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Fórmula 1

Guanyu Zhou é a prova que o esforço compensa: teve de deixar o seu país, mas tornou-se no primeiro piloto chinês com lugar na Fórmula 1

Falou-se em Oscar Piastri, Nyck de Vries ou em manter Antonio Giovinazzi, mas quem conseguiu o segundo lugar na equipa Alfa Romeo para 2022 foi Guanyu Zhou. O rapaz que sentiu medo na primeira vez que andou de kart e que aos 12 anos se mudou para Inglaterra à procura do sonho será o primeiro chinês a correr na Fórmula 1 a tempo inteiro

Rita Meireles

Joe Portlock - Formula 1

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A Fórmula 1 aterrou pela primeira vez na China em 2004. Michael Schumacher foi o campeão desse ano, mas no Circuito Internacional de Xangai foi o companheiro de equipa Rubens Barrichello quem chegou ao primeiro lugar do pódio, seguido de Jenson Button e Kimi Raikkonen. O que na altura não se sabia é que no meio do público, com uma bandeira de apoio a Fernando Alonso nas mãos, estava aquele que viria a ser o primeiro piloto chinês a conseguir um lugar na categoria-rainha.

A sabedoria popular diz-nos que o melhor é nunca conhecermos os nossos ídolos, mas também nisso o piloto chinês Guanyu Zhou decidiu desafiar as probabilidades. Em 2021, na Áustria, teve a sua primeira experiência na Fórmula 1, quando conduziu o carro de Alonso durante o primeiro treino livre do fim de semana.

“Estares no circuito com o resto dos pilotos, com os teus ídolos e campeões do mundo... vê-los passar por ti é especial”, disse Zhou ao website da Fórmula 2 no passado mês de setembro. “O Fernando ajudou-me muito. Nos últimos três, quatro anos, foi o máximo que alguma vez fui ajudado por outro piloto. Andámos pela pista juntos e ele estava a dar-me detalhes. No briefing com os engenheiros, ele estava a explicar-me tudo”.

O piloto terminou as 29 voltas do treino livre no 14.º lugar, suficiente para impressionar o ídolo. “Se ele conseguir ganhar o campeonato de F2, isso seria espantoso. Gosto dele como pessoa e como piloto, por isso esperemos que consiga entrar na Fórmula 1 em breve”, afirmou Alonso.

Bryn Lennon

Zhou, ainda a disputar o campeonato de F2, nem precisou do título para receber um dos poucos lugares disponíveis no Mundial de Fórmula 1. Depois de contratar Valtteri Bottas, a Alfa Romeo anunciou esta terça-feira o piloto chinês para o lugar do italiano Antonio Giovinazzi.

“Sonhei desde pequeno em escalar o mais alto possível num desporto pelo qual sou apaixonado e agora o sonho tornou-se realidade. Ser o primeiro piloto chinês de sempre na Fórmula 1 é um avanço para a história dos desportos motorizados chineses. Sei que estão muitas esperanças depositadas em mim e, como sempre, vou usar isso como motivação para me tornar melhor e alcançar mais”, escreveu o piloto de 22 anos em comunicado.

Mas se visto assim o caminho de Zhou parece ter sido fácil, a verdade é que não foi. E por algum motivo nenhum piloto chinês tinha ainda conseguido chegar aqui.

Altos e baixos

A primeira vez que andou de kart, não viveu aquele clássico momento que os pilotos costumam relatar em que soube logo que queria fazer aquilo para sempre. Zhou teve medo.

“Eu estava assustado. Tinha sete anos, o que é bastante tarde para a primeira vez num kart, a maioria começa quando tem três ou quatro anos. Estava no banco de trás de um kart de dois lugares e o meu pai a conduzir. Fiquei com os olhos fechados o tempo todo, não os abri uma única vez. Era como estar numa montanha-russa”, confessou o piloto ao website da Fórmula 1.

Foi por insistência dos pais que optou por tentar conduzir em vez de desistir e ir embora. Na segunda vez, sim, Zhou soube que queria continuar a fazer aquilo.

Mas na China a modalidade não era tão conhecida como na Europa e por isso os primeiros tempos não foram fáceis.

"Foi difícil", continuou o piloto: "Pedimos a muitas pessoas que percebessem o que seria melhor. Tomámos algumas decisões que não foram as melhores, mas penso que isso é compreensível quando não se tem ninguém para nos mostrar a direção certa".

Como aconteceu a todos os pilotos com origem fora da Europa, a determinada altura Zhou e a família tiveram que sair da China e mudar-se para o velho continente. Escolheram Sheffield, no Reino Unido, por considerarem que o país tinha os pilotos mais fortes. Tinha 12 anos.

Começou por sentir dificuldades com o idioma e em acompanhar os temas lecionados na escola. O piloto dá muitas vezes o exemplo da dificuldade que sentiu nas aulas de ciências, uma disciplina que não era lecionada na China. Mas no lado profissional corria tudo pelo melhor.

Primeiro, em 2014, despertou a curiosidade da Ferrari, que acabou por levá-lo para a Ferrari Driver Academy. Seguiu-se a atenção da Renault - representada agora pela Alpine no Mundial de Fórmula 1. Em 2019, juntou-se ao programa de juniores da equipa e foi selecionado como piloto de testes. No mesmo ano chegou à Fórmula 2, subiu ao pódio por cinco vezes e venceu o prémio de rookie do ano.

Mas a primeira vitória em Fórmula 2 chegou apenas no ano seguinte, no autódromo de Sochi.

Joe Portlock - Formula 1

A temporada atual tem sido a melhor para o piloto. Liderou o campeonato até à quarta ronda, em Silverstone, e conquistou três vitórias, uma pole position e sete pódios pelo caminho. Neste momento encontra-se em segundo lugar, atrás do colega de equipa Oscar Piastri, que foi nomeado piloto de reserva da Alpine.

Em 2022, Zhou junta-se a Charles Leclerc, George Russell, Lando Norris, Alex Albon, Mick Schumacher, Nicholas Latifi, Yuki Tsunoda e Nikita Mazepin, que também chegaram à Fórmula 1 depois de se “formarem” na Fórmula 2. Dos oito, apenas Schumacher, Leclerc e Russell conseguiram chegar lá enquanto detentores do título mundial de F2.

Negócio milionário

O piloto não é o primeiro chinês a conduzir um F1 - Ma Qinghua tinha participado de um fim de semana de competição, mas nunca numa corrida - mas será o primeiro em full time e chega à categoria-rainha numa altura em que a Fórmula 1 aposta na expansão para o mercado chinês, com o Grande Prémio da China já confirmado até 2025. O próprio piloto já notou a diferença no seu país de origem: "É uma loucura", disse ao website da Fórmula 1. "Nestes últimos anos, o número de pessoas que conhecem o desporto automóvel na China tem vindo a crescer muito”.

Zhou chega também numa altura em que o campeonato vai passar por uma série de alterações, incluindo a obrigatoriedade de um limite no orçamento de cada equipa. Aliás, segundo avança a ESPN e a Reuters, a contratação do piloto chinês pode significar para a Alfa Romeo um investimento de cerca de 30 milhões de dólares. Algo que parece ter feito parte da tomada de decisão.

“Estamos 200% concentrados no desempenho da equipa e não temos de esconder o facto de que o orçamento faz parte do desempenho e estamos também a tentar chegar ao limite de custos porque é um passo importante para nós”, disse Fred Vasseur, chefe de equipa da Alfa Romeo, em declarações à Reuters.

A corrida mais rápida do mundo só começa no próximo ano para o piloto chinês, que foi a última peça no puzzle de pilotos que vão integrar o campeonato em 2022. Ainda assim, o menino de cinco anos e de bandeira de Fernando Alonso em punho já pode dizer que cumpriu um sonho e que vai correr ao lado do ídolo, ainda que como adversários.

Mas Zhou tem outro ídolo. Um que acreditava que “o mais importante é tentar inspirar as pessoas”. E é à imagem de Kobe Bryant que o piloto vai, pela primeira vez, representar a China no Mundial de Fórmula 1, mostrando a um novo país que é possível.