A certeza errónea de que nada é mais natural do que um dia seguir-se a outro
A morte aconteceu-lhes a 30 quilómetros do destino, na Colômbia: 75 morreram, seis sobreviveram (na verdade foram sete, mas um não resistiu aos ferimentos depois de resgatado). Foram 75 tragédias e seis milagres naquele avião que caiu. Quase todo o Chapecoense, equipa de cidade influenciada por índios e italianos e exemplo de rara organização no futebol brasileiro, desapareceu ali. Minutos antes, os jogadores publicaram um vídeo: alguém faz uma “selfie”, a maioria sorri. Estão todos tranquilos. É aquela certeza errónea que todos temos de que nada é mais natural do que um dia seguir-se a outro
30.11.2016 às 11h35
reuters
Partilhar
A cidade de Chapecó, no oeste de Santa Catarina, surgiu no meio do nada. Era só parte do caminho que ligava o rico Estado de São Paulo às regiões agrícolas do Rio Grande do Sul. Os índios Kaingang dominavam a região, até que, no século XIX, tropeiros resolveram fincar raízes ao meio do caminho.
Chapecó é uma daquelas palavras que os brasileiros herdaram dos índios. Tem um certo doce no falar, vindo do chiado da primeira sílaba e a contração engraçada da última. Seu significado ainda causa controvérsias. Poderia ser “chapéu feito de cipó”, “põe no chapéu” ou ainda “donde se avista o caminho da roça”. Significados tão diferentes para uma palavra tão curta só aumenta a simpatia por ela. Seja por sua complexidade ou por nossa ignorância.
Uma das razões do crescimento de Chapecó foram as levas de migrantes italianos que dominaram o campo, deixando marcas no desenvolvimento e na formação da identidade cultural da cidade. O time de futebol local não poderia ter outro nome: Chapecoense, de quem nasce em Chapecó. Entre seus torcedores, era conhecido como o Furacão do Oeste catarinense.
Era um raro exemplo administrativo no bagunçado futebol brasileiro. Um clube de quem valoriza os pés no chão. Usou a experiência de empresários da indústria de carne, característica de sua economia, para profissionalizar sua gestão. Orçamento enxuto, executivos experimentados no setor privado no comando e jogadores de pouca fama, que aceitavam receber salários muito abaixo das médias exorbitantes do futebol. Sua folha salarial custa dez vezes menos que a do Palmeiras, que se sagrou campeão da atual temporada no domingo passado.
O time da cidade de apenas 200 mil habitantes ganhou o campeonato catarinense, está em nono lugar no Brasileiro e chegou à final do segundo mais importante torneio do continente - o primeiro é a Taça Libertadores da América.
A Chapecoense enfrentaria o Atlético de Medellín nesta quarta-feira na primeira partida da final. A equipe pulou da quarta divisão ou série do futebol brasileiro para a primeira em apenas cinco anos.
Heuler Andrey
O avião que transportava o time de futebol caiu na madrugada após uma pane elétrica. O piloto jogou o combustível fora e provavelmente tentou o pouso forçado na área de mata densa. Informações iniciais indicam que 76 pessoas morreram, entre elas 22 jogadores e outros 28 entre acompanhantes e a equipe técnica.
Entre os mortos havia um grupo de jornalistas desportivos, do qual se destacava o ex-jogador Mário Sergio, que atuava como comentarista para o canal Fox. A seu tempo, foi tido como um dos exemplos dos jogadores turrões. Tinha um quê de travessura simpática - como a famosa história de um grupo de jogadores do Fluminense que baixou o calção de Mário Sérgio na porta de um hotel para constrangê-lo e terminou constrangido por sua imobilidade blasé. Os colegas foram obrigados a levantar-lhe o calção de volta, sob a ameaça de que, de cuecas, não arredaria o pé da portaria do hotel.
A delegação do Chapecoense e os passageiros do voo deixaram um registo feito minutos antes de o avião descolar. Alguém faz uma “selfie”, em que se pode ver quase três dezenas de rostos. A maioria sorri. Mais uma “selfie” de um dia comum, podem ter imaginado. Estão todos tranquilos, como se estivessem no caminho da roça, um caminho prosaico da rotina do esporte. Naquela certeza errónea que todos temos de que nada é mais natural do que um dia seguir-se a outro. Pois não é.
Relacionados
-
Colômbia corrige balanço de acidente: 71 mortos e seis feridos
Balanço inicial considerava que tinham embarcado no avião as 81 pessoas previstas. Confirmou-se posteriormente que quatro delas não partiram para Medellín
-
Desolador
Avião que transportava a delegação do clube de futebol Chapecoense caiu com Medellín à vista, após uma viagem em clima de festa. A maior parte dos corpos já foram resgatados e as autoridades colombianas confirmam terem recuperado também as duas caixas negras do aparelho. Só a sua análise permitirá explicar a causa do acidente
-
Avião partiu-se em três antes de cair
Aparelho que transportava a equipa brasileira do Chapecoense e que caiu perto da cidade de Medellín, matando 75 pessoas, deu duas voltas antes de cair, quando tentava fazer uma aterragem de emergência
-
Empresário de Marcelo Boeck diz que jogador teve “um livramento de Deus”
Antigo guarda-redes do Sporting Marcelo Boeck não foi chamado para a final da Taça Sul-Americana e não estava por isso no avião da equipa. O jogador está neste momento no estádio em Chapecó, acompanhado dos restantes jogadores não convocados e das famílias das vítimas. O empresário do jogador fala num “livramento de Deus”
-
Queda de avião: o vídeo que está a comover o Brasil
Com apenas 43 anos de vida, o Chapecoense, clube do estado de Santa Catarina, no sul do Brasil, ganhou notoriedade apenas em 2013, quando chegou à primeira divisão do campeonato nacional de futebol. E era na cidade colombiana de Medellín que os jogadores disputariam a primeira partida da final da Copa Sul-Americana, contra o Atlético Nacional. Avião caiu a 30 quilómetros do destino: morreram 75 pessoas, seis sobreviveram - houve um sétimo sobrevivente, mas que morreu entretanto
-
-
“O que a gente tem de dizer é que a vossa solidariedade é grandiosa”: um depoimento emocionado de um dirigente da Chapecoense
É presidente do conselho deliberativo do clube. Chama-se Plínio David de Nes Filho. E o resto não é preciso escrever, antes ver
-
“Falha elétrica”, montanhas e mau tempo potenciaram acidente na Colômbia
Sem querer especular, o comandante Miguel Silveira descreve em entrevista ao Expresso as circunstâncias do trágico acidente com um aparelho da companhia aérea boliviana LaMia. E revela como devem proceder os pilotos quando têm pela frente uma “falha elétrica” e estão a voar sobre montanhas em condições meteorológicas adversas
-
“Que essa seja a última imagem dos nossos guerreiros”: o vídeo em que a Chapecoense homenageia os seus
O ‘Verdão do Oeste’ vivia a melhor época de sempre. Estavam a caminho da final da Taça Sul-Americana de futebol, na Colômbia. Não chegaram ao destino. O avião em que viajavam caiu e pelo menos 75 morreram. O clube não quer que seja a tragédia a ficar na memória dos adeptos e do mundo. Prefere que “os guerreiros” sejam recordados nos momentos de alegria e vitória
-
Jesus: “O treinador da Chapecoense era um grande amigo meu”
Jorge Jesus trabalhou com Caio Júnior, treinador da Chapecoense, que seguia a bordo do avião que caiu na Colômbia. Em declarações à Sporting TV, o técnico diz que hoje é um dia triste para o futebol
-
Tragédia na Colômbia: as primeiras imagens do local onde o avião caiu
Avião que transportava a equipa de futebol da Chapecoense, do Brasil, caiu a 30 quilómetros do destino final, na Colômbia. Sete pessoas foram resgatadas com vida, uma acabou por morrer. Neste momento estão confirmados 75 mortos