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Futebol feminino

Com quatro morres, com quatro matas

O Barcelona ultrapassou o trauma da derrota na estreia na final da Liga dos Campeões, há dois anos, aplicando a mesma dose ao Chelsea na final de 2021. Vitória para as espanholas por esclarecedores 4-0, depois de uma 1.ª parte diabólica e um segundo tempo em que controlaram a reação britânica

Lídia Paralta Gomes

Boris Streubel - UEFA/Getty

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Ainda devia estar na cabeça de muitas delas quando entraram em campo, das que estiveram naquela final de 2019 e repetiam agora em 2021. Há dois anos, o Barcelona chegou pela primeira vez à final da Liga dos Campeões feminina e aos 30 minutos já perdia por 4-0 frente ao todo-poderoso Lyon, que com aquela já ia em quatro Champions seguidas. Ainda marcou o golo de honra, mas a estreia seria traumática.

Talvez seja assim que se aprende, “tem que chorar no começo para sorrir no fim”, foi Marta, a grande Marta que disse isto e se ela disse é capaz de ter razão, porque não houve muitas mais com o talento dela a pisar um relvado de futebol.

E o Barcelona, que nessa noite em Budapeste foi para casa a chorar, desta vez saiu a rir, dando ao Chelsea o mesmo corretivo que recebeu há dois anos, desta vez sem sequer permitir um golo de consolação às inglesas, que faziam a sua estreia este ano na final.

Não foi à meia-hora de jogo, mas aos 35’ já o Barcelona ganhava por 4-0, resultado que não se alteraria até ao fim, numa primeira parte de domínio absoluto, com ajuda das fragilidades defensivas do Chelsea e de um dia particularmente obtuso do ataque londrino, o ponto forte da equipa campeã de Inglaterra.

O descalabro do Chelsea demorou 35 segundos a começar, com o Barcelona a ficar logo em vantagem na primeira jogada do encontro, num lance que começou com uma bola na barra de Martens. Seguiu-se grande confusão na área londrina, com o Chelsea a não conseguir afastar, e o golo aconteceu depois de uma estranha carambola que teve como Leupolz a última jogadora a tocar na bola.

Não houve tempo para respirar e logo de seguida Pernille Harder, do outro lado, falhou a resposta a um bom cruzamento, naquele que seria o primeiro de muitos lances de divórcio entre a dinamarquesa e a baliza. Aos 9’, a avançada voltou a falhar o alvo ao permitir o corte de Torrejón na hora certa depois de isolada por Samantha Kerr de calcanhar.

David Lidstrom/Getty

Nesta altura, o Chelsea queria pausar o jogo, colocar gelo para partir com cabeça fria para o empate, mas aos 14’ novo azar de Leupolz tornou tudo mais complicado: a médio deixou o pé, Hermoso caiu na área e grande penalidade que Alexia Putellas marcou sem dificuldade.

E a partir daí, só deu Barcelona. Pressionante sem bola, fulminante e eficaz com ela, aos 20’ uma grande jogada coletiva terminou com o 3-0. Hermoso baixou, serviu de pivô ao ataque, deu trás para Putellas, que viu a demarcação de Aitana Bonmati, que rematou para o golo. Tudo simples, tudo bonito e o trauma dos 4-1 de há dois anos a desvanecer-se rapidamente.

O 4-0 partiu de um grande passe de costa a costa de Aitana para Martens que do lado esquerdo do ataque fez o que quis de Charles, foi a linha e ofereceu a Graham Hansen, que só teve de encostar.

Na 2.ª parte, o Chelsea entrou mais pressionante, passou boa parte do tempo no meio-campo do Barcelona, mas para lá da falta de inspiração do trio Kirby-Harder-Kerr, as catalãs pareceram ter sempre tudo absolutamente controlado, gerindo o jogo com os olhos e tentando aqui e ali um contra-ataque.

Único momento de verdadeiro perigo para o Chelsea talvez apenas aos 70’, quando Harder voltou a aparecer bem posicionada no ataque mas mais uma vez falhou completamente a finalização - dia absolutamente não para a jogadora por quem o Chelsea pagou uma verba recorde para contratar e que continua de costas voltadas para a Liga dos Campeões: perdeu pela terceira vez uma final, depois de duas perdidas com o Wolfsburgo.

Um trauma que a dinamarquesa terá a juntar ao trauma coletivo do Chelsea, atropelado nesta estreia numa final da Liga dos Campeões. Mas o exemplo para dar a volta, para chorar no princípio e rir no fim, esteve ali mesmo à frente delas: o Barcelona tornou-se na primeira equipa espanhola a levantar o principal troféu europeu de clubes, um triunfo justo e merecido, de uma equipa que cresceu com o desaire e surgiu dois anos depois adulta e a saber como gerir uma final.