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Robinho: quem aprende a andar de bicicleta nunca esquece

O rei da pedaladas à volta está a ter o pôr do sol da carreira, aos 34 anos, na Turquia, onde chegará ao oitavo clube numa carreira que, em tempos, o teve como a próxima grande coisa vinda do Brasil e a mais cara transferência feita no futebol inglês

Diogo Pombo

Jasper Juinen

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Ele faz sempre a mesma coisa, já se sabe. Encara o defesa e olha, que surpresa, as inesperadas pernas a ameaçarem ir para a direita, para a esquerda, para estibordo, logo para bombordo. Uma sucessão que desencadeia o mau que é ter a missão de roubar a bola, ou de não ser ultrapassado, pelo eterno driblador.

Quiçá o nome Robson de Souza tenha diminuído para Robinho devido à forma como afunilou, tantas e repetidas vezes, tanta apetência para inventar truques num só truque: a pedalada.

De moleque causador de euforia no Santos, onde interagiu com Pelé na adolescência, e inflacionou comparações desmesuradas, passou com a mesma figura, delgada e ossuda, para o Real Madrid ainda em fase galática que, aos olhos de um presidente que apenas vê cifrões, julgava estar a contratar o próximo melhor jogador do mundo.

Quando Robinho foi de margem a margem do Atlântico, o maior do planeta era o diminutivo de outro brasileiro. A descontração genial e sorridente de Ronaldinho fazia o Barcelona cair nos amores de quem via futebol e Florentino Pérez quis ter em Madrid o seu equivalente, um potencial Bola de Ouro.

Fatualmente, o rapaz a quem todas as camisola pareciam assentar dois números acima pedalou e fez bicicletas com quase cada bola que recebia, perto da área; maravilhou a audiência, surpreendeu os adversários, enganou dezenas de defesas e ganhou dois campeonatos. Mas, entre 2005 e 2008, só a genialidade tímida de Zidane, que já aparecia mais em fogachos do que com consistência, se aproximou de devolver um melhor futebolista do planeta ao Real Madrid. O francês ficou em segundo lugar em 2006, ano que existiu para ironizar o clube agarrado a um presidente que só vê sucesso nos avançados: teve Bola de Ouro porque contratou o único defesa que ganharia a distinção (Fabio Cannavaro) sem que o clube tivesse algo a ver com isso.

As pedaladas do brasileiro já o fizeram oscilar na última das suas temporadas em Madrid, titular nunca fixo e cumpridor raro de 90 minutos com Fabio Capello, o irredutível italiano cuja disciplina devolveu a liga espanhola ao clube. Robinho fartou-se e saiu para o lado novo-rico de Manchester.

Com o estatuto e a fama de estar ali o número um em potência ainda intactos, fez o City bater o recorde de transferências em Inglaterra. Robinho, individualista na forma de jogar, admitiu, logo, ao que ia: “Deixei o Real Madrid para ser o melhor do Mundo".

Foi a ponta da lança que se começava a aventurar nos tiques milionários, o melhor marcador de uma equipa que terminou em décimo no campeonato e, findo um ano e meio, acabou com a paciência do brasileiro, inadaptado ao frio, à intensidade e à porrada do campeonato mais mediático do mundo.

E voltou à origem.

Em 2010, tinha ele 26 anos, e já estava refugiado na zona de conforto que muitos sul-americanos perseguidos por hype desmedido procuram, quando nos futebóis da Europa, onde têm de jogar para o resto do mundo os levar a sério, não encontram o sucesso que queriam.

ANDREAS SOLARO

O querer e o poder nem sempre caminham juntos e Robinho, feita a reabilitação no Santos, rumou a um lugar que, mesmo que não quisesse tanto, podia ser mais. Esteve três anos e meio no AC Milan, convivendo e jogando numa realidade menos exigente e mais realista. Marcou às dezenas, tornou-se mais seleto nos toques porque olhava para o lado e via Zlatan, Ronaldinho, Seedorf, Nesta, Zambrotta ou Gattuso.

Foi pedalando com mais calma, minguando o arrojo enquanto a idade avançava e as pretensões de ser o melhor em Milão, quanto mais no mundo, se fixavam à terra. O nível de Robinho descia, mas era mais constante. A técnica intacta e anormal ganhava realismo.

Fugiu à decadência anunciada do Milan, após décadas de prosperidade com jogadores fabulosos e fiéis, regressando de novo ao Santos, à beira dos trinta, para se preparar a fazer o oposto ao que lhe acontecera no início da carreira - o craque que começou a jogar acima das possibilidades e foi projetado pelo frenesim, em miúdo, começou a sabotar o seu próprio valor.

De Santos fugiu para a garantir a reforma na China, durante um ano, para voltar novamente ao país e ficar-se por Minas Gerais até se transformar num cisne que se veio despedir, cantando, em lugares europeus que dão menos nas vistas.

Robinho está há dois anos e meio na Turquia, estrela cadente num campeonato onde se paga bem e joga assim-assim, espécie de asilo para nomes feitos que desejam abrandar, sem acabar nos EUA, Médio Oriente ou China.

Mesmo caindo, aos poucos, para longe da luz que sempre iluminou as suas fintas e os seus dribles, Robinho só deixou de interessar à seleção há três anos. Os 102 jogos que somou e a importância que ainda logrou ainda lhe poderão render uma derradeira despedida do Brasil.

Parece, agora, que Robinho deverá trocar o Sivaspor pelo Basaksehir, oitavo clube na sua carreira que lidera o campeonato turco. Há uma semana inventou dois golos contra o Galatasaray e ei-lo, mais massudo e com menos ossos à mostra, a mesma ginga malabarista, a confirmar que quem aprende a andar de bicicleta não mais esquecerá.

O próximo melhor jogador do mundo está na Turquia como esteve no Brasil, em Espanha, ou em Itália, a pedalar eternamente à frente de alguém e a deixá-lo cheio de dúvidas a rodear uma certeza - vai ser ultrapassado para a esquerda, ou para a direita.