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Celta, eis Miguel Cardoso: futebol controlador, sair a jogar curto e as recordações de quando ia “para os copos” em Vigo

A apresentação de Miguel Cardoso como novo treinador do Celta de Vigo foi, em si própria, um espetáculo. O português falou em espanhol, em português e, quando lhe pediram para se expressar em inglês, também fez a gentileza de traduzir o que acabara de dizer. Explicou as coisas possíveis sobre a equipa, os jogadores e o futebol que pretende para eles, entre umas quantas confidências da sua juventude: "Estou a 1 hora de casa. Recordo-me de ser pequeno e vir com os meus pais fazer compras, de atravessar a ponte e a polícia nos parar para vermos o que temos. Lembro-me de vir aqui para os copos, também"

Diogo Pombo

Sebastien Bozon

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Uma espreitadela às redes sociais do Celta de Vigo, entre a noite de segunda e o arranque da tarde desta terça-feira, chegava para encontrar muito boa gente que desconhecia o onde, o como e o quando é que Miguel Cardoso tinha chegado ao Celta de Vigo. E, já agora, tão pouco pareciam compreender a parte do "quem" e do "porquê" de ser este treinador português o escolhido para, à 12.ª jornada, passar a mandar no seu 14.º classificado.

O porquê faz o quem, o que explica a razão pela qual o comum espanhol adepto do Celta e de futebol talvez não tivesse ouvido falar muito de Miguel Cardoso. Como treinador principal, ele tem apenas uma boa e proveitosa época no Rio Ave, deixando-o no quinto lugar do campeonato, equipa que trocou pelo Nantes, onde não sobreviveu à única vitória em oito jogos e a um presidente alérgico à paciência.

Sem Zidane e há muito sem Guardiola, o futebol espanhol conhece outro treinador dono da calvície como mais notória marca visual. Mas, em campo, conhecerá com o tempo estética em que Miguel Cardoso desejará unir os jogadores: um estilo dominador, sempre através da bola, focado na saída curta e apoiada de trás, mas versátil a optar pela opção longa quando tiver que ser, sempre com a intenção de controlar tudo o que acontece e chegar ao outro lado do campo com condições de rematar à baliza.

O português, como em tudo na vida do futebol, terá de convencer os jogadores - que pareceu conhecer bem, enumerando vários - e os adeptos da proposta de jogo que estará a magicar na sua cabeça. Para começar, apresentou-se bem-disposto, conversador, versátil nas respostas e fluente no castelhano ainda com bastantes traços de português.

Na conferência de imprensa da sua apresentação, em Vigo, o treinador garantiu que a hipótese de treinar o Celta “era completamente irrecusável”, entre admissões de estar no ponto alto da carreira e confissões de que é um prazer ter a oportunidade de trabalhar na liga espanhola. Chegou ao ponto de Miguel Cardoso, após um jornalista lhe pediu para responder em inglês, se voluntariar para traduzir as próprias respostas.

O português esteve confiante, relaxado e à vontade, tanto que, com o avolumar das questões, começou a falar sobre a Galiza e Vigo e o quão a terra significa para quem nasceu na Trofa e ainda terá residência lá perto. “Estar em Galiza é como estar quase em casa. Estou a uma hora de casa. Recordo-me de ser pequeno e vir com os meus pais fazer compras, de atravessar a ponte e a polícia nos parar para vermos o que temos. Lembro-me de vir aqui para beber uns copos, também”, revelou, acompanhado por um sorriso.

Terminada a apresentação, lá foi Miguel Cardoso, com um sorriso e já “com tudo planeado” para o primeiro treino à frente do Celta de Vigo. Será bom sinal se tão cedo não perder esse sorriso.

O que significa chegar ao Celta

“Ser treinador do Celta é um privilégio e um orgulho. Mais do que tudo, neste momento não é importante marcar um ponto de chegada, mas, sim, dar importância ao processo. Que sejamos capazes de começar um processo coletivo e que os jogadores o entendam o mais rápido possível. Vamos tentar criar uma equipa competitiva, pois essas são as que ganham mais vezes - e, se ganhas mais vezes, vão-te acontecer coisas melhores, seguramente.”

Estilo de jogo

“Quando se pergunta a um treinador o que ele quer, é importante que ele saiba onde está, qual é a identidade do clube onde está a trabalhar. O Celta tem uma identidade que afirma uma equipa, por isso, há que construir uma equipa afirmativa, que possa controlar, que seja capaz de ser agressiva, ter a bola e ser controladora. Ainda vamos ver como nos vamos organizar em campo. Sabemos onde queremos chegar, mas é um processo gradual. O mais importante é a intenção que colocamos em cada minuto de trabalho.

O Miguel é um treinador que gosta de controlar os jogos através da bola. De ter equipas que saibam o que fazer a cada momento do jogo, que se mantenha sempre organizada e que não seja surpreendida em contra-ataques. Que seja competitiva em todos os momentos, com capacidade de ganhar duelos e jogar o jogo a um ritmo alto. Isso é um ideal, uma intenção.”

Será este o ponto alto na carreira?

“Todos os clubes de alto nível, como o Celta, fazem processos de recrutamento de treinadores com muita profundidade. É normal que falem frequentemente com treinadores. É normal que os técnicos estejam abertos a falar com clubes e que estes falem, pesquisem e estudem a forma de trabalhar. O que está na minha cabeça é pensar no que vou fazer, daqui a um par de horas tenho o primeiro treino, que já planeei. Tenho de pensar que identidade vamos construir e quais os valores que vamos preconizar no balneário.”

A tática e o sistema

“O sistema não é o mais importante no futebol. O sistema é um momento estático, um jogo de xadrez, e o futebol é dinâmico. O importante são as relações que os jogadores são capazes de interpretar para que o sistema ganhe uma dinâmica. A forma como vamos distribuir os jogadores em campo só serve se tirares uma foto no início do jogo. Não vou dizer se vamos jogar sempre em 4-2-3-1, mas vamos jogar algumas vezes.

A ideia do treinador não deve tirar criatividade ou liberdade para os jogadores se expressarem livremente. Quero é que a minha equipa tenha regulação, que haja uma ideia muito clara e que sejamos mais fortes defensivamente. E quando temos a bola, quando a ganharmos e quando tivermos de atacar. Se queres criar uma equipa forte, é crucial que construas valores fortes e uma forte ideia de jogo.

O ideal era ter uma pré-época para poder desenvolver com todos, com tempo, mas a realidade da vida não é essa, portanto, há que dar qualidade ao tempo passado com os jogadores. A capacidade de sair a jogar pelo guarda-redes é a capacidade crescente de fazer chegar a bola ao avançado, nas melhores condições. Há que reconhecer os riscos de sair a jogar curto, mas também o de sair de forma longa.”

O sair a jogar

“Não vejo jogadores no Celta que não queiram jogar, nem guarda-redes sem disponibilidade para o fazer. Se tudo correr normalmente, se o adversário nos der hipótese, vamos tentar sair curto - mas, sempre, sob a condição de a bola chegar à frente para se poder finalizar. Quando a bola está connosco, não está com o adversário. Com bola, quero que a equipa seja valente e capaz. Vamos trabalhar a saída curta e a longa. Se lhes meteres a bola no corpo, qualquer avançado é capaz de a segurar.”

A relação com a imprensa

“A minha relação com a imprensa é muito tranquila, não tenho problemas que me façam perguntas. Não gosto de passar muito tempo com a imprensa, é verdade, mas vou falar com vocês três vezes por semana; na conferência de antevisão, na zona mista e no pós-jogo. Têm à vossa frente um treinador que falará sempre de futebol se me perguntarem sobre futebol concreto. Gosto muito mais que apareça o nome dos meus jogadores à frente do meu. Se tudo estiver a correr bem, o meu nome passa rápido.”