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O Lyon vence a Liga do Lyon feminina pela quinta vez seguida

Nunca uma equipa de futebol replicara o feito do Real Madrid de Di Stéfano e Puskas, de outro tempo bem distante, até este Lyon, que ganhou (3-1) ao Wolfburgo e conquistou a Liga dos Campeões feminina pelo quinto ano consecutivo. São já sete as conquistas só nesta década

Diogo Pombo

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2.118 dias são muitos dias, então se descritos assim, dois mil centro e dezoito dias, mais dias parecem ser, é uma feijoada à transmontana de 24 horas, quase como a que cobriu uma mesa de cinco mil metros no dia em que alguém achou por bem inaugurar uma ponta com um repasto quilométrico, e não me querendo perder na analogia, 2.118 é uma enormidade de tempo para uma equipa de futebol contar até encontrar o dia em que perdeu, pela última vez, uma eliminatória da prova mais competitiva e difícil que tem para participar.

A esta conta, a que as mulheres do Olympique de Lyon se auto-impuseram, juntam-se outras, mais fáceis, como as sete que Wendie Renard e Eugénie Le Sommer perseguem, as quatro a que aspira Dzsenifer Marozsán ou as possíveis três de Lucy Bronze, sendo a unidade aqui o número de Liga dos Campeões conquistadas, por cada uma, na equipa francesa, maior alvo de possíveis analogias se alguém quiser associar uma ditadura desportiva feminina a qualquer coisa da vida.

Elas e outras chegaram à quinta final seguida e à sétima nesta década. Esta contra o Wolfsburgo, a pressionar alto e a contra-pressionar imediatamente à boa maneira germânica que não distingue géneros no futebol, sem pudores em apontar os ataques logo para a profundidade atrás das centrais ou os espaços nas costas das laterais, as loiras Pernille Harder e Alexandra Popp a acelerarem conduções de bola como alternativas para baterem as linhas francesas.

Ao início, em vários momentos, esta postura vertical e direta incomodou o Lyon, denunciava alguns buracos e entupia os que as gaulesas, quando recuperavam bolas, queriam provocar pela calma, pelo passe curto e pelo jogo de atrair a pressão e distribuir a bola para longe dessa armadilha que seduziam. Mas, mais cedo do que tarde, as jogadoras que já bêbadas de matemática estarão com os dias contados desde a última eliminatória perdida, começaram a impor o seu estilo frente a quem, num só jogo, lhes impôs a derrota mais recente (2017).

As saídas limpas de trás foram assentes por Gunnarsdóttir (nem há dois meses era, ainda, jogadora do Wolfsburgo), a pegar nos passes perto dos centrais para chamar a pressão das alemães, os espaços abriram-se para encontrar as receções de Marozsán entre linhas para, depois, a definição das jogadas chegar às as diabruras de Majri e, sobretudo, de Cascarino.

As extremos muito encararam as laterais do Wolfsburgo, empurraram as alemãs para a própria área e 1-0 de Le Sommer, marcado à recarga, veio de uma jogada de Cascarino, à direita. Do mesmo lado se originou o 2-0, este após um ressalto à entrada da área, aproveitado pela japonesa Kumagai, que parecia mover-se a favor do tempo enquanto as alemães, lentas a saírem da área para pressionar a segunda bola, eram abrandadas por ele.

Juanma - UEFA

Mais do mesmo parecia ser a segunda parte, o Wolfsburgo incapaz de criar problemas pelo centro, o Lyon feliz e contente a apanhar boleia das fintas bem sucedidas de Cascarino para deixar, depois, alguém com hipótese para rematar à baliza, e por cima de tudo isto o conforto mental das francesas, por já terem passado por isto tantas e tantas vezes, por a experiência não lhes ser nova, mesmo que dois jogos iguais seja coisa inexistente no futebol.

E não do nada, mas quase, uma condução acelerada de Harder, pelo meio, fixou a única médio francesa que restava à frente da defesa, libertou na esquerda que Rolfö, cujo segundo cruzamento foi desviado pela cabeça de Popp para o 2-1, que podia ser um prenúncio para o relançar a final, porque mesmo com um passado e mente de ferro nesta competição, a confiança das jogadoras do Lyon podia ser enferrujada por um golo inesperado.

Não só não aconteceu, como o jogo retornou, num ápice, ao que estava a ser: um contínuo esforço as alemãs, mais arriscadoras, em prolongarem a esperança média de vida dos ataques, quase sempre desviados para uma das alas, onde os cruzamentos não caiam foram das boas coberturas e posicionamentos da defensiva do Lyon; e uma calma e paciente postura com bola das crónica campeãs gaulesas, sempre a tentarem controlar o jogo pela bola, saindo até em transições rápidas nos últimos minutos, espertas em aproveitar a profundidade que já havia em mais metros de relva devido ao risco a que o Wolfburgo se forçava.

Ainda houve o 3-1, rematado por Le Sommer na ressaca de um canto e desviado por Gunnarsdóttir quase na pequena área, para o festejo resfriado da islandesa, que antes da pandemia andava a correr para tapar espaços no meio campo da equipa do duplo v, e agora esperou para celebrar a vitória, como todas as outras (a portuguesa Jéssica Silva incluída, mesmo que a recuperar de uma fratura na perna) como se da primeira vez se tratasse. Não é, porque isto é mais um tratado sobre supremacia futebolística.

O Lyon ganhou, pela quinta vez consecutiva, a Liga dos Campeões feminina. É a sétima conquista esta década e oitava final em que estiveram presentes, uma constância de superioridade na competição mais competitiva que há como, antes, apenas se viu no antiquíssimo Real Madrid de Di Stéfano, Puskas e Gento, nos anos 50, já lá vai tempo e isso vê-se, por exemplo, pelo tempo que demorou até se ver o primeiro jogo da seleção feminina portuguesa (1980).

Este Lyon é histórico, dominante, viciadamente superior, marcará um era e ganhou mais uma liga cada vez mais sua, porque para aqui chegar tem um presidente, Jean-Michel Aulas, que se dedica tanto ao feminino como ao masculino, as deixa treinar onde os homens treinam, jogar onde eles jogam e as premeia, na final, com o mesmo dinheiro que pagou à equipa masculina quando chegou aos quartos-de-final da sua Liga dos Campeões.

Talvez em breve pague mais às mulheres, porque esta é a Liga do Lyon.