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Presença de Bolsonaro na festa do título brasileiro gera revolta: "Convida-se um racista xenófobo, desrespeitando a história imigrante"

Um grupo de adeptos do Palmeiras enviou uma carta de repúdio ao presidente do clube, que foi fundado por imigrantes italianos e que lutou contra o fascismo, por ter permitido que Jair Bolsonaro se "intrometesse" na festa do título: "Num jogo para comemorarmos a conquista de mais um título nacional, convida-se um racista xenófobo, desrespeitando a história imigrante palmeirense”

Carol Fontes

Jair Bolsonaro a festejar com os jogadores do Palmeiras

NELSON ALMEIDA

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Campeão brasileiro de forma antecipada, o Palmeiras festejou o título no último domingo com uma presença ilustre no Allianz Parque, em São Paulo: Jair Bolsonaro. O presidente eleito assistiu à vitória (3-2) sobre o despromovido Bahia no camarote, entregou a taça e comemorou ao lado de jogadores e do técnico Luiz Felipe Scolari, no centro do relvado. Inconformados com a presença do político de extrema-direita, muitas vezes acusado de fascismo, adeptos palmeirenses assinaram uma carta de repúdio destinada ao presidente da equipa, Maurício Galiotte.

Luiz Gonzaga Beluzzo, economista e ex-presidente do Palmeiras, a actriz e apresentadora Diana Bouth, o cineasta Luiz Villaça e o neurocientista Miguel Nicolelis foram alguns dos nomes que assinaram a missiva. A carta faz uma crítica à violência policial contra a população nos arredores do estádio, por exemplo.

O brilho da conquista acabou por ser ofuscado pela presença do Bolsonaro. O candidato eleito do PSL usou o palanque para promover a sua imagem e houve até jogadores que se recusaram a cumprimentá-lo.

“No domingo, dois políticos sequestraram nosso momento mais especial. O momento mais importante da sua gestão, Presidente, foi transformado em um palanque político (com direito a lema e número de candidato), gerando uma imensa onda de insatisfação em parte substancial de nossa torcida. A presença de políticos, estranhos à nossa história e a todos os esforços comuns de torcedores e jogadores em busca do título, provocou nos palmeirenses que assinam esta carta e em muitos outros torcedores o mais profundo incómodo", diz um trecho da carta (que pode ler na íntegra no final deste texto).

NELSON ALMEIDA

A guerra nas redes sociais entre apoiantes e críticos ganhou um novo capítulo, e alguns "torcedores" criaram grupos de discussão de resgate à memória e história do próprio clube, que lutou contra o fascismo e o preconceito durante décadas. No Facebook, por exemplo, um grupo baptizado de “Palmeiras Antifascista” também divulgou um comunicado de repulsa ao ocorrido.

Houve até a produção de camisolas customizadas do alviverde contra a presença político que defende a tortura e o retorno da ditadura militar no país. Fundado por operários imigrantes italianos, inicialmente chamado de Palestra Itália, o Palmeiras tem uma história de luta contra o fascismo.

Em comunicado, o “Palmeiras Antifascista” demonstrou o seu descontentamento perante a relação com Bolsonaro. “Em 1914 fomos fundados por operários imigrantes, o Palestra Itália é filho da classe trabalhadora, foi perseguido em 1942, teve que combater o fascismo internamente e externamente, virou Palmeiras e nasceu campeão. Do que adianta uma história dessa, se a própria directoria do clube a ignora, quando Felipe Melo dedicou um golo ao presidente eleito, a SEP soltou uma nota frouxa, para dizer o mínimo, mas clara: não se deve utilizar a imagem do Palmeiras para este tipo de manifestação. Agora, com a taça nas mãos, a directoria convida o Presidente eleito à nossa casa, contraditoriamente. Num jogo para comemorarmos a conquista de mais um título nacional, convida-se um racista xenófobo, desrespeitando a história imigrante palmeirense”, diz o comunicado.

“Este oportunista que já se vestiu de diversas camisas - Vasco, Flamengo, Sport, entre outras -, quando lhe pareceu conveniente, não merece um lugar em nosso estádio. A Sociedade Esportiva Palmeiras é muito maior que meia dúzia de engravatados na direcção, somos 18 milhões, que tem o espírito e o amor daqueles que fundaram em 1914, somos filhos da classe trabalhadora, somos antifascistas, somos PALMEIRAS! Nenhum director vai apagar nossa história, resistimos ao fascismo em 1942, resistiremos hoje também!”, completou.

Para Tiago Leme, adepto do Palmeiras contactado pela Tribuna Expresso, nenhum presidente deveria estar no relvado num momento único e especial para a equipa. O protagonismo deveria ser do Palmeiras e não de um político, explicou. "Independentemente de quem seja o presidente do país, não achei certo ele estar no meio da festa dos jogadores no gramado, erguendo a taça e comemorando junto. O momento ali é de uma festa desportiva, de quem participou da campanha. Não acho certo misturar com política neste momento", disse, compreendo alguma da revolta gerada.

"Não foi bom para o próprio Palmeiras. As capas dos principais jornais e sites do país destacaram a presença do presidente na festa do título, ao invés de destacar algum jogador pela conquista, por exemplo", acrescentou.

Se nas ruas o clima era de protesto, com cartazes espalhados em postes e mensagens a repudiar Bolsonaro, com dura repressão da Polícia Militar com tiros de balas de borracha e gás lacrimogéneo, no estádio, os apoiadores do político eram maioria. As vaias dos poucos críticos ali foram logo silenciadas por eleitores do candidato de extrema-direita.

Nas redes sociais, Bolsonaro agradeceu o apoio no estádio. Torcedores de punho fechado bradavam “Mito! Mito!”, como o político é conhecido entre seus adeptos. No fim do jogo, o presidente eleito ainda distribuiu medalhas durante a cerimónia e posou para fotos. “Parabéns ao Palmeiras pelo título brasileiro. O futebol é muito mais que torcer para um time, é um estado de espírito totalmente identificado com o brasileiro. É sempre bacana fazer parte desta festa! Um abraço a todos e obrigado pelo carinho”, escreveu.

A carta aberta dos adeptos do Palmeiras ao Presidente Maurício Galiotte

“Prezado Presidente Maurício Galiotte,

No último dia 2 de dezembro, o Palmeiras orgulhosamente celebrava nosso décimo título brasileiro. Era um dia apenas de celebrações, mas dois lamentáveis eventos levam os palmeirenses que assinam esta carta a expressar nossa profunda indignação e demandar respostas e ações da Sociedade Esportiva Palmeiras.
O primeiro e gravíssimo evento se deu nos arredores do estádio. Como já fartamente denunciado em outras ocasiões, a Polícia Militar novamente agiu com truculência contra crianças, idosos, mulheres e homens que se reuniam pacificamente para celebrar nossa importante conquista. São dezenas de relatos de violência gratuita, desnecessária e desproporcional. Novamente, o torcedor palmeirense foi submetido a ataques com bombas de gás lacrimogêneo, balas de borracha e golpes de cassetetes. Inocentes precisaram ser hospitalizados. Comércios tiveram que baixar suas portas. Gente feliz e pacífica, que aproveitava um raro domingo de tranquilidade e sorriso no rosto, não pôde vivenciar em paz a essência da festa de nosso deca.
Enquanto torcedores de todas as cores e visões políticas sofriam a truculência policial do lado de fora do estádio, o protagonismo de nossa festa foi inexplicavelmente transformado em um palanque político, em um ato que não encontra precedentes na história. Nem Médici, nem Figueiredo, nem Lula, políticos que manifestavam apoio declarado a um (e só um) time, tiveram a liberdade de invadir o momento sagrado de comunhão entre seus clubes e torcidas.
No domingo, dois políticos sequestraram nosso momento mais especial. O momento mais importante da sua gestão, Presidente, foi transformado em um palanque político (com direito a lema e número de candidato), gerando uma imensa onda de insatisfação em parte substancial de nossa torcida. A presença de políticos, estranhos à nossa história e a todos os esforços comuns de torcedores e jogadores em busca do título, provocou nos palmeirenses que assinam esta carta e em muitos outros torcedores o mais profundo incômodo.
O incômodo tem fonte não apenas no histórico de declarações xenofóbicas que desonram nossas tradições, mas também nas diversas e documentadas manifestações racistas, misóginas e homofóbicas, entre outras. O incômodo existe não apenas pelo curvar de nossa instituição ao poder e aos interesses políticos de ocasião, sabe-se lá em troca de quê. O incômodo também deriva do imenso desrespeito a todos aqueles que possuem opiniões distintas daquelas ali prestigiadas, justamente num momento de grave polarização. O incômodo se dá pela total ausência de contribuição daqueles personagens a nossa história, nessa e em todas as outras temporadas.
Consideramos um erro gravíssimo, que danifica nossa história, a presença de políticos de qualquer matiz ideológica em nossa celebração. Consideramos um erro ainda mais grave, a presença de um político sem qualquer ligação histórica com o Palmeiras, e que prega a truculência policial contra o torcedor. Consideramos um ultraje a nossa bonita história a conivência e subserviência ao poder de turno.
Ao longo de todo o espectro das entidades e grupos que assinam este manifesto de repúdio, nas suas vertentes mais radicais ou mais moderadas, este profundo incômodo nos une, em pedidos claros e objetivos dirigidos ao Palmeiras e ao seu atual mandatário.
Exigimos explicações sobre o ocorrido e uma declaração clara e cristalina de que a Sociedade Esportiva Palmeiras não endossa as posições políticas ali representadas, ou quaisquer outras, conforme sua postura apartidária declarada anteriormente. Demandamos o comprometimento da instituição de que atos lamentáveis como este jamais irão se repetir. Explicações e este comprometimento, reforçamos, é o mínimo que se espera como um gesto de respeito ao torcedor que não quer ver o seu time misturado a interesses que lhe são estranhos.
Demandamos que a Sociedade Esportiva Palmeiras repudie aberta e expressamente a truculência usada pelas autoridades e forças policiais contra o torcedor nas ruas que cercam nossa centenária instituição. Armas de verdade foram utilizadas, sem motivo e razão, contra pessoas em paz e festa no último domingo!
Exigimos medidas para reparar os danos causados à imagem da instituição. O Palmeiras deve sempre se posicionar como um clube livre de qualquer preconceito, em respeito aos seus torcedores de todas as crenças e origens. Para que não exista dúvidas, nosso clube, formado e fundado por imigrantes, precisa afirmar de maneira inequívoca sua opção pelo respeito, pela tolerância e pela democracia.
Ser grande, Presidente, é muito mais que ser apenas vencedor. Esperamos de sua administração, e do Palmeiras, gestos condizentes com a grandeza de nossa instituição.
É o que demandamos. Por um Palmeiras para todos. Pelo direito de celebrar nossa paixão em paz. Por um clube que não se curve aos interesses políticos de ocasião.
Convidamos a todos os demais que apoiem nossa reivindicação a assinar esta carta AQUI.
Luiz Gonzaga Belluzzo, ex-presidente e conselheiro do Palmeiras
Fabiano Carrieri, conselheiro do Palmeiras
Felipe Giocondo, conselheiro do Palmeiras
José Guilherme Menani Junior, conselheiro do Palmeiras
Marcos Gama, conselheiro do Palmeiras
Sylvio Mukai, conselheiro do Palmeiras
Adriano Diogo, ex-deputado estadual por São Paulo
Alessandro Buzo, escritor e cineasta
Alysson Rodrigues, jornalista, especialista em mídias digitais e repórter Nosso Palestra
André Capuano, ator
Bia Doxum, rapper
Cris Scabello, Bixiga 70
Cristiano Maronna, presidente do IBCCRIM
Cristiano Tomiossi, ator
Dani Pimenta, Feminine Hi-Fi
Diana Bouth, atriz e apresentadora
Eduardo Roberto, editor da VICE Brasil
Eloi Pietá, ex-prefeito de Guarulhos
Flávio de Campos, docente da Universidade de São Paulo
Fernando Cesarotti, jornalista
Gabriel Amorim, jornalista e repórter do portal Nosso Palestra
Gabriel Santoro, editor
Geraldo Dantas Poderoso, irmão do Cléo Guerreiro
Gilberto Carvalho, ex-ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República
Gustavo Petta, deputado estadual por São Paulo
Joana Monteleone, editora
João Filho, jornalista
José Roberto Manesco, advogado e conselheiro seccional eleito da OAB-SP
Karen Evangelisti, arquiteta
Leandro Iamin, jornalista
Lia Elazari Biserra, cantora e compositora
Lucas Afonso, MC
Luiz Villaça, cineasta
Manuel Boucinhas, ator
Marcelo Airoldi, ator
Marcelo Mendez, jornalista e co-autor do livro Palmeiras, 100 anos de academia
Marcio Boaro, ator e diretor teatral
Marcos Barreto, ex-subprefeito da Sé
Marcus Vinicius Damon, arquiteto e professor
Miguel Herzog, jornalista e escritor
Miguel Nicolelis, neurocientista
Nunzio Briguglio, jornalista
Raphael Evangelista, redator
Renata de Oliveira, produtora e atriz
Ricardo Lombardi, jornalista
Rodrigo Barneschi, jornalista
Roseli Tardelli, jornalista e apresentadora
Simão Pedro, ex-deputado estadual
Tainá Fellipe Shimoda, Turma Chico Leone
Thiago Rocha, jornalista
Valério Arcary, professor universitário
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