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Futebol feminino

Espanha aprovou uma liga profissional de futebol feminino, que já se joga. Mas ainda falta a profissionalização e as jogadoras estão fartas

Dificuldades financeiras, piores condições que os colegas de trabalho do lado masculino da bola, ausência de profissionais médicos. As equipas da primeira divisão de futebol feminino espanhol passam por vários problemas e, para solucioná-los, pediram a profissionalização. Conseguiram-na, mas o processo está bloqueado há cerca de cinco meses

Rita Meireles

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Os adeptos deveriam ter assistido a mais um fim de semana da liga de futebol feminino espanhola. Mais jogos, mais golos, mais vitórias ou derrotas. Mais de tudo aquilo a que o futebol nos habituou desde sempre. Mas não foi assim. Em vez disso, o fim de semana anterior ao que agora passou teve protestos, castigos e um momento que apanhou todos de surpresa.

A situação não é nova. Quando, no passado mês de junho, o governo espanhol declarou que a primeira divisão do futebol feminino espanhol — Primera Iberdrola — iria passar a profissional, ficou a sensação de que estava ganho um longo e difícil processo de negociações. Cinco meses depois, contudo, o futebol feminino continua parado na casa de partida e as jogadoras decidiram dizer basta.

Começaram por parar os jogos durante 30 segundos em forma de protesto. Seguiram-se os encontros em que as futebolistas de Real Sociedad, Levante e Villarreal optaram por tapar o símbolo da Federação de Futebol Espanhol que têm nas camisolas. Nada disto fez avançar as negociações, servindo apenas para que esses três clubes acabassem penalizados em três pontos e com uma multa de 609 euros cada.

Esse castigo foi anunciado no mesmo fim de semana em que um momento durante deixou à vista de todos as condições a que estas jogadoras estão sujeitas, em particular as do Rayo Vallecano.

Numa partida contra o Athletic, a jogadora Camila Sáez sofreu um duro golpe na cabeça. Precisou de assistência, mas quem a forneceu foi a equipa médica das adversárias e pelas próprias colegas. Porque o Rayo Vallecano marca presença na primeira divisão espanhola sem pessoal médico para assistir a equipa.

"Até quando vão permitir esta situação? Terá de acontecer algo verdadeiramente grave para que se atue. Esta equipa merece mais. Não podemos continuar assim”, leu-se nas redes sociais de Paula Andújar, capitã do Rayo, a seguir ao sucedido.

E esta não é a primeira situação em que o Rayo se vê envolvido. Na pré-época da atual temporada, as jogadoras pararam os treinos em protesto porque o presidente do clube não as tinha inscrito na Segurança Social. O problema deu origem a uma queixa que ainda se encontra a decorrer.

Mas foram os últimos acontecimentos que levaram as jogadoras a bater o pé em definitivo. Numa conferência de imprensa onde estiveram representados nove dos 16 clubes da Primera Iberdrola, as atletas não descartaram uma greve se a profissionalização não avançar.

“Queremos acabar com o bloqueio e, finalmente, tornarmo-nos uma liga profissional, isso irá ajudar-nos a todos a crescer e a levar o futebol feminino espanhol para onde ele merece estar”, garantiu Amanda Sampedro, capitã do Atlético Madrid. “Não sabemos de quem é a culpa [de a profissionalização não ter avançado]. Ninguém gosta de entrar em greve, mas parece ser a única solução”, acrescentou.

As jogadoras realçam as diferenças claras que existem com o lado masculino do futebol espanhol: desde o facto de jogarem em campos de relva artificial, até ao facto de não terem espaço nas transmissões televisivas. A lista de diferenças é longa.

Europa Press Sports

O conflito

O governo deu a palavra de que o processo de profissionalização iria avançar e, no passado mês de junho, o Conselho Superior do Desporto (CSD) aprovou o processo e pediu aos clubes que lhes fizessem chegar os estatutos para formalizar tudo. Só que as entidades não entraram em acordo.

De um lado está a proposta de 12 equipas, todas ligadas à Associação de Clubes de Futebol Feminino (ACFF), do outro, a proposta de três clubes desligados da entidade: o Real Madrid, o Barcelona e o Athletic Bilbao.

Segundo o jornal ‘El País’, um dos principais pontos de discórdia são os direitos comerciais individuais, ou seja, o que as equipas cedem para a promoção da competição como um todo. Esses três clubes querem assumir o controlo sobre essa questão, ao contrário do que acontece no futebol masculino. Outra questão onde a discórdia é clara prende-se com o sistema de maiorias na tomada de decisões.

O jornal avança também que estes pontos de discordância parecem estar ligados ao conflito político entre presidentes como Florentino Pérez, do Real Madrid, e Joan Laporta, do Barcelona, com Javier Tebas, o presidente da La Liga.

Para as 12 equipas, sendo que muitas não jogam com as capacidades financeiras, esta profissionalização passa mesmo pela solução económica que necessitam, uma vez que isso levaria ao aumento das receitas, principalmente através da venda centralizada dos direitos televisivos.

Depois de todos os protestos e da conferência de imprensa conjunta entre alguns clubes, o governo já se manifestou em comunicado, pedindo aos clubes “responsabilidade num momento decisivo para o desporto feminino”, uma vez que “o futuro do futebol feminino não pode ser encarado através de desacordos entre os clubes”.