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Futebol feminino

E não voltou a acontecer 2016

O nulo na Rússia deixou a seleção nacional feminina fora do Europeu do próximo ano, não repetindo assim a participação histórica de 2017, na altura também conseguida meses antes num equilibrado playoff com a Roménia. Portugal foi sempre a equipa com melhor futebol, com mais dinâmicas e talento, mas a qualificação escapou por pormenores, por dois ou três erros e também pela falta de frieza no ataque em ambos os confrontos com as russas

Lídia Paralta Gomes

Gualter Fatia/Getty

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É possível que nos próximos dias, até a tristeza deixar de ser um sabor mais ou menos permanente porque haverá sempre vida além de um objetivo falhado, vá passar pela cabeça das jogadoras portuguesas não o erro que tudo decidiu neste playoff, aquele lance em que Patrícia Morais achou fora uma bola que ainda continuava em campo, mas sim aquele golo sofrido já bem para lá dos 90’ na Finlândia em fevereiro.

Esse golo quase fortuito fechou as portas à possibilidade de Portugal se qualificar diretamente para o Euro 2022, levou tudo para o playoff e quando se cai para um playoff já se sabe que a imprevisibilidade sobe a pique e os pormenores muitas vezes valem mais que grandes exibições.

De tal forma que Portugal está fora do Euro 2022 após um playoff em que foi superior em termos de qualidade de jogo pura e dura, em que teve mais bola, mostrou mais dinâmicas ofensivas, mais recursos técnicos, mais talento. Mas errou uma vez, não desfez o erro com um golo e isso foi suficiente.

Dias depois de uma derrota dolorosa no Restelo, o jogo de Moscovo pautou-se pela mesma bitola: mais bola para Portugal, mas a Rússia a fazer valer a superioridade física para manter a sua área livre de perigo iminente durante boa parte do jogo e a beneficiar também de alguma falta de frieza e objetividade das jogadoras portuguesas, muito bem troca de bola e na construção ofensiva, mas com dificuldades em definir nos últimos metros.

Sabendo a obrigatoriedade de marcar, de preferência cedo, os primeiros 20 minutos de jogo de Portugal foram provavelmente dos melhores neste playoff, desde logo a assumir o jogo e com vários pormenores de grande qualidade a nível coletivo. Ainda assim, só através dos cruzamentos de Ana Borges a bola chegou à área, com Kika e Tatiana Pinto a não conseguirem dar a direção devida.

A Rússia pouco tocava na bola mas quando a tinha assustava Portugal com transições rápidas. A meio da 1.ª parte, o jogo equilibrou, com a seleção nacional a sentir mais dificuldades em ter bola e a suster a potência russa, mais habituada a estas andanças de Europeus e Mundiais que Portugal.

Ao intervalo, Portugal era a equipa que mais qualidade tinha apresentado, mas o certo é que Inês Pereira, titular na baliza de Portugal no lugar de Patrícia Morais, teve mais trabalho do que a russa Elvira Todua do outro lado.

Gualter Fatia/Getty

Na 2.ª parte, Portugal voltou a entrar melhor, chegou a encostar a Rússia à sua área, o meu campo, pautado por Cláudia Neto, funcionava bem mas lá à frente surgiam os problemas. Kika Nazareth esteve pouco em jogo e Jéssica Silva, de regresso ao onze, em dia de pouca inspiração, somando perdas de bola e más decisões.

Com dificuldades em entrar na área russa, foi de longe que Portugal teve provavelmente a melhor oportunidade do jogo, num remate colocado de Dolores Silva, aos 70 minutos, que Todua conseguiu afastar. Antes disso, já a Rússia tinha causado calafrios na transição ofensiva, com Inês Pereira a salvar um remate potente e colocado de Abdullina e minutos mais tarde Korovkina a falhar por pouco um chapéu à guarda-redes portuguesa depois de aparece isolada no meio campo nacional.

Nos últimos minutos, as russas praticamente abdicaram da bola, fecharam-se lá atrás, Francisco Neto lançou Ana Capeta (que sairia antes do final, lesionada), mas nem assim as oportunidades surgiram e não foi possível repetir 2016 e a épica qualificação para o Euro 2017 conquistada na Roménia, com um golo já no prolongamento.

A afirmação de Portugal no contexto do futebol feminino terá de passar necessariamente por uma presença mais constante pelas grandes competições e por isso mesmo este playoff será sempre um duro golpe. O talento existe, faltará talvez a frieza necessária nestes momentos de pressão. Portugal não estará no Europeu de 2022 por duas desatenções. Com a experiência, elas vão existir menos vezes.