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Bloco recebe jogadoras revoltadas com limite salarial no futebol feminino e PS e PCP pressionam Governo: "É uma grave discriminação"

Esquerda está a levar a polémica sobre os tetos salariais para jogadoras de futebol feminino até ao Parlamento. Para os bloquistas, há uma "discriminação sem precedentes", "quase distópica". Socialistas e comunistas questionaram o Governo sobre o assunto

Mariana Lima Cunha

FRANCISCO LEONG

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As acusações de discriminação de género no futebol feminino chegaram à política pela mão da esquerda. Esta semana, o Bloco de Esquerda (BE) vai receber as jogadoras que estão a protestar contra o polémico limite da massa salarial imposto pela Federação Portuguesa de Futebol (FPF), medida que considera "uma discriminação sem precedentes". Isto dias depois de o PCP já ter dirigido uma pergunta formal ao Governo sobre o assunto.

Ao Expresso, o deputado do Bloco de Esquerda na Comissão de Desporto, Luís Monteiro, confirma que o encontro deverá acontecer no Parlamento, esta quinta-feira, por iniciativa do BE. O partido contactou as jogadoras que integram o movimento “Futebol Sem Género”, criado para contestar esta medida, depois de ter recebido uma queixa formal das jogadoras por e-mail.

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A intenção do partido passará por ouvir os testemunhos das jogadoras, que serão acompanhadas por um advogado, e consultá-las sobre a melhor forma de intervir no Parlamento. Do leque de hipóteses admitido pelo BE constam uma pergunta formal ao Governo mas também um pedido de audições ou até a entrega de um projeto próprio sobre o assunto.

Por agora, o partido tem uma certeza: “É uma discriminação sem precedentes e sem razão para existir”, sentencia Luís Monteiro. “Está tudo ao contrário: parece quase distópico limitar os salários no futebol feminino quando os salários do futebol masculino é que são totalmente abismais. Há um peso e uma medida completamente diferente” consoante o género, assegura.

PCP e PS questionam Governo

A mesma crítica é feita pelo PCP, que vislumbra uma “grave discriminação” que mereceu uma “justificada contestação” das jogadoras que integram o “Futebol Sem Género” e que por isso dirigiu na semana passada uma pergunta formal à ministra da Presidência, Mariana Vieira da Silva, e ao secretário de Estado do Desporto, João Paulo Rebelo. No documento, o PCP exige saber se o Governo “tem conhecimento da discriminação” descrita pelas jogadoras e “que medidas” irá tomar para “resolver” esta situação.

Também as deputadas do PS Carla Sousa, Elza Pais, Edite Estrela, Catarina Marcelino, Rosário Gambôa, Sara Velez, Alexandra Tavares de Moura e Cristina Moreira se mostraram indignadas, questionando o Governo sobre o mesmo tema. Esta segunda-feira, as parlamentares socialistas entregaram uma pergunta na Assembleia República sobre o que descrevem como uma "declarada discriminação salarial", além de uma medida "injusta, socialmente imoral, eticamente reprovável" que "institucionaliza a desigualdade salarial".

Para mais, no entender do PS a iniciativa da FPF viola ainda a mais recente lei destinada a promover a igualdade remuneratória entre homens e mulheres e, dado que a Federação tem estatuto de utilidade pública desportiva. As socialistas que assinam a pergunta querem saber se o Governo tomará medidas para corrigir a "injustiça".

Os protestos que chegaram agora à política ouvem-se desde que, a 29 de maio, a FPF anunciou que as equipas da primeira divisão de futebol feminino passariam a contar com a imposição de um limite de 550 mil euros no montante que podem pagar aos seus plantéis. No regulamento em causa, justifica-se a decisão “face às circunstâncias excecionais decorrentes da pandemia covid-19 e à necessidade de garantir o equilíbrio dos clubes e a estabilidade da competição”. Em resposta, as jogadoras apressaram-se a criar o “Futebol sem Género”, em protesto contra uma medida que descrevem como “avassaladoramente violadora” dos seus direitos individuais.

Nota: Notícia atualizada às 17h53, para incluir a pergunta das deputadas do PS ao Governo.