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Jogadoras do Afeganistão queixam-se de abusos sexuais por parte de responsáveis da federação. FIFA está a investigar

Várias futebolistas da seleção nacional de futebol acusam o presidente da federação do Afeganistão, além de outros funcionários, de abusarem fisica, mental e sexualmente das jogadoras. “Estes tipos ligavam para os quartos das jogadoras durante a noite e dormiam com elas. Coagiam-nas”, denunciou Khalida Popal, ex-diretora para o futebol feminino da entidade. A FIFA já está a investigar e, alegadamente, a trabalhar com as Nações Unidas para garantir a segurança de algumas jogadoras afegãs

Diogo Pombo

Majid Saeedi

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“Foi muito difícil para nós, que vivemos no país, falar sobre estas coisas, porque tratam-se de homens muito poderosos. Se uma jogador do Afeganistão levantar a voz, pode ser morta.”

A frase é de Khalida Popal, afegã, antiga diretora do futebol feminino da federação do país, falando do que sabe e já a fez sofrer. Em 2016, fez uma mala só com roupa, um computador e uma fotografia da seleção nacional para fugir, receosa, do Afeganistão. Apenas avisou o pai e a mãe e partiu, aterrando na Dinamarca, não mais regressando às ameaças, aos insultos de “prostituta”, ao lixo que lhe atiravam na rua. Ao risco de vida que corria, simplesmente, por ser mulher e jogar futebol.

Khalida encontrou asilo e, agora, usa a voz dar abrigo às queixas de abusos físicos e sexuais das mulheres que representam a seleção nacional. Para lá de telefonemas ameaçadores, não nas ruas, mas dentro de escritórios, nos corredores e em quartos com funcionários da Federação de Futebol do Afeganistão [FFA]: “Diziam a raparigas que as colocariam na lista de convocados se pagassem 100 libras por mês e dissessem que sim a tudo”.

É outra das frases com que Popal exemplificou, ao “The Guardian”, as queixas que, noticia o jornal inglês, já estão a ser investigadas pela FIFA. “Eles pressionavam e forçavam-nas. Estavam a coagi-las. Estes tipos ligavam para os quartos das jogadoras durante a noite e dormiam com elas”, revelou, ao contar que tomou conhecimento de tais práticas quando, em fereveiro, organizou um estágio para a seleção, na Jordânia, e as jogadores vindas do Afeganistão chegaram acompanhadas de dois responsáveis da federação, descritos como “guarda-costas”.

A investigação levou a Hummel, marca dinamarquesa que patrocina a federação, a cancelar o contrato, devido às “fortes alegações de abusos mentais, físicos e sexuais, além dos abusos aos direitos de igualdade das mulheres por parte de responsáveis da FIFA”.

Uma delas refere-se a Keramuddin Karim, o presidente, cujo escritório, na sede da entidade, tem portas que apenas se abrem através de um sistema de identificação por impressão digital. “Ele tem outra divisão lá dentro, um quarto com uma cama. Por isso, quando as jogadores lá entravam, não conseguiam sair sem a impressão digital do presidente”, denunciou Khalida Popal, ao “The Guardian”.

A ex-jogadora e diretora da seleção, hoje uma ativista pelos direitos das jogadoras, contou, também, que após o estádio que organizou, em fevereiro, nove futebolistas foram suspensas pela federação - acusadas de serem lésbicas. “Algumas iam falar com a imprensa e, como tal, o presidente classificou-as assim para as silenciar. Chegou a bater numas das jogadoras com um taco de snooker”, revelou, contextualizando que “ser acusado de ser gay ou lésbica” no país “coloca a pessoa e a família em grande perigo”.

Em comunicado, a FIFA confirmou que “está a investigar estes temas sérios” e que, dada “a sensibilidade dos tópicos relativos à proteção dos envolvidos”, procurou “apoio” de outras entidades. O “The Guardian” escreve que as Nações Unidas estarão a contribuir com a organização que rege o futebol mundial, para garantir a segurança de algumas jogadoras.

Várias futebolistas já se recusaram a assinar um novo contrato com a federação afegã, alegando que o novo acordo proposto “não inclui prémios e compensações de jogo” e as “proíbe de terem patrocinadores e ações de promoção fora da seleção”. Estas queixas foram subscritas e partilhadas, nas redes sociais, por jogadoras como Mina Ahmadi e Shabnam Mobarez, a capitã da equipa.