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O sorriso de Santi Cazorla

O talentoso e ambidestro espanhol que perdeu oito centímetros de tendão de Aquiles, teve de transplantar pele do antebraço para o tornozelo e esteve quase dois anos sem aparecer num campo de futebol, agora sim, está mesmo de volta. Cumprida a pré-época de teste com o Villarreal, o clube anunciou que assinou um contrato com Santi Cazorla, a quem um médico chegou a dizer que deveria contentar-se se, algum dia, voltasse a caminhar ao lado do filho

Diogo Pombo

NurPhoto

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Na mesma medida em que a medicina não é uma ciência exata, as palavras de um médico são, por convenção, quer carregue um aval negativo ou positivo, das mais sentenciadoras que uma pessoa pode ouvir.

- "O médico disse para me dar como satisfeito se voltasse a caminhar pelo jardim com o meu filho."

Santi Cazorla é um futebolista e faz cerca de dois anos escutou estas palavras, em Inglaterra, de um dos médicos que o operara ao tendão de Aquiles da perna direita, o mais forte dos tendões do corpo humano, capaz de suportar cargas multiplicadoras do peso do corpo em que esteja, mas que já mal deixava o espanhol dar dois passos sem dores. Em novembro de 2017, o jogador era um retalhado de cirurgias, uma atrás da outra a não lhe permitir, sequer, pensar em futebol.

Porque desde o momento em que Cazorla jogava pela Espanha, lhe tocaram no tornozelo e uma fissura o obrigou a pedir que o tirassem do campo, em setembro de 2013, ele sentiu mais as maleitas do corpo do que os toque que dava numa bola. Daí até dezembro de 2015, quando rompeu um ligamento num dos joelhos, suportava apenas as primeiras partes de qualquer jogo, sucumbindo, sempre, às dores aumentava ao resfriar dos 15 minutos de intervalo.

As injeções e os medicamentos aguentaram-no, tenuemente, até essa lesão. O joelho deitou-se na mesa de operações, os tratamentos curaram-no, mas, com o tempo, aquele tendão de Aquiles deteriorava-se com o tempo e o uso, acumulando o desgaste que se tornou insuportável em outubro de 2016, última data em que Santi Cazorla, um conquistador de dois Campeonatos da Europa pela seleção espanhola, foi avistado a jogar futebol pelo Arsenal, então na Liga dos Campeões.

Contaram-se 636 dias.

São quase dois anos que o espanhol preencheu com oito cirurgias a um tendão dilacerado por infeções, bactérias e cicatrizes suturadas que sempre reabriam. As feridas não saravam. Nunca jogou uma partida oficial. Teve que retirar um pedaço de pele do antebraço - uma parte da tatuagem do nome da filha - para o colocar no tornozelo, sobre o tendão. Chegou a perdeu oito centímetros de tecido muscular. Pensar em voltar ao futebol parecia um otimismo proibido, como chegou a confessar, em entrevista à "Marca".

Porém, contados esses 636 dias, Santi Cazorla regressou, mesmo, aos relvados, quando em julho apareceu num encontro particular com o Villarreal, clube onde se fez jogador e que o desafiou a fazer a pré-época, em modo experimental.

Findo mais de um mês de sessões de treino na relva e no ginásio, e da presença em vários outros amigáveis que se seguiram, o futebolista e o clube terão acertado as agulhas para, aos 33 anos, dar uma oportunidade a quem achou não mais ser possível ter uma. "É verdade que só penso no presente, em livrar-me das dores, em estar o melhor possível. Desfruto do 'agora', do voltar a sentir-me futebolista. Ainda há muito trabalho pela frente", disse, há semanas, quando voltou a jogar.

Esta segunda-feira, mesmo não confirmando o que os jornais espanhóis dão como garantido, o Villarreal anunciou para quinta-feira uma "apresentação estelar" de "uma magia que regressa".

Ou, parafraseando, de um espanhol pequeno em estatura e engenhoso com os pés, com 77 partidas feitas pela seleção espanhola, que no auge da forma foi dos melhores jogadores a passear-se pelos centros dos campos. E Santi Cazorla voltará, de vez, a fazer algo que lhe era tão característico, fosse dentro ou fora de um relvado: a sorrir.