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Futebol feminino

Carolina Mendes e a arte angustiante dos avançados

Portugal venceu Israel, em Portimão, por 4-0, e assume a liderança do Grupo H da qualificação para o Mundial 2023. A Alemanha, a difícil rival de terça-feira, tem menos um jogo. Carolina Mendes fez um hat-trick, Lúcia Alves estreou-se e a central Diana Gomes voltou a marcar

Hugo Tavares da Silva

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O avançado é um espécime especial. Depois de mandar uma bola ao poste e de falhar um golo quase de baliza aberta, o rosto de Carolina Mendes ficou colado à relva, como quem queria desaparecer. Agonia. A ferida ameaçava abrir, sangrar, mas, em menos de 20 minutos, dois golos fizeram-na recuperar rapidamente o orgulho. E o rosto voltou à relva, talvez para desdizer, sorrindo, o que lhe segredara antes. Mais tarde, com um corredor à frente que prometia o oposto do desgosto, parecia levitar e desviou, com uma dança e um toque sublime, da guarda-redes e celebrou o hat-trick com a baliza deserta. A killer Carolina Mendes sorriu como sorriem as pessoas felizes e, em troca, recebeu das colegas o mesmo sentimento, num abraço honesto.

Talvez com a Alemanha no horizonte e também para todas as jogadores do grupo se sentirem importantes, Francisco Neto (jogo 100) fez algumas alterações no 11 em relação ao 5-0 com a Bulgária, nos últimos dias de outubro: Alícia Correia, Dolores, Andreia Jacinto e Diana Silva cederam os lugares a Joana Marchão, Tatiana Pinto, Kika Nazareth e Carolina Mendes, que, com a braçadeira a apertar-lhe o braço, cumpria também ela a 100.ª internacionalização.

A ligação entre Joana Marchão, a senhora dos golos bonitos no campeonato, e Jéssica Silva cedo deu nas vistas. Israel defendia em 5-4-1, mas nem era capaz de abafar a largura nem magicava um autocarro, pelo que havia espaço para filtrar passes de feitios vários, nomeadamente por entre as defesas nos corredores e, mais tarde, nas costas das centrais. Foi assim que Jéssica Silva e Kika, duas raparigas com um toque de bola especial (um pouco desinspiradas nesta tarde), ameaçaram a baliza de Amit Beilin, que seria expulsa quando faltariam menos de 20 minutos (derrubou Jéssica, isolada). O desperdício marcaria a toada até meio da primeira parte.

É certo que o nível técnico e comportamental das israelitas era pobre, com exceção talvez para a capitã de botas estridentes, Karin Sendel, mas a boa reação à perda da bola das portuguesas era decisiva e fiável. O jogo estava fácil, encontrava boas decisões nas botas de Tatiana Pinto, mas a impaciência ou apetite desmedido pelo golo toldou o juízo das futebolistas de vermelho. Como havia buracos nos corredores e entre defesas, os passes pouco preparados e urgentes foram aumentando.

Aos 16’, Jéssica Silva falhou talvez o golo mais fácil da carreira, depois de Carolina Mendes bater com a canhota ao poste, bem servida por Ana Borges, uma futebolista que realmente dá gosto ver no relvado, pela qualidade, mentalidade e por todas as ações terem um propósito, é uma espécie de rainha da utilidade. Sairia dos pés da jogadora do Sporting, ala no clube e extrema na seleção, as duas assistências para os golos de Carolina Mendes na primeira parte (27’ e 43’). A jogador do Sp. Braga até tinha falhado um golo fácil, fácil, após assistência cheia de mel de Kika, mas corrigiu esse desvio no orgulho com golos, é a fórmula mais correta na vida dos avançados.

Um pormenor delicioso após o 2-0 de Portugal, já com a linha defensiva de Israel ainda mais subida, o que não augurava nada de bom para as visitantes, foi o “é tão simples” de Francisco Neto, filmado durante os festejos, aproveitando para dar feedback às jogadoras do banco. Talvez estivesse a dizer que a linha defensiva não controlava nem a largura, nem a profundidade e que estava fácil. Realmente, parecia simples, mas são as jogadoras que têm o poder de simplificar o jogo.

Ao intervalo, Israel mexeu e colocou em campo talvez a jogadora mais dotada tecnicamente, Eden Avital. Era o toque de bola que o denunciava, mas também o número 10 nas costas. Teria uma ou outra oportunidade para tocar na bola, já que Portugal tiraria o pé do acelerador à medida que o marcador ia engordando.

O 3-0 saiu da bota da central Diana Gomes, com Kika a aproveitar um canto rápido para massacrar a inocência alheia. A defesa, que marcou pelo segundo consecutivo, fez a célebre vénia.

Aos 54’, Portugal chegou ao 4-0, pelo tal golo bonito de Carolina Mendes, salpicado pela qualidade de Joana Marchão, a lateral que arrancou numa diagonal imparável para dentro, tocando depois para a colega. Mendes demonstra, como quase todos os bons avançados demonstram, como a vida muda em poucos minutos. A cabeça é decisiva, a sorte idem, seja em que contexto for, formação ou rendimento, homens ou mulheres. A agonia tem de ser combatida a cada ação. Uma ação de cada vez, uma agonia de cada vez. É a arte dos avançados. Cair e voltar ao lugar onde o pé tremeu e combater essa tremura. Marcar é a cura para todos os males.

Francisco Neto começaria então a mexer. Entrariam a estreante Lúcia Alves, Vanessa Marques, Diana Silva, Fátima Pinto e Mélissa Gomes. O jogo português, talvez sofrendo com as mexidas ou com o pensamento no resultado ou na Alemanha, desmontou-se antes de se montar outra vez e revestir-se de qualidade. Foi nesta fase, de mais ou menos dúvidas, de menor qualidade, que foram surgindo as competentes Catarina Amado, a lateral menos aventureira, Carole Costa, Diana Gomes, centrais que aqui e ali poderiam conduzir mais a bola para fazer saltar alguém da organização defensiva rival, e a guarda-redes Inês Pereira, que teve de fazer uma excelente defesa para corrigir um passe a queimar de Tatiana Pinto, que isolou uma israelita.

Portugal poderia ter marcado mais, principalmente por Diana Silva, que parece atrair a bola para ela na área, mas o resultado não sofreria mais mexidas. A seleção nacional, com quatro vitórias e um empate, assume a liderança do Grupo H, ultrapassando a Alemanha, que tem menos um jogo.

Na terça-feira, portuguesas e alemãs tiram as teimas e dotam de outra carne o sonho de estar no Campeonato do Mundo.