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Fórmula 1

Acidente, penalização, Hamilton. O mal de Verstappen foi o bem do heptacampeão

A oitava vitória caseira de Lewis Hamilton, em Silverstone, equivale à 99.º corrida conquistada na carreira do piloto britânico. Nem os 10 segundos de penalização por provocar um acidente a Max Verstappen, que tirou o holandês da prova e o obrigou a ir fazer exames a um hospital, impediu o heptacampeão mundial da Mercedes de voltar a celebrar esta temporada. E, de repente, Hamilton já só está a oito pontos de Verstappen

Diogo Pombo

Lars Baron / POOL

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A corrida começou, o sol queima o alcatrão de Silverstone e o céu está radiante, nem uma nuvem a amarelarem-lhe o sorriso, mas os carros não correm, já correram, agora estão parados e Lewis Hamilton sem capacete; tem o seu totice a sair-lhe do cabelo trançado ao crânio e os auriculares gigantes da Mercedes a taparem-lhe os ouvidos. Passeia-se nas boxes enquanto espera por escutar uma decisão.

Nem uma volta os carros dão à pista até o tête-à-tête de gestação feita em anos recentes bater de frente nele próprio, como tem batido neste ano, em que o outrora perseguidor Max Verstappen agora é o perseguido que parte da pole position com o campeoníssimo Lewis Hamelton a farejar-lhe o rasto, o britânico quase um cão a encostar o faro à traseira de outro como sempre fazem os cães, por mais conhecidos um do outro que sejam.

À nona curva pela qual protelavam a disputa do Mercedes a tentar ultrapassar o Red Bull, o quase vencedor por decreto da última década ia atacando o holandês a quem mais se vaticina reinados futuros e, nessa curva, decidiu atacá-lo com tudo, por dentro, quando Verstappen apertou a trajetória bruscamente: a frente do monolugar de Hamilton tocou na parte de trás e lateral do carro do holandês, que saiu disparado da pista.

Max embateu nas barreiras, o estrondo brutal destruiu-lhe meio carro, ele sairia sem danos aparentes e a cada repetição aumentava a impressão de a auréola o ter livrado de arrelias maiores. Mesmo assim, o holandês ficaria mais de meia hora no posto médico de Silverstone à medida que se ouvia Christian Horner defendia o seu peixe, se ouvia o diretor da Red Bull a criticar um Hamilton "tão conhecedor desta pista" e se via Toto Wolff de um lado para o outro do paddock, a acautelar a sua banca no mercado de jogatanas de bastidores que é a Fórmula 1.

"Não era sítio para haver dois carros lado a lado", escutar-se-ia, também, do comissário de pista, antes de se perceber que uma decisão sobre o acidente só quando a corrida voltaria a acelerar-se em pista. Mal o fez, Sebastien Vettel fez um pião. Muito pouco depois, o castigo anunciou-se - penalização de 10 segundos para Lewis Hamilton e âncora largada. O inglês ficaria em 13.º se o Grande Prémio terminasse logo ali.

Desde a segunda partida que a corrida ficou a ser acelerada, na frente, por Charles Le Clerc, quando dobrou a metade das tormentas ainda era o Ferrari do monegasco a ter na frente ninguém e a ser perseguido pelos Mercedes, sempre pelas duas setas da escuderia alemã, mesmo quando Hamilton teve de aguentar os 10 segundos de tau-tau nas boxes, quando parou pela primeira vez.

Depois de encrencas com lentidão nas paragens que comprometeram melhores corridas a Fernando Alonso (Alpine), Lando Norris (McLaren) e a Carlos Sainz (Ferrari), da Mercedes chegou a ordem submissamente aceite para que Valteri Bottas cedesse a passagem a Lewis Hamilton e talvez, porventura, quiçá, o britânico pudesse alcançar a esteira de Le Clerc para outro taco-a-taco no derradeiro par de voltas.

Dan Istitene - Formula 1

Na penúltima, Hamilton nem meio segundo distava do Ferrari e o provável virou inevitável, a primeira tentativa do britânico em livrar-se de ver o belga pelas costas acabou com Le Clerc a alargar em demasia uma curva, tentou resgatar a defesa da liderança e acabou a disparar-se para fora de pista.

E lá foi o heptacampeão da Fórmula 1, a devolver-se à posição que lhe parece ser um apelido e a zarpar pela linha de meta bem junto à parede da reta, onde os engenheiros da Mercedes acorreram para rejubilarem à sua passagem. Lewis Hamilton ganhou pela quarta vez esta época, pela oitava da história em Silverstone e a 99.ª da carreira.

Durante estes minutos finalizadores também se soube que Max Verstappen, o ainda líder do mundial da Fórmula 1, estava a ser transportado rumo a um hospital, para ser submetido a alguns exames que lhes despistassem o estado de saúde após o despiste que aquela defesa de posição lhe provocou.

Foi audível o "nunca desistimos" de Toto Wolff aos ouvidos de Hamilton, que o avalizou enquanto segurava uma bandeira do Reino Unido, ainda em pista. Findas quatro vitórias consecutivas de Max Verstappen, que continua a liderar o mundial, o viciado em ganhar reaviva a corrida-maior do ano e encurta a diferença na luta pelo título.