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As americanas (e todas elas) ganharam o Mundial

Os EUA da indiscreta Rapinoe e da goleadora Morgan ganhou a final (2-0) à Holanda e levou o segundo Campeonato do Mundo seguido para casa. Elas venceram, mas não foram só elas

Diogo Pombo

FRANCK FIFE/Getty

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Não estão entretidos?

Ela corre para perto de uma bancada, é a que calha, a que mais perto está, e cessa a corrida juntando os pés e cravando-os na relva. Endireita o corpo, vira-se para o alto, pavoneia a postura como se cortejasse o amor de todas as almas do mundo e abre os braços. Estica-os o mais que pode, na diagonal, e fica imóvel, com um sorriso maroto e postura de gladiador cinematográfico que acaba de domar a arena e dar espetáculo à plateia.

Ela marcou o mais aborrecido e monótono dos golos, o castigo enfadonho que é um penálti, mas Megan Rapinoe, com o cabelo curto e pintado a lilás, a boca opinativa que destila coisas sem filtro, é tudo menos isso. É a americana mais vistosa no que faz - fintas, rodopios, dribles e golos, que são seis neste Mundial -, no que diz - "Não se pode ganhar sem gays na equipa" - e no que diz que não faz - ir à Casa Branca apertar a mão a Trump.

Ela é muito boa jogadora, muito visível pelo que faz em campo e fora dele e muito significado tem ser Rapinoe a marcar primeiro na final. A poder desafiar o mundo com o festejo. A dar mais motivos não para se falar dela, mas das coisas que ela defende, que são as que todas as restantes 27 jogadoras dos EUA advogam desde 95 dias antes do Mundial que acabou este sábado ter começado.

Entre elas há o pé esquerdo requintado de Rose Lavelle, que penteia a bola e a remata para o 2-0. Há as corridas desenfreadas de Alex Morgan, a melhor marcadora deste Mundial, com os seis golos para que muito contribuiu Tobin Heath, a sprinter de serviço à direita.

Elas, as americanas almighty, ganham às holandesas fiéis ao futebol da terra de onde vêm, cheias de bola no pé, na relva, nos passes curtos e no estilo apoiado que há dois anos eram ninguém e agora têm um Europeu conquistado e uma final de Mundial perdida. Mas - e isto é muito - disputada até ao fim pela intensidade na frente de Viviane Miedema e Lieke Martens.

Intensas são e foram todas elas, a darem rotação a uma final que rodou ainda mais depressa quando o Rapinoe teve o seu penálti e fez os EUA serem o que não costumam depois de marcarem um golo. Acelerarem, pressionaram ainda mais, atacaram a profundidade nas costas das holandesas, atabalhoadas nas transições defensivas pela pressa em ir atrás de um jogo que lhes fugia.

Elas, e insisto, jogaram com intensidade, ritmo vertiginoso, passes verticais, contra-ataques alucinantes e muitos remates potentes à baliza. Coisas que bem posso escrever, repetir e rescrever, mas que deveriam ser vistas, em direito, e não apenas lidas, para deixar de ser necessário que, após a final de um Campeonato do Mundo de futebol feminino, num estádio cheio, ainda se tenha de ouvir o público gritar "Equal Pay! Equal Pay! Equal Pay!".

Robert Cianflone/Getty

Elas têm uma competição própria que bate recordes de audiência, elas fazem golos em 50 de 52 jogos, elas falam com o coração perto da boca e não com o discurso limitado por arames, elas dão espetáculo e, no expoente do Mundial que é ganho pela melhor seleção, elas ainda têm que pensar neles.

E se são as americanas a ganhar o segundo Mundial seguido (com a mesma selecionadora, Jill Ellis), se são elas quem já tem quatro conquistados, se têm uma liga de futebol profissional e ainda decidem colocar a própria federação em tribunal por discriminação de género, então é porque falta mudar muita coisa.

Não nelas, mas nas outras pessoas. Por pessoas leia-se homens que gostam de ver futebol e talvez estejam errados quando veem futebol feminino com olhos que esperam ver o mesmo que observam no masculino, quando é a mesma bola a ser chutada, mas a ser chutada por corpos diferentes. "Somos malucas e é isso que nos torna especiais", disse a risonha Megan Rapinoe, no fim, sobre as americanas.

Mas bem podia estar a falar sobre todas.

Todas elas, as jogadoras que estiveram no Mundial e que muito fizeram para atrair atenções, e as que não o jogaram, como as portuguesas, que ainda vão tendo de dividir o mundo - dinheiro, patrocínios, marcas, apoios - do futebol quando deviam ter um só delas. Todas têm de lutar num desporto que ainda as tem por comparação aos homens e não como uma existência paralela a eles.

O Mundial de futebol feminino acabou, mas, se o viu, pode responder: Não se entreteve com elas?

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    Atualidade

    Megan Rapinoe, a avançada da seleção de futebol feminino dos Estados Unidos, já disse que não ia à Casa Branca se vencer, este domingo, o campeonato do mundo de futebol feminino - e até utilizou linguagem menos própria para o dizer. Já pediu desculpa à mãe por isso mas não retira as palavras. O Presidente já a criticou por isso, uma atitude que segue a longa linha de críticas a atletas que não concordam com as suas políticas. A namorada de Rapinoe, Sue Bird, não ficou calada e assinou um texto para lá de ácido sobre a postura de Donald Trump