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Futebol feminino

A menina da Costa

Sofia Azevedo domina a bola e trata dos grelhados no restaurante da família com o mesmo afinco. Depois do futsal em Itália, segue-se agora o futebol de 11 mais perto de casa, na Costa de Caparica

Carlos Luís Ramalhão

Damiana de Bonis

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Sofia joga à bola desde que tem memória. Há quase tanto tempo como ajuda no restaurante da família, perto da Praia da Mata, na Costa de Caparica. Quem passa na estrada, particularmente durante o verão, nem sempre adivinha o mar mas pode ver, por entre o fumo que envolve os grelhados d’ O Hélio, uma rapariga de 25 anos que, indiferente ao calor, prepara as refeições dos clientes. Ao vê-la ali, de “mãos na massa”, ninguém lhe adivinha os dotes com os pés, que já espalharam magia fora de Portugal.

Encontrámo-nos em dia de futebol, mas desta vez transmitido pelo ecrã do restaurante atarefado. Envergando orgulhosa as cores do clube do coração, o Benfica, Sofia faz uma pausa na grelha para vestir a pele de adepta. Na TV, o Belenenses SAD recebe os da Luz, ainda em ambiente de agosto. Convido-a para a minha mesa e vamos conversando, os seus olhos hesitando em descolar do ecrã.

O verão aproximava-se do fim e Sofia tinha uma novidade: ia ficar por Portugal. Nos últimos dois anos, com o fim do tempo quente, chegava também a altura de regressar a Itália, onde vestia a camisola de jogadora profissional da A.S.D. Vis Fondi, dos arredores de Roma, equipa que milita na série A2 da liga italiana de futsal feminino. “Vinha recebendo convites há mais ou menos cinco anos. Na altura não queria deixar o meu país e a minha família e pronto, recusei”, reconhece. Quando finalmente aceitou o convite para jogar além-fronteiras, Sofia escolheu Itália pela aventura.

Contudo, mesmo com o modo aventureiro ligado, não foi fácil ir. “A decisão de partir e deixar o nosso país, a família e os amigos nunca é fácil. Foi das coisas mais difíceis que fiz na vida. Nunca é fácil estar longe, sem o conforto dos nossos. Quando vamos para fora como atletas, ainda é maior a importância da estabilidade mental”, reconhece.

A rapariga que viveu em Cascais até aos cinco anos, quando a família se mudou para a margem sul, tem na bola uma companheira desde a infância. “Desde que me conheço que ando pelas ruas de onde moro com a bola debaixo do braço a jogar no meio da rua, ou nos ringues, as tais peladinhas com os meninos”, conta, orgulhosa. “Com os meninos” porque o estigma de ser rapariga e gostar de jogar futebol não lhe passou ao lado e ultrapassa as brincadeiras de crianças. “Antigamente era muito difícil as meninas jogarem à bola, era um desporto para os rapazes. Hoje em dia, felizmente, a mentalidade do nosso país está a mudar bastante, e o futebol e o futsal feminino estão a aparecer muito mais. No entanto, em comparação com os escalões masculinos, falta

ainda muito para termos um pouco de igualdade e condições de trabalho para chegarmos mais longe.” Sofia Azevedo lembra a importância da formação, ausente do futsal feminino. “Em Portugal, no setor feminino, quase não existe essa formação.”

Voltando a Itália, Sofia admite que nem tudo foram rosas. “Existem muitas diferenças, algumas culturais, como a alimentação. Ali é tudo à base da famosa ‘pasta’”, conta, sorrindo. O clima também é diferente, mas uma das questões que mais a afetaram foi a língua. “Não sabia falar italiano, o que é sempre um obstáculo, porque temos de entender o que o treinador quer dizer. Também é sempre difícil estarmos sozinhos e não termos um acompanhamento psicológico enquanto atletas. Existem clubes que não estão preparados para terem jogadores estrangeiros”, desabafa.

Não foi apenas por isso que resolveu voltar, estando mesmo disponível para trocar, a partir de janeiro de 2020, o futsal pelo futebol de 11, em prol da proximidade da família. “Segue-se a maior aventura destes últimos tempos. Estou num projeto de futebol aqui na Costa, no meu clube de formação (Grupo Desportivo Pescadores da Costa de Caparica)”.

Sofia abdicou de uma competição mais evoluída “em termos de apoios, condições e preparação física”, embora, “em termos de jogo” Portugal esteja “mais desenvolvido, sem dúvida”. “O que me fez voltar para Portugal foi sem dúvida o facto de sentir muitas saudades da minha família e não ter tido lá o apoio psicológico que me fizesse acalmar esta saudade”, admite.

Nem as férias ajudavam a recuperar energias. Sempre que vinha a Portugal, no verão, Sofia passava o tempo à volta da grelha e do fumo, no restaurante. “Como atleta profissional, deveria descansar nas férias, o trabalho era pesado aqui n’ O Hélio mas a vida é assim. As coisas fáceis nunca têm piada, não é? E junto da família é um pouco menos difícil”, remata com humor.

A atleta começou a jogar futebol de sete no clube que vai agora voltar a representar. O início não foi fácil. “Os clubes eram poucos e bastante longe de onde eu sou, porque infelizmente não existiam assim tantas equipas no nosso distrito (Setúbal). E sair da escola, fazer os trabalhos de casa, ir para o restaurante ajudar e depois ter de ir ao treino e sair às tantas, chegar a casa às 2 da manhã e ter que me levantar às 7 para voltar à escola não era de todo fácil, mas a força de vontade vence tudo”, afirma com convicção.

Mais tarde, já em futsal, partilhou o balneário com Naty, guarda-redes internacional portuguesa. Mas a jogadora do Quinta dos Lombos não foi a única cara conhecida do futsal feminino em Portugal a cruzar-se com Sofia. Nina e Maria Pereira, do Benfica, Inês Antunes e Débora Queiroz, do Sporting, ou Taninha, da Lazio, contracenaram com Sofia Azevedo, que admite ter-se profissionalizado “só para conseguir concretizar um sonho”.

Teve algumas oportunidades de chegar a um dos clubes grandes de Portugal “mas nunca quis” porque nunca foi “jogadora de levar isto assim de forma tão ambiciosa”. Jogava porque gostava e procurava manter-se nos clubes em que se sentia bem. No entanto, não diz que não a uma oportunidade. “Nunca se sabe…”

O futuro antevê-se mais risonho para o futebol e o futsal femininos em Portugal, com uma maior aposta por parte de clubes e federação. “Estava mais que na altura disso acontecer, porque sempre tivemos jogadoras com talento em Portugal, apenas nunca eram vistas com os mesmos olhos que o setor masculino. Mas ainda temos um longo caminho a percorrer, em termos de apoios, valorização e condições para podermos fazer aquilo de que mais gostamos.”

Sofia Azevedo gosta do que faz. Isso vê-se no brilho redondo dos olhos quando fala da carreira até aos dias de hoje. Mesmo quando refere momentos menos bons, como o da lesão no joelho, a época passada, em Itália. Ou ocasiões caricatas, como o dia em que a sua equipa teve de ser escoltada no fim de uma partida. “Era um jogo bastante importante e nós ganhámos, contra um clube que eu já tinha representado. Os dirigentes e as atletas desse clube não ficaram lá muito contentes e houve situações um pouco más. Apenas refiro esse acontecimento para que no futuro seja diferente, essas situações apenas estragam o futsal ou o futebol feminino.

No ecrã, a vida corria bem ao “seu” Benfica. À mesa, Sofia Azevedo via o futuro com otimismo, entre as travessas que chegavam cheias e saíam vazias. Vai então experimentar o futebol de 11, uma nova iguaria, mas “nunca” fecha as portas ao futsal. “Quem sabe o futuro?”, remata com um sorriso.