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Showboating: onde começa a provocação e acaba o espetáculo?

Há maravilhas técnicas que jogadores usam para ultrapassarem adversários e, depois, há dribles espalhafatosos que podem não servir, necessariamente, para fintar alguém. É o chamado showboating, pelo qual Raheem Sterling, do Manchester City, foi criticado e até por Pep Guardiola. Muita gente pode achar piada, ainda mais se estiver do lado da equipa que tem o futebolista que o faz, mas quem joga e quem já jogou considera-o “um desrespeito” e uma “provocação” ao adversário. No meio, há uma linha ténue que é difícil de traçar

Diogo Pombo

Nick Potts - PA Images

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Faltam segundos para o jogo acabar. Aliás, a hora já se esticou para lá do que era suposto. O City está confortável na própria casa, ganha por 3-1 ao rival de Manchester e está prestes a culminar a subjugação do United, o maior rival entre os seus adversários, através da bola. É mais uma demonstração de que é possível passar a bola para viver e como essa é a primeira, a segunda e a terceira prioridades assim que ela é tirada da posse dos outros.

O encontro será ganho por quem está a ganhar, nem tempo há para que algo mude; Leroy Sané e Phil Foden sabem-nom aguentam a bola junto a um dos cantos do campo mais afastados da baliza do City com passes curtos e inofensivos. Têm a ajuda de Raheem Sterling, cujos braços parecem sempre encolher-se, arrepiados, por estar a correr descalço sobre água gelada.

E o irrequieto inglês deixa de passar a bola.

Para-a muito perto da linha lateral, tem-na entre os pés e fica imóvel. Há dois jogadores do United à sua frente e Sterling decide passar as pernas à volta da bola umas quatro, cinco vezes, pedaladas que, tecnicamente, para nada servem ali, neste jogo, naquele contexto, com tão pouco tempo restante.

É um malabarismo estático, que é parado assim que Sterling decide fugir um pouco para o lado e Marouane Fellaini o ataca, brusco, cortando a bola para canto. O belga da volumosa afro capilar fartou-se, não tanto quanto Juan Mata, o primeiro a refilar com o inglês do City assim que a bola saiu, apontando-lhe o dedo. Nenhum tão irritado como ficaria Ricardo Rocha, que “não o iria permitir e arriscaria um amarelo ou um vermelho” para “exigir respeito”.

A ousadia malabarista de Raheem Sterling apareceu num dérbi entre dois grandes, contra quem mais é mais apetecível vencer e no momento em que a vitória estava garantida no conforto de dois golos. Os ingleses chamam-lhe showboating: uma amostra exagerada e desnecessária de truques ou fintas e, por isso, com grande potencial para irritar quem joga na outra equipa.

Ricardo Rocha foi defesa. Fez carreira a habituar-se a estar do lado defensivo do um para um, a contrariar tipos técnicos e talentosos para se livrarem de adversários, driblando à volta deles, e chama-lhe “um desrespeito” e “um sinal de gozo” de quem “normalmente está a ganhar”. Ele jogou no Tottenham e no Portsmouth ingleses, mas nunca apanhou um adversário a brincar com o respeito - e com a sorte, porque o ex-internacional português, provavelmente, seria homem para acabar com a brincadeira.

Juan Mata apenas apontou o dedo, refilou, contrariou Sterling com palavras. Pep Guardiola pareceu fazer o mesmo, no fim, dizendo-lhe algumas palavras no relvado inaudíveis para nós, que o ouvimos falar depois, na conferência de imprensa, quase confirmando a mensagem que terá passado ao jogador inglês: “Ele fez alguns movimentos com as pernas, podemos evitá-los. Mas é jovem e vai melhorar”.

Melhorar, exatamente, em quê?

No respeito, talvez. É a questão a que António Xavier resume este tipo de fintas de utilidade quase nula. O português, extremo à semelhança de Sterling, vê as pedaladas do inglês num jogo já no final, em que estava a ganhar, como “pura provocação” ao adversário. “É uma falta de respeito. Já custa uma pessoa estar a perder, com isto é de perder a cabeça”, resume o jogador do Tondela, para quem é preciso ter “muito controlo emocional”.

Manchester City FC

O português, que acumula 200 jogos na primeira liga, nunca fez, ou teve alguém da mesma equipa, a fazer “fintas sem qualquer tipo de objetividade”. Diz que “o chamará à razão” caso algum dia aconteça, porque estes dribles mais artificiais do que concretos, mais fúteis do que úteis, podem originar “confusão desnecessariamente” ou “uma falta mais grave”. Há gente que se pode magoar.

Então porque o fazem jogadores e, provavelmente, continuarão a fazer?

Pela mesma razão que torna o showboating criticável - os adversários não gostam. Será essa a principal razão para os esporádicos atrevidos pedalarem sobre a bola, picarem-na sobre a cabeça de alguém e multiplicarem simulação de vai-não-vai que não sirve, precisamente, para atacar a baliza ou a área, mas para auto-recriação.

Ou para gozo, ou provocação ou vingança por algo falado e sussurrado, Porque nós, que não jogamos e apenas assistimos no estádio, ou pela televisão, não ouvimos o que é dito no campo. Não nos apercebemos de eventuais bocas, picardias e piadas malfeitoras que, por vezes, os jogadores trocam. Fazem parte do futebol e são de quem está no relvado a jogar. Mas a vontade de sabermos o que se diz enquanto se joga banalizou as mãos a taparem a cara, fez isso também fazer parte do futebol. Quisemos ficar a saber de tudo e a curiosidade criou programas televisivos que decifram lábios.

Xavier Laine

Podem ser as coisas que não ouvimos, a vontade em provocar ou, pronto, o simples gosto por jogar desta forma, que até levaram “Cristiano fazer isto, num jogo do United”, como lembrou Ricardo Rocha. Ou Neymar, que “tinha muito este vício”, recordou Xavier, falhando talvez no tempo verbal. Nani também o chegou a fazer, nos tempos de Manchester, quando ganhava ao Arsenal por 4-0.

Adeptos, jogadores e treinadores vão criticar ou gostar conforme o lado em que estiverem. Mas, em 2015, um antigo árbitro internacional sul-africano defendeu que o showboating deveria valer um cartão amarelo para quem o tentasse. “Pretende humilhar e levar o jogo para o descrédito. É uma conduta anti-desportiva. Podes pisar a bola, brincar com ela, passá-la por cima da cabeça do adversário desde que seja para evadir um adversário”, argumentou Jerome Damon.

Por enquanto, as regras têm um enorme buraco negro onde se lê que “um(a) jogador(a) deve ser admoestado(a) se agir de uma maneira que mostre uma falta de respeito pelo jogo”.

E é muito mais fácil de despistar o porquê de assim ser, do que descobrir onde se deve traçar a ténue fronteira entre a falta de respeito e a forma abusadoramente técnica de jogar futebol, como Xavier resumiu: “O que para mim poderá ser provocação, para ti pode ser considerado um espetáculo e achares piada”.