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Futebol feminino

Who run the world? Girls

O Campeonato do Mundo feminino começa esta sexta-feira, com o França-Coreia do Sul (RTP2, 20h). Venha daí conhecer o carimbo Marley na seleção jamaicana, a jogadora mais jovem do torneio e ainda quem vai participar e esteve praticamente dois anos sem competir

Hugo Tavares da Silva

Maddie Meyer - FIFA

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Parece uma daqueles ventanias imparáveis, um fenómeno qualquer da natureza. Se ninguém abrir a porta, a brisa apaixonada arranca a casa pela raiz. O futebol feminino vive tempos dourados, soa a revolução impossível de interromper. E, agora, vem aí o Campeonato do Mundo: começa esta sexta-feira, no Parc des Princes, com um França-Coreia do Sul (RTP2, 20h). O título deste texto foi emprestado por Beyoncé, claro...

“O futebol é um jogo de homens” é uma insensatez que já esteve mais longe de pertencer ao passado, ao longínquo século que lhe corresponde. Os meios de comunicação têm cada vez mais páginas e minutos para se falar no futebol delas, que se joga com uma bola que sustém o mesmo ar lá dentro, com balizas do mesmo tamanho e os famosos dentes nas botas. A Tribuna, nem de propósito, tem mais mulheres do que homens.

A FPF ditou a mudança dos ventos em 2016. Os estádios recebem cada vez mais pessoas para sentirem essa brisa no rosto: “60.739 pessoas não querem saber de futebol feminino para nada”, escrevia a nossa Mariana Cabral, em março, quando o Atlético Madrid-Barcelona bateu o recorde de audiência. Cronistas como as futebolistas Verónica Boquete (“El País”) e Eni Aluko (“The Guardian”) vão ganhando espaço, empurrando a mão da democracia futeboleira contra a do preconceito.

A luta pela profissionalização do futebol feminino, a melhoria das condições de trabalho e das folhas salariais vão acontecendo por aí, como se viu recentemente na Argentina, uma causa embalada pela palavra da revolucionária Macarena Sánchez, que, depois de ser ameaçada de morte, ganhou a batalha. Ou a voz grossa das campeãs do mundo, que processaram a federação de futebol norte-americana porque, já que as vitórias delas se traduzem em dinheiro e troféus, querem a recompensa que lhes corresponde.

O primeiro Campeonato do Mundo feminino aconteceu em 1991, na China

O primeiro Campeonato do Mundo feminino aconteceu em 1991, na China

TOMMY CHENG

Em 1995, a Noruega conquistou o segundo Mundial da história

Em 1995, a Noruega conquistou o segundo Mundial da história

Onze

Entre 7 de junho, esta sexta-feira, e 7 de julho, 24 seleções vão correr atrás da glória, e é o Mundial feminino, As senhoras dos Estados Unidos são as rainhas da competição, com três vitórias no torneio em 1991, 1999 e 2015, o último Mundial disputado. Seguem-se Alemanha (2003, 2007), Noruega (1995) e Japão (2011). Em França, que sonha imitar o que o futebol masculino fez em 1998, vai disputar-se o oitavo Campeonato do Mundo.

Esta competição tem com algumas curiosidades. A Argentina, por exemplo, não teve treinador e esteve sem competir dois anos, pelas divergências entre federação e futebolistas. O apuramento chegou através da repescagem para a Copa América, no ano passado.

A benjamim mais benjamim de todas, conta este artigo da BBC, é Mary Fowler, uma avançada australiana. Se a presença de Marta, que parece eterna, já não é surpresa, a estação britânica agarrou-se à calculadora e ofereceu um número merecedor de respeito: o trio que quer sambar até ao golo (Formiga-Marta-Cristiane) soma 108 anos. Formiga, de 41, conta com seis presenças em Mundiais, a par da japonesa Homare Sawa, o que representa o recorde da competição. Marta é a melhor marcadora de Campeonatos do Mundo, com 15 golos nas últimas quatro edições. O futebol jamaicano, que esteve enterrado durante quatro anos, voltou ao ativo em 2014 graças a uma pessoa: Cedella Marley, a filha de Bob. Para fechar estas manigâncias verbais que conduzem a brilharetes em cafés ou restaurantes, fique a saber que há uma ‘Lady Messi’ na seleção da China. Apesar disso, o ídolo de Wang Shuang é… Cristiano Ronaldo.

Cristiane, Marta e Formiga vão dar música em França

Cristiane, Marta e Formiga vão dar música em França

Kevin C. Cox - FIFA

Portugal não conseguiu a qualificação para este torneio, que conta com outros debutantes como Chile, Jamaica, Escócia e África do Sul. Em representação do nosso país vai estar Sandra Bastos, árbitra de 41 anos, que já tem bagagem na Liga dos Campeões feminina. Pode conhecer a história desta árbitra no site do ‘É Desporto’, que nos últimos tempos contou 50 histórias do futebol feminino.

Apesar das longas e belas caminhadas das futebolistas Dolores Silva (ver AQUI a entrevista à Tribuna Expresso), Cláudia Neto, Ana Borges, Carole Costa e companhia, ainda não é desta que a seleção vai saber o que é jogar um Campeonato do Mundo. Para compensar esse triste fado, e até para trazerem um arzinho gaulês com cheiro a futuro, o futebol português terá algumas representantes em França: o Brasil conta com Tayla e Geyse, do Benfica, e a Nigéria leva Chinaza Uchendu, uma avançada do Sp. Braga.

A competição será transmitida no RTP Play, tal como está a ser o Mundial sub-20, sendo que o primeiro jogo entre França e Coreia do Sul vai passar também na RTP2, às 20 horas. Pode conhecer a totalidade das convocatórias AQUI.

Os Grupos

A: França, Noruega, Nigéria, Coreia do Sul
B: Alemanha, China, Espanha, África do Sul
C: Itália, Austrália, Brasil, Jamaica
D: Inglaterra, Japão, Argentina, Escócia
E: Canadá, Nova Zelândia, Holanda, Camarões
F: Suécia, Estados Unidos, Chile, Tailândia

  • Elas andam aí

    Crónica

    Duarte Gomes escreve sobre o futebol no feminino num mundo que está a mudar, aos poucos, para se tornar mais igual e mais feliz, com mais jogadoras e mais árbitras - uma delas, Sandra Bastos, vai estar no Mundial feminino, que começa sexta-feira, em França

  • Não basta promover o empoderamento feminino em campanhas, é preciso pô-lo em prática

    Opinião

    A Nike lançou uma campanha sobre o Mundial de Futebol Feminino, que pretende mostrar quão inspirador é para meninas de todo o mundo verem mulheres a participar num evento como este. Estará a marca a tentar limpar a face por ter discriminado várias atletas olímpicas ao cortar-lhes patrocínios durante a gravidez e licença de maternidade? É que não basta fazermos campanhas mediáticas sobre empoderamento feminino, é preciso também ser coerente na vida real quando falamos de contratos e oportunidades