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Fórmula 1

Sua alteza gelada, Kimi Räikkönen

Tem 41 anos, é o piloto mais velho hoje na Fórmula 1, odeia entrevistas, intervenções públicas e tudo o que não implica estar dentro do carro, mas é o boomerang dessa aversão que, em parte, explica como Kimi Räikkönen é um dos tipos mais populares da modalidade. Nuno Pinto, treinador de pilotos e atualmente a trabalhar com Lance Stroll (Aston Martin), ajuda-nos a explicar o finlandês que "só quer sentar-se no carro e andar", como fez o ano passado, na primeira volta épica no Grande Prémio de Portugal

Diogo Pombo

O finlandês estreou-se na Fórmula 1 em 2001 e foi campeão do mundo em 2007, com a Ferrari

Laurent Charniaux - Pool/Getty Images

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Ele sabe o que está a fazer, deixem-no em paz e cale-se quem lhe entrar pelo capacete e importunar-lhe os ouvidos, Kimi-Matias até perde um lugar na partida em Portimão por o arranque nem ser bestial, mas o fim da reta desencadeia a colheita dos frutos da sua opção em começar com pneus macios no Algarve húmido no ar, nublado nos céus e com feitio estranho nos dias anteriores, parecia estar de chuva sem realmente estando e quando esteve, chuviscou um pouco antes da largada da corrida.

As gotas tiram temperatura ao alcatrão e tipo de borracha escolhido canta para Kimi, o finlandês encanta-se e à terceira curva já tomou três posições, é 14.º. A limpeza com que sai da quarta curva deixa-o em 12.º, o macio dos pneus dá-lhes um maior aquecimento, estimula-lhes a aderência e lá vai ele ultrapassando carros melhores e mais rápidos por fora.

Está entre os 10 primeiros quando chega à esquizofrenia das subidas e dos declives do circuito de Portimão, no troço final da pista supera o segundo Ferrari, faz um RedBull comer-lhe o pó e até na reta deixa para trás outro carro. Finda a primeira volta, Kimi Käikkönen é 6.º com o seu vagaroso Alfa Romeo na escala de velocidade da Fórmula 1, com os seus 40 anos e com a sua lacónica forma de estar, pensou: “o que é que os outros estão a fazer?”.

Apesar da proeza ultrapassante, o finlandês terminou o último Grande Prémio de Portugal, em outubro, na 11.º posição. Uns meses volvem e o finlandês está sentado, outra vez, em Portimão, equipado e de boné e da maneira que não gosta, aliás, odeia, tem um microfone na lapela e uma câmara apontada à cara tapada pela máscara.

Só os olhos azuis estão à vista, congelados na expressão e de globos bem abertos, parecem fitar um fantasma a todo o pestanejar e, a dia de retornar ao circuito algarvio, encaram o jornalista que ousa questioná-los acerca daquela primeira volta: “o meu filho viu essa primeira volta algumas vezes, de certeza. Eu não, estava lá, sei o que aconteceu”.

O inquiridor é um sortudo por merecer tantas palavras.

Ler Kimi Räikkönen é capaz de ser a mais árdua das tarefas da Fórmula 1. O finlandês faz vida de não deixar que o leiam e cinge-se, de trombas postas, a simplesmente conduzir. Uma das linhas da descrição que consta na sua página de Wikipédia dá-lo como “conhecido pela sua personalidade reservada e relutância em participar em eventos de relações-públicas” e põe-nos a ler um eufemismo sobre o piloto que já vai nas 41 voltas ao sol dadas sem paciência no depósito para se dedicar a tarefas fora do monolugar.

É feitio e Nuno Pinto atesta-o à Tribuna Expresso. Nunca privou por aí além com o finlandês, nem fácil é de o conseguir, “quando há momentos com vários pilotos juntos, ele está um bocadinho mais distante e à parte”, descrição que surpreenderá ninguém. O treinador de pilotos português, hoje a trabalhar com Lance Stroll, da Aston Martin, argumento que Räikkönen, com os anos, terá visto que “até algumas pessoas achavam graça, foram-no deixando manter essa atitude e tem evoluído, se calhar, no mau sentido, de estar ainda mais desligado das coisas acessórias”.

Bem saberá quais são. O primeiro ano de Kimi nesta andança foi em 2001, acabado de vir de apenas dois anos da Fórmula Renault, então o único patamar entre os karts e os chassis da Fórmula 1. Chegou “sem preparação nenhuma” e “impressionou logo toda a gente pela sua rapidez” na Sauber, depois na McLaren e mais tarde na Ferrari, “sempre rapidíssimo”, onde foi campeão do mundo, em 2007, por apenas um ponto e só na derradeira corrida.

Kimi Räikkönen com a Sauber, no início do século

Kimi Räikkönen com a Sauber, no início do século

Steve Mitchell - EMPICS

Tem 21 vitórias na carreira, 103 pódios, 1863 pontos conquistados e, mesmo assim, não o terão apanhado a rir por mais do que uns cinco segundos, sorrir é um obséquio de Räikkönen e à postura taciturna, devota a ser lacónica, foi juntando episódios que lhe deram a aura de não ser uma pessoa, mas um enorme encolher de ombros para tudo.

Em 2006, no Mónaco, saltou para o jacuzzi do seu iate, de nome “Mais Um Brinquedo”, com a corrida ainda a decorrer e após a ter abandonado devido a sobreaquecimento do carro; em 2009, durante uma paragem de bandeira vermelha durante o Grande Prémio da Malásia, o finlandês decidiu comer um gelado nas boxes; e reza a sua história de que esteve a fazer uma sesta até meia horas da sua prova de estreia na Fórmula 1. É desnecessário justificar que a sua alcunha é "The Iceman".

Kimi tem “o caráter mais diferente de todos na Fórmula 1” e “não se preocupa minimamente”. Nuno Pinto palpita que “alguns fãs, se calhar os mais puristas, gostam dessa atitude”, que é um boomerang empurrado de volta com a brisa de um paradoxo - o que o finlandês desdenha e lhe molda a atuação pública acabou, ao longo dos anos, por lhe aumentar a popularidade.

É uma atitude que acaba por ser um “‘o que eu quero é saber das corridas’” para depois se marimbar para tudo o que considera estar para lá “de conduzir” e de saber “se o carro anda ou não”. Até os engenheiros que lhe entram pelos ouvidos, durante as corridas, alertando-o para a temperatura dos pneus - “sim, sim sim, não têm de me dizer a cada 10 segundos” - ou o tempo a que distam os adversários - “cala-te, eu sei o que estou a fazer!” - sofrem com o temperamento do piloto.

Kimi a festejar o título mundial, em 2007, com a Ferrari, no circuito de Interlagos, no Brasil

Kimi a festejar o título mundial, em 2007, com a Ferrari, no circuito de Interlagos, no Brasil

Paul-Henri Cahier/Getty

Os dias de Kimi Räikkonen a acelerar por vitórias e pódios não deverão voltar, nem as equipas grandes o quererão nas fileiras, a desdenhar os deveres de marketing ou de relações-públicas sem lhes conceder uma singular patavina de preocupação. “Têm muitos patrocinadores importantes, que precisam que os pilotos estejam abertos a fazer tudo o que for preciso para manterem esses patrocinadores contentes”, explica Nuno Pinto, acrescentando que o piloto “já não anda aqui pela fama ou pelo dinheiro”.

Nos seus olhos gélidos há a “paixão pelo desporto automóvel”, comprovada também, em parte, pelas 21 corridas que, “como bom finlandês que é”, Räikkönen fez no Campeonato do Mundo de Ralis durante o hiato sabático (2009-2012) longe da Fórmula 1, “sem se preocupar com a imagem de ir andar a ser aviado pelos especialistas”. Quando regressou, acabou em 3.º e 5.º as épocas que fez com a modesta Lotus, antes de regressar à Ferrari.

Um piloto “muito multifacetado e com muita técnica, Kimi Räikkönen adapta-se “facilmente a várias situações”. Continuará a ir dizer “duas ou três palavras” a todas as entrevistas, conferências ou diligências para as quais logrem arrastá-lo, fará “aquele ar de maior frete do mundo” e ir-se-á embora para perto da mulher, da filha e do filho mais velho que já vai pondo a conduzir karts.

Ou do carro de Fórmula 1 mais próximo, onde “já não tem nada a provar, não está sob pressão, nem preocupado” e, de vez em quando, tem momentos como aquele do Grande Prémio de Portugal passado. Kimi “tomou mais riscos do que os outros” e fez mais do que existir cerimonialmente na Alfa Romeo, onde “dá jeito”, não o chatearão muito e por certo o finlandês tão pouco “captará as gerações mais novas”, a salivar por redes sociais, tiradas superficiais e “posts a torto e a direito”.

Kimi Räikkönen está aqui para conduzir.