Tribuna Expresso

Perfil

Futebol feminino

Campeãs do mundo processam federação por discriminação de género. Ou seja, querem “bolo, cobertura e cereja no topo” como Jean King

A seleção norte-americana feminina conquistou três Campeonatos do Mundo (1991, 1999 e 2015) e mais quatro ouros em Jogos Olímpicos (1996, 2004, 2008 e 2012). Ainda assim, recebem muito menos do que a seleção masculina

Hugo Tavares da Silva

Mike Ehrmann/Getty Images

Partilhar

“A equipa feminina traz enormes receitas -- e troféus -- para o futebol norte-americano. Mas a federação sabe que a sua treinadora dificilmente estará tentada para ir para outro lado.” Era assim a entrada de um artigo do “The Guardian” em fevereiro, empenhado em encontrar as razões para a treinadora campeã do mundo ter uma remuneração menor do que o treinador sub-20.

Jill Ellis ganhou o Campeonato do Mundo em 2015 e vai estar no próximo, no verão, em França. De acordo com o diário inglês, os dados são relativos a 2017/18 e colocam no topo da lista o ex-selecionador Jürgen Klinsmann, que metia ao bolso quase três milhões de euros por ano (o adjunto, Andreas Herzog, recebeu 323 mil euros). Bruce Arena surge na segunda posição, com 1,6 milhões de euros anuais. O treinador dos sub-20 recebeu 306 mil euros nessa temporada. Ellis, em 10.º lugar na lista dos mais bem pagos da federação norte-americana, recebeu 283 mil euros em 2017/18.

NurPhoto/Getty Images

As futebolistas daquele país sentem injustiça. Não só nos salários que recebem, normalmente muito inferiores aos dos homens, mas também na forma como tudo é tratado: a logística, condições de treino, as viagens para os jogos e o tipo de tratamento médico. É uma “discriminação de género institucional”, acusam. E por isso avançaram com um processo legal contra a Federação de Futebol dos Estados Unidos por discriminação de género, conta o “The New York Times”. A queixa pode ler-se AQUI.

“Embora as mulheres e homens sejam chamados para desempenhar com a mesma responsabilidade o trabalho nas suas equipas e participar em competições internacionais para o seu empregador, a USSF (United States Soccer Federation), as mulheres futebolistas têm recebido menos do que os homens. Isto é verdade mesmo que o desempenho delas tenha sido superior ao dos homens. (...) A USSF falhou redondamente na promoção da igualdade de género”, denunciam no documento.

A seleção norte-americana feminina conquistou três Campeonatos do Mundo (1991, 1999 e 2015) e, entre outros troféus menores, mais quatro ouros em Jogos Olímpicos (1996, 2004, 2008 e 2012). Os homens têm 10 participações em Mundiais, sendo que os pontos altos aconteceram em 1930 e 2002, com um terceiro lugar e a chegada aos quartos de final, respetivamente.

Apesar destes momentos gloriosos, a mensagem da FIFA também não é favorável à igualdade. Enquanto o Campeonato do Mundo masculino conta com prémios de 355 milhões de euros para distribuir pelas 32 seleções, o torneio feminino junta apenas 27 milhões de euros para as 24 equipas.

“Eu penso que estar nesta equipa é compreender estas questões”, disse Rapinoe ao “NYT”. “E eu penso que sempre -- desde sempre -- fomos uma equipa que lutou pelo que achava que merecia e que tentou deixar o desporto num lugar melhor."

Christopher Morris - Corbis/Getty Images

“A minha luta é ser reconhecida como jogadora profissional e que isso abra a porta para outras o serem também”

Na Argentina, há uma mulher a travar outra guerra: a profissionalização do futebol feminino. Macarena Sánchez foi despedida pelo UAI Urquiza durante o campeonato. Ali, venceu campeonatos nacionais e até jogou na Taça Libertadores. É a elite do futebol feminino argentino. À Tribuna Expresso (AQUI) revelou que não compreende o abismo nos salários entre homens e mulheres, já que a equipa masculina joga em divisões humildes. Sánchez recebia apenas 15 euros por mês e queixava-se das condições de treino.

Aos 27 anos, trabalha pela manhã, treina sozinha à tarde e estuda Serviço Social à noite. A futebolista avançou com um processo judicial contra a Federação de Futebol Argentino, tal como as futebolistas norte-americanas, por discriminação de género e tem levado a cabo uma campanha muito forte nas redes sociais, com inúmeras participações em programas e entrevistas.

Maca, como é conhecida, já recebeu inúmeros insultos e ameaças de morte, uma delas muito gráfica com uma pistola ao lado de uma poça de sangue.

"Uma mulher receber ameaças de morte por reclamar melhores condições de trabalho e direitos diz muito do que somos como sociedade. Estamos completamente expostas a isto, em qualquer âmbito, em qualquer trabalho. É muito triste, mas é o reflexo do que acontece quando uma mulher levanta a voz e exige o que lhe corresponde", explica.

E continua: “A minha luta é ser reconhecida como jogadora profissional e que isso abra a porta para outras o serem também. Para que sejamos tidas como trabalhadoras, para termos os mesmos direitos dos homens. O futebol é tudo na minha vida. Jogo deste miúda. É uma desporto que me ensina muito mais da vida do que de futebol. É o meu trabalho, vejo-o como um trabalho, levo-o com muitíssima responsabilidade.”

Match Point

Esta batalha pela igualdade no desporto não se resume ao futebol e começou na década de 70. À boleia das guerrilhas de tenistas como Jean King, Chris Evert, Martina Navratilova e as irmãs Williams, o “NYT” dá o exemplo do ténis. A luta ficou mais séria neste desporto em 1970, quando King, após vencer um torneio em Itália, recebeu apenas 532 euros. O vencedor do torneio masculino recebeu 3100 euros.

Mais tarde, já com a raquete descansada e o ritmo cardíaco sereno, King diria: “Toda a gente pensa que as mulheres deveriam ficar entusiasmadas quando recebem migalhas, e eu quero que as mulheres tenham o bolo, a cobertura e a cereja no topo também”.

Em 1973, King ameaçou não participar no Open dos Estados Unidos, porque os prémios não eram iguais. King foi rainha e ganhou o braço de ferro: homens e mulheres receberam o mesmo nesse ano.