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A ‘10’: a história de uma camisola que cruza Messi, Maradona e Pelé

A federação argentina retirou o n.º 10 enquanto Messi estiver ausente. César Luis Menotti, campeão do mundo em 1978, acha mal e revela a transferência da camisola 10 de Kempes para Diego em 1982

Hugo Tavares da Silva

Mark Leech/Offside/Getty Images

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Compreender os argentinos até é fácil. Basta aceitar que há coisas intocáveis, sagradas. Uma delas é o asado, que reúne amigos à volta de um grelhador, carnes que parecem mentira e um belo vinho. Outra é o mate: andam sempre com o seu saquinho com as ervas e o termo com água quente, para beberem aquela mistura amarga em todo o lado. Outra, mais importante, é o futebol.

Esta gente com um castelhano mais lento e arrastado só está bem a falar e a pensar em futebol. E neste desporto, a seleção funciona como o churrasco, o asado: estão todos do mesmo lado.

Por isso, dentro desta história sagrada há gavetas sagradas. Maradona e a camisola 10 são as principais. E aqui voltamos sempre, qual conto de embalar que se reconta ad eternum.

A federação de futebol (AFA) daquele país decidiu, neste pós-Mundial desanimador, retirar a camisola 10 enquanto Lionel Messi estiver ausente (por opção do futebolista). Ninguém vestiu a camiseta divina, que pesa uma tonelada e guarda na lembrança os truques de Kempes, Diego, Aimar e Riquelme, contra Guatemala e Colômbia. A camisola com que todos os miúdos sonham jogar está fora do alcance.

César Luis Menotti, ex-selecionador argentino, discorda.

Mirrorpix/Getty Images

“Não me parece bem que se guarde o 10 para Messi e não creio que lhe interesse muito. Para mim, ele vai voltar, mas não é preciso trazê-lo”, disse ao Olé Menotti, campeão do mundo no Argentina-78, desincentivando aquela forma de pressão.

Menotti, bastante crítico das decisões e rumo tomado pela AFA, revelou depois uma história nova, que, pois claro, envolve o fascínio pela camisola 10.

O Mundial

Em 1978, a Argentina jogou o Campeonato do Mundo em casa numa altura em que se vivia a ditadura de Jorge Videla. Mario Kempes, um avançado letal, era o dez. Os argentinos bateram na final a Holanda (3-1), finalista em 74 e que não contava com Johan Cruyff. Kempes fez dois golos. Ou seja, Kempes era o maior, o Maradona antes de Maradona.

Diego, um craque que jogava no Argentinos Juniors, foi um dos três nomes que saltaram dos 25 pré-convocados; mas acabou por ficar em casa.

Quando soube, o rapaz de 17 anos chorou desalmadamente junto a uma árvore, testemunhou um jornalista da revista “El Gráfico”, que o consolou e lhe magicou um futuro que estava por vir.

“Como vou dizer ao meu pai?”, perguntava, garantindo que nunca perdoaria Menotti. Mas perdoou. Juntos foram campeões do mundo de sub-20 um ano depois, no Japão, e voltaram a estar juntos no Barcelona e no Campeonato do Mundo em Espanha, em 1982.

Peter Robinson - EMPICS/Getty Images

E foi aí que o futuro “D10S” teve de ganhar coragem para pedir um favor especial a Kempes, o goleador (seis golos) e melhor jogador do Mundial anterior.

“O Diego falava e perguntava-me o que fazer, até que pediu a camisola 10 ao Kempes, que não teve problema nenhum [em dar-lha]”, conta Menotti. “O Diego queria-a tanto pelo seu amor a Pelé. A camisola mais famosa do mundo era a 10 de Pelé.”

Os campeões do mundo ficaram-se pela segunda fase de grupos, derrotados pela cínica Itália de Paolo Rossi e pelo mágico e despreocupado Brasil de Telê Santana. Maradona afeiçoou-se ao número 10, Kempes usou o 11.

Quatro anos depois, no México… Bom, já sabemos todos a história. Resumindo: Maradona, número 10, levou às costas a Argentina para o segundo e último Campeonato do Mundo da sua história. E voltaria a usar a 10, aquela que ninguém pode usar agora, em 1990 e 1994.