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“Em vez de nos estarem a meter um teto, chegou a altura de nos darem um chão”, dizem as futebolistas

A Tribuna Expresso falou com Solange Carvalhas e Tita, internacionais portuguesas e duas das 132 jogadoras iniciais que subscreveram o movimento "Futebol Sem Género". Contam que a ideia surgiu depois de a Federação Portuguesa de Futebol divulgar a intenção de impor um limite salarial e de não serem contactadas pelo Sindicato. Criticam a entidade por estar a "tentar ficar com os louros de uma luta" na qual não participou e por as "ter tratado como amadoras na hora da verdade". Lamentam que a federação nunca as tenha contactado e garantem que vão "continuar atentas"

Diogo Pombo

Solange Carvalhas foi capitã do Sporting antes de se transferir para o Anderlecht, em 2018, e regressar esta época a Portugal, para jogar no Famalicão

Sporting

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Solange, como toda a gente que assiste de fora, soube da novidade no próprio dia. Também Tita ficou a conhecê-la a 29 de maio, uma sexta-feira. Ficaram admiradas, estupefactas até. A Federação Portuguesa de Futebol (FPF) estava a propor um teto salarial para todas as equipas da primeira divisão do futebol feminino. O passa-palavra passou rápido e as jogadoras aguardaram alguns dias.

Esperaram que o Sindicato, que existe para defender jogadores e jogadoras, as contactasse, "coisa que nunca aconteceu", até quinta-feira, 25 de junho, lamenta Solange Carvalhas. A extremo do Famalicão e internacional portuguesa, por sete vezes, conta que foi o prolongar do ruído do silêncio que fez as futebolistas "começarem a falar entre si".

Tomaram a decisão de procurarem as "pessoas certas" para as "ajudarem a dar visibilidade" ao que seriam 132 jogadoras unidas num movimento. Encontraram Ricardo Cardoso, especialista em direito desportivo e sócio da CMB.

O advogado decidiu representar as jogadoras pro bono "quando soube o que este caso envolvia". Isso ficou explícito no comunicado de 18 de junho, o primeiro tornado público pelo movimento "Futebol Sem Género"; depois, no direito de resposta enviado à FPF, acusaram o organismo de "discriminação de género institucional" por sugerir um "limite de 550 mil euros de massa salarial"

A medida constou na proposta de Regulamento da Liga BPI para 2020/21, lançado "um bocado às três pancadas" aos olhos de Solange Carvalhas e com o qual a federação quis "pôr um teto quando nem sequer há chão", contestou Tita, que defende esse como "um argumento que tem de ser falado".

Esse é um assunto que foi muito discutido entre as 132 jogadores que subscreveram o direito de resposta e integraram de início o movimento; e ainda mais agora, entre as mais de 200 que já assinaram, diz-nos a também internacional portuguesa (nove partidas), que esta época jogou no Condeixa, por empréstimo do Benfica. Nunca houve, contudo, diálogo sobre isto entre elas e a FPF, ou com o Sindicato, que não foi visado pelo grupo na carta enviada à Federação, mas é-o agora, pelas jogadoras.

A entidade, presidida por Joaquim Evangelista, "deveria posicionar-se junto dos interesses das jogadoras, que é para isso que serve", protestou Tita, juntando a sua crítica à já manifestada pelo movimento, na quarta-feira, após a FPF anunciar o recuo e a retirada do teto salarial. "O que fizeram foi ignorar e deixar passar a medida. Então, tivemos que tomar uma posição. Juntámo-nos e criámos este movimento", resumiu. "Sendo um órgão que só existe para defender os jogadores e as jogadoras, ficámos extremamente desiludidas por não sermos contactadas", acrescentou Solange Carvalhas.

Em 2018, Solange era capitã do Sporting - primeiro grande a criar uma equipa sénior de futebol feminino - antes de se transferir para o Anderlecht, da Bélgica. Agora critica o comunicado no qual a FPF anunciou o fim da medida devido a "um entendimento" com o Sindicato. "Que fique bem claro que a FPF só cedeu devido à luta das jogadoras. Foi devido a este trabalho conjunto que a FPF não teve outra hipótese que não ceder", defendeu, dizendo ser "muito feio o Sindicato estar a tentar ficar com os louros de uma luta que foi apenas do movimento "Futebol Sem Género".

Solange, de 28 anos, garante que o grupo não vai "permitir que o Sindicato fique com os ganhos de todas as jogadoras que estiveram dentro deste movimento e das pessoas que nos apoiaram". Lembrou que o comunicado da FPF "nem sequer as menciona", repetiu que "nunca foram contactadas no sentido de saberem qual era a [sua] opinião sobre o teto salarial" e "o que podia fazer" para ajudarem as jogadoras.

Tita é sucinta a resumir o que está em causa para a futebolistas. "A Federação pode criar outras condições e equilibrar a competição sem colocar limites e cortar os nossos sonhos", lamentou. E critica, também, a atuação do Sindicato, ao qual se "recusa" a pagar mais quotas: "Em vez de se juntarem e tentarem perceber o nosso lado, foram para as redes sociais expôr um vídeo de uma delegada, a Carla Couto, que já foi atleta, e seguramente nem ela acreditará no que está a dizer".

A médio, de 30 anos, queixou-se de que, na "hora da verdade", a entidade tratou "como amadoras" as futebolistas que esperavam "um Sindicato dos Jogadores a lutar pelo interesse das jogadoras", querendo deixar clara uma posição: "Se não continuássemos com este movimento, nunca na vida a federação teria voltado para trás. E agora vêm dizer que eles é que entraram em acordo".

Tita entristece-se por o futebol feminino, mesmo tendo "crescido imenso" nos últimos anos, ainda ter "que lutar contra vários estigmas e desigualdades" e a "maior parte das jogadoras serem amadoras". Onde gostaria de "ver uma FPF a tentar construir um chão do que estar, ao invés, a cortar os sonhos" das jogadoras e a "colocar um teto". Porque "há anos que se fala na evolução do futebol feminino, mas ainda não se fala nas condições das jogadoras".

E o que muito lamentam ambas foram os jogadores, as jogadoras, os treinadores e as figuras públicas que, "claramente", as queriam ajudar e "fazer parte do movimento", afirma Solange Carvalhas, mas que, "de repente, de um dia para o outro, disseram que afinal já não podiam".

Pessoas que "passados alguns minutos retiravam o apoio das suas redes sociais", diz Tita, que pergunta: "Isto é uma grande coincidência, não é? Não sei de que forma, nem porquê, houve alguém a tentar abafar". E Solange remata: "Percebemos, obviamente, o que estava a acontecer por trás, que havia uma pressão de alguma instituição".