugal quando os cinco semáforos vermelhos se desligam e arranca a corrida — é assim há quase dois anos, desde que a Eleven garantiu a transmissão do Mundial de F1 para o nosso país. O desafio, diz o comentador, esteve “no excelente trabalho da Liberty, ao condensar uma temporada que devia durar 10 meses em cerca de cinco”, mas também no seu próprio trabalho. A pandemia não permitiu que a equipa do canal estivesse presente nas provas programadas, mas rapidamente a F1 e as equipas fizeram aquilo que todos nós, de uma maneira ou de outra, fomos obrigados a fazer em 2020: adaptarmo-nos.

Uma adaptação que começou em março, quando a extensa caravana da F1 já estava instalada em Melbourne para o primeiro GP do ano. Os primeiros casos de covid-19 na McLaren, e posterior recusa da equipa britânica em participar na prova, precipitaram aquilo que já todos esperavam: o GP da Austrália não aconteceu e o Mundial, com um calendário encolhido, só voltaria em julho, na Áustria.

WILLIAM WEST

E, quando voltou, a F1 era diferente, adaptada ao momento social, com a Mercedes a correr de negro e vários pilotos a escolherem ajoelharem-se antes de cada prova, solidários com o movimento Black Lives Matter. Daí para cá, a temporada 2020 da F1 continuou desafiante, mas tornou-se também uma das mais excitantes de que há memória, ainda mais para nós, portugueses. “Excitante pelo regresso, 24 anos depois, do GP de Portugal, mas também pelas peripécias da temporada”, diz-nos Óscar Góis.

Entre elas destaca “a estreia em vitórias de Pierre Gasly”, francês da AlphaTauri, num GP de Itália que marcou o primeiro triunfo de um carro não Mercedes, Ferrari ou Red Bull desde 2013. E também “a primeira vitória de Sergio Pérez”, há uma semana, no seu 190º GP. Por fim, consequência direta dos casos de covid-19 entre os pilotos, “o regresso de Hulkenberg e a estreia de George Russell ao volante do Mercedes W11, deixando boas perspetivas de futuro”.

Recordes e uma vida ganha

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Olhando para 2020, não há como fugir, diz-nos Óscar Góis, “à forma como Lewis Hamilton se voltou a impor”, este ano mais do que nunca, com 11 vitórias nas até agora 16 corridas disputadas, igualando os sete campeonatos de Michael Schumacher.

Em Portugal, o britânico da Mercedes chegou à vitória 92ª da carreira, outro recorde roubado ao kaiser alemão, que no próximo ano terá o filho Mick na grelha, a correr pela Haas. Isto num 2021, o último ano antes de uma profunda mudança de regulamentos, que poderá marcar definitivamente a ultrapassagem de Hamilton a Michael no topo da lista dos pilotos com mais títulos.

E num 2020 em que tudo aconteceu, a F1 deu-nos também um dos momentos mais catárticos deste ano de pandemia, em que nos habituámos a esperar o pior. No GP do Bahrain, logo à primeira volta, o Haas de Romain Grosjean enfaixou-se a 221 km/h nos rails de proteção da curva 3, partindo-se em dois antes de se transformar numa enorme bola de fogo.

TOLGA BOZOGLU

Há três anos, um acidente assim seria provavelmente fatal para o francês, mas todas as medidas de segurança que a F1 implementou nas últimas décadas uniram-se para salvar uma vida, nomeadamente o sistema HANS, de proteção da cabeça e do pescoço, adotado em 2003, ou a célula de segurança feita em fibra de carbono e alumínio e que ficou intacta no acidente.

Mas também o fato de competição, que aguenta altas temperaturas e que deixou Grosjean sem queimaduras graves no corpo apesar dos quase 30 segundos que demorou a sair do incêndio. Mas principalmente o Halo, a estrutura de titânio colocada acima do cockpit. Em 2018, quando foi introduzido, foi duramente criticado, mas por estes dias, depois daquela imagem do carro de Grosjean enfiado dentro de um rail, ninguém se atreverá mais a rejeitá-lo.