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Esta cidade é suficientemente grande para os dois

O analista e comentador Luís Cristóvão lança o Manchester City - Manchester United (16h30, SportTV) deste domingo. Fala de uma luta de classes, uma luta ideológica e de uma rivalidade entre treinadores com abordagens diametralmente diferentes ao jogo

Luís Cristóvão, analista de futebol

JON SUPER

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Um dia antes de se completarem 137 anos do primeiro dérbi de Manchester, City e United entram em campo para uma disputa que superou o mero interesse local. As duas equipas tornaram-se globais e reforçaram os seus bancos com as duas figuras que maior antagonismo têm provocado na última década do futebol mundial. Este é um texto sobre as origens da acção de duas personagens que não poderiam ser de outra forma, nem poderiam evitar encontrar-se numa cidade que, felizmente para todos nós, é suficientemente grande para os dois. A cidade do futebol.

Combate ideológico, luta de classes e o futuro da arte

2009/10 foi a primeira temporada de confrontos entre os treinadores José Mourinho e Pep Guardiola, sendo que as partidas entre Internazionale e FC Barcelona acabaram por marcar a história da vida dos dois técnicos. Mourinho, em Itália, combatia por uma equipa que estava há muito tempo afastada das vitórias, encontrando no seu jogo calculista e profundamente organizado uma maneira de travar o futebol desenhado através do talento de uma série de jovens saídos da Academia de La Masia.

A ida de José Mourinho para Madrid apenas acentuou essa luta que, ao fim de nove anos e 21 encontros entre ambos, deu azo a todo o tipo de análises e interpretações. Ainda assim, este tempo e o percurso de cada um dos técnicos tem permitido também o entendimento das suas propostas como caminhos possíveis para a resolução de uma mesma equação, podendo perceber-se as opções de cada um deles a partir dos espaços de onde emergiram.

O problema que o jogo entre Manchester City e Manchester United lança para cima da mesa, na tarde do próximo domingo, já não é, no entanto, nem ideológico, nem de classe. Pep Guardiola ultrapassou as limitações da sua simbologia nacionalista catalã a partir de uma perspectivação histórica do jogo, algo que foi profundamente desenvolvido na sua passagem por Munique. José Mourinho perdeu o chão da sua luta de classes ao assinar pelo Real Madrid, passando a ser um técnico de equipas poderosas que convivem muito pior com o discurso provocador e reivindicativo do técnico.

Em cima da mesa está, assim, a questão do futuro da arte. Mas quem a discute são dois homens e duas equipas diametralmente diferentes, pouco preocupadas com a formulação filosófica da sua ação prática. O Manchester City é um acontecimento cultural, com lugar reservado na história, que se dedica a vencer uma Liga dos Campeões que tem escapado a Guardiola desde que saiu de Barcelona. O Manchester United é um clube à procura de uma identidade que foi sempre reforçada através das vitórias épicas. Nem um, nem outro poderão atingir os seus objetivos finais este domingo. Mas não é de objetivos finais que se trata num jogo da 11ª jornada do campeonato.

Dá-me um ideal, um ideal social

Gonzalo Arroyo Moreno

A escola dos treinadores portugueses viveu demasiados anos sob o mito dos “professores”. Nos anos 80, esse epíteto parecia querer aproximar os especialistas do futebol aos “doutores” que invadiam a boca de uma sociedade que dava os primeiros passos rumo à ideia de ser europeia. Não seria estranho, portanto, que os treinadores portugueses que davam cartas a nível internacional saíssem do meio académico. Artur Jorge, o jogador sindicalista transformado académico do jogo debaixo de um bigode épico, Carlos Queiroz, o homem que revolucionou o entendimento do processo de treino e a mentalidade do futebol português a partir do Vale do Jamor.

A geração dos professores havia crescido contra uma ideia de treinador, provocador e marialva, que havia sido a norma anterior dos bancos do futebol nacional. José Maria Pedroto, expoente máximo da esperteza prática lusa no campo do futebol, acima de todos, mas uma geração que o pequeno José Mário conheceu bem, dado que o seu pai, Mourinho Félix, foi um desses técnicos que calcorreou o país em busca do Santo Graal dos resultados.

O José Mourinho que conhecemos é filho desta conjugação histórica de perfis de treinadores portugueses. Quando se fala do “treinador português”, hoje, não se pode falar noutro melhor exemplo do que Mourinho. Não pelos títulos, nem pelo longo sucesso da sua carreira. Mas sim por ser nele que se estabelece a síntese perfeita de um agente lúcido e provocador a partir do discurso e de uma estratégia comunicacional, com a do académico dedicado que aperfeiçoou a sua herança através de um conhecimento refinado da mais recente investigação da sua indústria.

José Mourinho é filho de uma luta de classes que entrou na faculdade e encontrou o sucesso na emigração. Também por isso, o seu jogo se estabelece a partir dessa busca do ato heróico que subsiste na memória através da conquista. O lance que define o jogo, o resultado. O processo foi-se refinando em equipas cujo contexto social se elaborava contra gigantes mais poderosos. Futebol Clube do Porto, Chelsea e Internazionale deram-lhe, nos anos de maior glória da sua carreira, o cenário para se fazer herói dos desfavorecidos. Foi quando se decidiu a entrar no restrito clube dos poderosos, chegando a Madrid, que se começou a colocar em causa a norma da sua atuação.

Eu não sou eu, nem sou o outro

Jasper Juinen

Aquilo que José Mourinho encontrou em Manchester foi um clube órfão de Alex Ferguson. Nem David Moyes, nem Louis Van Gaal haviam sido capazes de dar continuidade a um projeto de décadas baseado no ego do escocês. A opção pelo técnico português, de certa maneira, tentava reproduzir o efeito Ferguson trinta anos depois. Mas o mundo mudou.

Empurrado para a Liga Europa, que acabaria por vencer, José Mourinho percebeu rapidamente que o muito dinheiro que o seu clube poderia investir em transferências não era dinheiro suficiente para criar exceção numa Premier League onde todos os preços estão inflacionados. As suas experiências recentes em Madrid e no Chelsea também já lhe tinham demonstrado uma outra realidade. O rigor baseado na influência dominante dentro do balneário já não lhe era permitido pelos seus jogadores.

Existe, no futebol do Manchester United, uma larga cicatriz que se torna visível para quem acompanha, desde o início, a carreira de José Mourinho. Essa cicatriz desenvolve-se na distância que se estabeleceu entre técnico e jogadores. Quando, na antevisão da partida frente à Juventus, José Mourinho e Paul Pogba se demonstram de acordo em assumir que têm uma relação “normal”, estamos já muito distantes da maneira como Maniche, Marco Materazzi ou Didier Drogba olhavam para o português.

No futebol de hoje, Mourinho deixou de ser herói. Mesmo que a sua equipa continue a apresentar uma média de posse de bola acima dos 50% na Premier League. Mesmo que seja a segunda equipa com mais remates enquadrados na prova. Mesmo que tenha conseguido impor a primeira derrota da temporada à Juventus, em Turim. A mão do técnico não aparece na sua equipa porque o seu discurso se dessintonizou dos lugares onde trabalha. O que não significa que, a cada vitória, não lhe seja permitido voltar a aparecer como aquele que desafia o estabelecido. Mas, por agora, o estabelecido é também o mundo de ele faz parte.

A universalização do símbolo nacionalista

Guardiola a discursar pelo referendo catalão

Guardiola a discursar pelo referendo catalão

Robert Marquardt

A imagem de Pep Guardiola como símbolo do nacionalismo catalão foi, desde cedo, alimentada por uma dedicação extrema à globalização da causa através do futebol. Enquanto jogador, foi um médio dotado de uma inteligência ímpar no terreno de jogo, ao mesmo tempo que conseguia fazer impor os seus princípios ideológicos pela ação. Ao mesmo tempo que representava a seleção espanhola sem qualquer celeuma, desenvolvia a possibilidade de um intelecto no jogo de futebol que bebeu muito de uma das suas grandes influências, o holandês Johan Cruyff. Mas, ao espírito livre e individualista do seu antigo técnico, Guardiola quis sempre acrescentar um cunho próprio que, a determinado momento, se confundiu com o clube de Barcelona e com toda a região que este representa.

Partindo em busca de conhecimento, em Itália e no México, quando ainda era jogador, Pep Guardiola orientou a equipa B do FC Barcelona e foi promovido por Joan Laporta, o presidente mais independentista da história recente do clube. Ao treinador juntou-se uma geração única de talentos formados na academia de La Masia, formalizando-se em equipa de futebol um pensamento de coletividade e genialidade preconizado pelos adeptos da exceção catalã. Mas, para Pep Guardiola, Barcelona não é suficiente e, ao contrário de Cruyff, é no campo de futebol que continua a alimentar as suas experimentações, por sentir que o coletivo não tem limites.

Munique e Manchester, para além das inúmeras viagens, conversas e encontros que estabeleceu, ao longo dos anos, com outros treinadores, desportistas, pensadores, cientistas e inovadores, permitiram a universalização daquele que começou como um símbolo nacionalista. A imparável vontade de se colocar à prova permitiu-lhe uma viagem pela história do futebol, cuja passagem pelo Bayern e as inúmeras experiências ali desenvolvidas serão o melhor testemunho. Para Pep Guardiola, a vitória no jogo de futebol é uma consequência de um trabalho bem feito, mas não o objetivo final. Daí que o facto de nunca ter voltado a conquistar uma Liga dos Campeões desde que saiu do Barcelona não tenha impedido de continuar o mito, através daquilo que apresenta dentro do campo.

O gosto refinado do connaisseur

Alex Livesey

O Manchester City não se limitou a contratar Pep Guardiola para seu treinador a partir do verão de 2016. Pelo contrário. O Manchester City tem importado, passo a passo, a estrutura do FC Barcelona, para a sua administração, para a sua academia, para a coordenação de todo o futebol. A chegada do técnico foi o último passo de um projeto de implementação de uma realidade alternativa ao que é o processo do futebol inglês, o que acaba por ser uma metáfora daquilo que a Premier League acabou por se transformar.

Por isso mesmo, quando a equipa do Manchester City impõe um modelo de jogo que se diferencia de boa parte da sua concorrência, não existem pedras na engrenagem. Não se trata de conseguir fazer algo de diferente no futebol inglês. Trata-se de criar uma coisa radicalmente nova no lado azul da cidade de Manchester. E se os títulos internacionais, objetivo último do dinheiro qatari que se dedica a inventar clubes depois de ter inventado a geografia do seu próprio país, ainda não chegaram, o tempo joga, definitivamente, a seu favor.

No presente momento, o Manchester City ainda não perdeu nenhum encontro na Premier League, tendo cedido apenas dois empates, fora de casa, perante Liverpool e Wolverhampton. É a equipa com melhor média de posse de bola, com mais remates realizados e mais remates enquadrados, com mais dribles realizados pelos seus jogadores. Por outro lado, é a equipa que menos duelos aéreos disputa e a que menos remates permite aos seus adversários na prova. Junte-se-lhe, ainda, um dos melhores marcadores, Kun Aguero, e os dois jogadores com mais assistências para golo, Benjamin Mendy e Raheem Sterling.

Falamos da equipa mais forte do mundo. Porque para além dos números, cria em volta de Bernardo Silva uma florescente rede de relações com e sem bola que a fazem predominar em qualquer contexto do jogo. Também por isso, esta experiência radical abdica de ter os seus heróis. É uma experiência de coletivo levada aos limites da sua existência. É uma humanização de um processo maquinal como é o jogo. Mas, como é desejável para homens como Guardiola, longe de ser infalível. Para que o processo nunca deixe de acreditar que pode ser melhor.

Uma cidade suficientemente grande para os dois

Ao contrário do que cantavam os Sparks, no seu “This town ain’t big enough for the both of us”, aqui ninguém vai ter que abandonar a cidade para sobreviver. Pelo contrário. O encontro entre José Mourinho e Pep Guardiola, primeiro em Espanha, agora em Manchester, serviu bem para entender os limites do jogo e as possibilidades da sua evolução.

Entre as propostas de rigor que cada um preconizava no início das suas carreiras e o seu momento atual, subentende-se que o caminho da evolução pessoal se materializa, tanto na insistência em modelos de origem que se vão forçando à resistência dos territórios onde se implementam, como o experimenta Mourinho, como na diluição da realidade encontrada no poder do conhecimento e da investigação, como o tenta Guardiola, num processo que prefere sempre ver-se como sem limites nem ponto de chegada.

E se, no final das contas, nada disto tem algo que ver com quem poderá ganhar o jogo, é essa a razão pela qual nos encanta o futebol.