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O Jardim de Leonardo que secou no Mónaco

Leonardo Jardim foi despedido do AS Monaco e deixa um campeonato francês ganho nas barbas do magnata PSG, uma meia-final da Liga dos Campeões e muitos miúdos tornados craques e vendidos por milhões.O técnico sai quando tinha apenas uma vitória em 12 jogos, à quinta temporada no clube. Esta é a breve história de como a liga francesa perdeu um treinador português

Diogo Pombo

LOIC VENANCE

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Quando chegou, a vista que tinha para o quintal que lhe deram era verdejante, crescia a olhos vistos e esse potencial era gigante, pelo afinco no cultivo que merecia dos donos da terra. É verdade que a maior, mais vistosa e contagiante colheita que lá tinha, chamada Radamel Falcao, foi emprestada pouco tempo depois de ele lá chegar, mas as que lá ficaram, além de muito boas, ainda eram, sobretudo, cuidadas com milhões de atenção.

Leonardo Jardim tinha muito em mãos quando, em 2014, chegou ao Mónaco para treinar o clube que, para fazer crescer o seu jardim, cedera às mesmas evidências a que o Paris Saint-Germain já tinha cedido - o investimento de um magnata estrangeiro, que virasse proprietário a injetar milhões de euros no clube para fazer florescer a equipa de futebol com jogadores que, de outra forma, muito dificilmente conseguiria plantar no clube.

Mas, época a época, essa cedência foi-se tornando menor. Os orçamentos foram decaíndo, tendência que se alastrou às contratações de futebolistas feitos por troca pela aposta em jovens projetos de jogadores, miúdos em quem se confiavam na promessa de, mais cedo do que tarde, renderem e darem nas vistas para serem vendidos pelas somas de dinheiro que se queriam ver a entrar nas contas do clube, e não a saírem. Uma tendência que atingiu o cume esta temporada, a quinta do treinador português no AS Monaco.

Ao fim de três meses, o clube do principado despediu Leonardo Jardim, ao fim de apenas uma vitória em 12 jogos e um 18º lugar no campeonato francês.

Um estado de coisas completamente oposto ao que foram as anteriores épocas. Na primeira, os monegascos aliarem um terceiro lugar na liga francesa aos quartos-de-final. Em 2015/16, outro último lugar do pódio e prestações discretas em tudo quanto era competição a eliminar. Na temporada seguinte, o êxtase de conquistar o campeonato sem contratações milionárias e vistosas, mas nas barbas de quem as faz como modo de vida (PSG), jogando, ao mesmo tempo, espetacularmente em relvados europeus, onde apenas foi parado meias-finais da Liga dos Campeões, pela Juventus.

Foi a temporada que mais e melhor ilustrou a arte de mesclar uns poucos jogadores feitos, donos de mais anos de futebol, com miúdos cujo talento e aptidão tinha mais do que potencial para extravasar um principado pouco interessado por 22 tipos a correrem atrás de uma bola.

Dave Winter

Promissores novatos como Kylian Mbappé, Bernardo Silva, Thomas Lemar, Tiémouné Bakayoko, Benjamin Mendy ou Fabinho, mesclados com as pernas mais rodadas de João Moutinho ou Falcao, uniram-se para darem uma rodagem quase imparável à máquina que Jardim construiu para atacar rápido, verticalmente e com poucos passes, e para ter no contra-ataque o seu momento mais letal. Um treinador português, com dois portugueses na equipa, a serem melhores que toda a gente na época seguinte, e no país, onde Portugal ganhou um Europeu.

Espantaram França e a Europa e a prova de foram as caras vendas que conseguiu realizar com Bernardo e Mendy, ambos para o Manchester City, outro clube que, este milénio, passou a prosperar com plantéis invejáveis na qualidade, desde que se tornou propriedade de um magnata do Abu Dhabi.

Atingido o pico do sucesso, Leonardo Jardim e o AS Monaco ainda lograram um vice-campeonato em França, em 2017/18, já sem Mbappé, o expoente da estratégia de emagrecer os gastos e fazer render a juventude para, idealmente, engordar os ganhos financeiros - e um ser humano com desmesurado jeito para o futebol, vendido para Paris num negócio que fez um adolescente, de 18 anos, valer 180 milhões de euros.

E chegámos à atual temporada, em que mais vendas (Lemar para o Atlético de Madrid, por quase 60 milhões) de jogadores muito bons, contrabalançadas por compras de miúdos que, talvez um dia, o possam vir a ser, deram a Leonardo Jardim o plantel mais desequilibrado, jovem e pouco experimentado que teve. As consequências foram as oito derrotas e os três empates, com apenas uma vitória pelo meio, espalhados por uma dúzia de jogos em que o AS Monaco foi uma sombra moribunda da equipa que fabricava golos sem descanso.

Ao fim de quatro anos e no que era a quinta temporada do português no Mónaco, chegou-se ao fundo do desinvestimento de Dmitry Rybolovlev, o bilionário russo cada vez mais avesso ao que, um dia, quis para o clube do principado. Até esta época, Leonardo Jardim sempre conseguira responder à queda do que, em 2011, começara por ser um projeto magnânimo quando o clube ainda estava na segunda divisão. Hoje, a única estrela sobrevivente dessa era é Radamel Falcao, numa equipa que também tem o português Rony Lopes.

O Jardim de Leonardo secou, quando quase seca parece estar a ideia que tinha levado o treinador até ao Mónaco.