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Futebol internacional

Carlos Kaiser: Não há nada mais brasileiro do que a malandragem. E ninguém foi tão malandro quanto ele

Esta é a história do futebolista que nunca pisou no relvado e que deu um filme. Este golpista brasileiro foi contratado pelos maiores clubes do país, jogou na Europa e conquistou o carinho de craques nos anos 80, sem saber dar um chuto numa bola

Evandro Furoni

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Poucas coisas estão tão enraizadas no futebol brasileiro quanto o conceito da “malandragem”, a capacidade de usar a inteligência para enganar os outros. O país teve a sua cota de futebolistas malandros na história, mas só um pode ser considerado o imperador desta classe. Carlos Kaiser conseguiu jogar em algumas das principais equipas brasileiras durante a década de 80, mesmo sem nunca ter precisado pisar no relvado profissionalmente.

Carlos Henrique Raposo ganhou a alcunha de “Kaiser” - imperador, em alemão -, pela semelhança com Franz Beckenbauer, diz, mas também pode ser por causa de uma marca de cerveja muito popular da época. Vestiu as camisolas das quatro grandes equipas do Rio de Janeiro – Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco –, entre outras. Apesar disso, nunca jogou no Maracanã; possivelmente, nem em qualquer estádio brasileiro. O malandro assinava com as equipas, recebia como um atleta profissional e fazia de tudo para não jogar

Porque, afinal, não sabia.

Carlos chegava em todas as equipas fora de forma, então era imediatamente colocado para recuperar a condição física, apenas isso. Quando a comissão técnica dos clubes decidia, mesmo assim, colocá-lo para a jogar, era a hora de inventar uma lesão ou até mesmo pedir a um companheiro para lhe dar uma cacetada num treino.

A estratégia de Kaiser era simples: fazia contratos curtos, de cerca de três meses. O tempo era suficiente para fingir longas lesões e ao mesmo tempo receber o bónus da negociação. Muitas vezes, vinha contratado como contrapeso de negociações de outro nomes mais famosos, já que a equipa estava decidida livrar-se dele o mais rápido possível ao notar que ele nunca jogava. Assim, acabou nos maiores clubes do Rio de Janeiro.

Quando foi jogador do Bangu, nem mesmo essa estratégia deu certo. Um dia foi para o banco de suplentes e foi obrigado a entrar por ordem do presidente do clube, revoltado com a derrota da sua equipa por 2 a 0. Sem saída, Kaiser notou que um grupo de adeptos estava a ofendê-lo. Não pensou duas vezes: pulou para as bancadas e brigou com os adeptos.

Acabou expulso antes de entrar.

O problema é que o presidente que pediu que ele jogasse era Castor de Andrade, famoso por ser o barão dos jogos ilegais no Rio de Janeiro. Bom malandro, Kaiser rapidamente achou uma solução antes de fazer o notório criminoso como inimigo.

“Eu disse: ‘pô, doutor. É horrível ouvir dizer que seu pai faz isso ou aquilo, essas coisas que falam do senhor. Você sabe como é para um filho ouvir isso de um pai. Eu acabei brigando e prejudiquei o time”, contou Carlos em entrevista para a “TV Cultura” em 2012.

Segundo ele, o presidente ofereceu um novo contrato após a conversa.

As equipas brasileiras não foram as únicas vítimas. Chegou a jogar no Gazélec Ajaccio, da França. Os adeptos do clube, que oscilava entre a terceira e segunda divisão nacional, estavam eufóricos em receber um suposto craque brasileiro e esperavam ver o seu talento durante a apresentação oficial. Para não mostrar a sua falta de talento, Kaiser começou a chutar bolas para a bancadas. Quando foi pedido que mostrasse sua qualidade, não havia mais nenhuma no relvado.

Começo sério, amigo dos jogadores e vida boémia

Segundo conta, Carlos nasceu no Rio Grande do Sul, mas foi criado no Rio de Janeiro por pais adotivos. Começou aos 10 anos nas escolinhas do Botafogo e depois jogou no Flamengo. A carreira profissional teve início no Puebla, do México. Diz ele que começou a vida de golpista após a experiência mexicana.

O motivo da vida de golpes é que nunca quis ser futebolista, segundo o próprio. “Com dez anos minha mãe já sustentava a família inteira com o dinheiro que eu recebia do Botafogo e chegava a me bater para jogar futebol. Eu criei um bloqueio. Eu fiz o caminho inverso. Todo mundo queria jogar futebol e eu queria estudar”, disse para a “TV Cultura”.

Muito do sucesso de seu plano teve a ajuda dos próprios futebolistas. Sempre educado, com linguajar de poucas gírias, ficava próximo dos atletas mais famosos. Esses, em contraponto, pediam a contratação do colega aos patrões dos clubes. Claro, os pedidos não eram de graça: Kaiser era o responsável por organizar festas e encontros com mulheres para todos. Todos.

“Ele diz publicamente que era ele que trazia as mulheres e a ‘sacanagem’ para os futebolistas. Era a babá deles. Cuidava de todos e arranjava tudo, isso - as indicações - era o preço dele”, conta ao Expresso Louis Myles, realizador de um documentário britânico lançado neste ano sobre o golpista, ainda sem previsão de estreia em Portugal.

Mulheres é a resposta para a pergunta do motivo de Kaiser lutar tanto para estar no mundo do futebol, apesar de não gostar de jogá-lo. O Rio de Janeiro da década de 80 era o zénite da vida boémia dos futebolistas.

Carlos podia não jogar, mas tinha o típico visual de atleta: era alto e forte, estava sempre de óculos escuros e ostentava um volumoso cabelo. Usava a conversa de ser futebolista e a amizade com famosos para suas conquistas. Afirma que teve casos com muitas famosas, mas não revela quais. Por respeito.

Às vezes, ia um pouco além. O visual descrito era semelhante ao de Renato Gaúcho, um dos principais futebolistas, e boémios, do Brasil. Kaiser gostava de se fazer passar por Renato Gaúcho para chamar a atenção de mulheres e ganhar vantagens nas casas noturnas cariocas.

“Um dono de boate em Búzios me convidou na praia para ir naquele local à noite. Resolvi aparecer lá com a minha galera. Só que quando eu estava entrando, um segurança me barrou e disse: ‘Você não pode entrar porque o Renato já está lá dentro’", contou o ex-futebolista e agora treinador, em entrevista para o site “Globoesporte”, em 2011.

Mas, será tudo verdade?

É necessário sempre ter cuidado com as histórias de Carlos Kaiser. Nas diferentes entrevistas que deu ao longo dos anos, é comum encontrar contradições. Além disso, simples levantamentos de informações colocam em xeque as anedotas.

Diz, por exemplo, que a briga no Bangu ocorreu em um jogo diante do Coritiba. Durante toda a década de 80, as duas equipas enfrentaram-se cinco vezes, e em apenas numa é que o Coritiba abriu vantagem de dois golos, na Libertadores de 1986. O problema é que o jogo foi no Paraná, e não em Bangu, como conta Kaiser.

Além disso, a história afirma que o treinador do jogo era Moisés, técnico do clube carioca entre 1983 e 1986 e responsável pela contratação do malandro. Porém, o amigo de Kaiser já havia saído da equipa neste jogo; esta foi comandada por Paulo César Carpegiani e não há relato de qualquer transtorno ou expulsão no duelo.

Sobre a passagem pela França, Kaiser tem fotos guardadas com a camisola da equipa e uma carteira profissional da época de 1987/1988. Porém, a revista inglesa “Four Four Two” entrou em contacto com dirigentes do Gazélec e ninguém se lembra dele. Havia um brasileiro no elenco, Fabio Barros, que admitiu ser amigo do golpista e tê-lo indicado para o clube.

Por jogar em muitas equipas de pouco prestígio e numa era de muitos amigáveis extra-oficiais, os casos beneficiam do relato oral e por isso do argumento de falibilidade da memória. Ele guarda reportagens feitas na época sobre sua carreira, porém admite, que muitas vezes se aproveitava da amizade com os repórteres para contar histórias e assim ter mais uma forma de enganar os clubes.

“Eu não consigo até hoje dizer quais histórias são reais e quais são falsas. Há vários casos no filme em que pensamos que a história era falsa e após outras entrevistas pensamos que são verdadeiras. No final, achamos que a ambiguidade da história era tão fantástica que preferimos manter assim no documentário. Além disso, não conseguimos descobrir tudo apesar de três anos de pesquisa”, afirma o realizador Louis Myles.

A prova de que o golpista realmente passou por clubes cariocas está nos relatos de outros futebolistas. Além de Renato Gaúcho, os campeões mundiais Bebeto e o falecido Carlos Alberto Torres conversaram com o jornalista. Os relatos são sempre com muitos risos e carinho.

“Foi o caso com quase todos que entrevistamos. Mesmo que queria contradizê-lo, amava-o. Não podes fingir o carinho que as pessoas têm por ele”, conta o britânico.

A vida de golpes de Carlos Henrique Raposo acabou no início dos anos 90. Hoje, aos 55 anos, vive como personal trainer – exclusivamente para mulheres –, no Rio de Janeiro. Durante anos evitou os holofotes, mas quando sua história foi recuperada, no começo da década, não escondeu a fama de golpista. Não se arrepende. Na sua visão, era o que os dirigentes mereciam por enganar atletas em um futebol notório por atrasar os pagamentos aos futebolistas.

“O Rio dos anos 80 era uma verdadeira cultura. Era sobre festas, praia e futebol. Tudo era mais relaxado e o jogo menos profissional. Era como um mundo de faz de conta em que apenas assim um personagem como este pode existir. Não acontecerá nunca mais, seja em escala ou duração”, reflete Louis Myles.