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Há qualquer coisa na maneira como a Premier League se move

Luís Cristóvão está apaixonado e esclarecemos de onde lhe vem o amor ardente: trata-se do Manchester City-Liverpool, marcado para as 20h desta quinta-feira

LUÍS CRISTÓVÃO

OLI SCARFF

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Se há uma coisa que diferencia a identidade desportiva europeia da americana é que, na Europa, não parece necessário chegar-se a uma final para viver o lado épico do jogo. Talvez por isso a ideia de um playoff sempre pareceu estranha para quem ama o futebol que se joga com os pés. É uma síndrome que se explica melhor por analogia ciclista. Ninguém precisa de esperar pela derradeira etapa para viver uma Volta à França de forma completa: porquê? Porque a ideia de jornadas sucessivas nos Alpes ou nos Pirenéus já diferencia, de forma marcada e suficiente, os campeões dos que apenas podem sonhar, um ano mais, a ser aspirantes.

A Premier League fornece-nos, mais do que qualquer outro campeonato de futebol, essa mesma ideia de identidade europeia do jogo. Nem sequer foi preciso esperar que a competição inglesa fosse invadida por treinadores e jogadores das mais variadas geografias. A série de jornadas realizadas nas proximidades dos dias de festas natalícias é como que uma mistura de todas as montanhas mais complexas das grandes voltas europeias.

Não se trata de como as ultrapassar, com a tranquilidade de Indurain, a rebeldia de Pantani ou o colosso muscular de um Ulrich. Trata-se, isso sim, de conjugar de forma perfeita músculo e cérebro, numa prova de resistência psicológica só ao alcance dos mais preparados. Há qualquer coisa na maneira como a Premier League se move e o mundo inteiro espera, sentado no sofá, apaixonado e ansioso, o Manchester City - Liverpool, como quem aborda o último quilómetro de uma subida ao Alpe d’Huez.

É um dia perfeito

À quarta tentativa, Jurgen Klopp conseguiu finalmente fazer um mês de dezembro perfeito. Foram sete jogos a contar para a Premier League, mais um decisivo encontro perante o Nápoles em partida da Liga dos Campeões, sempre com os Reds como vencedores. Foi melhor que ganhar, na verdade: quanto mais os seus rivais parecem cair perante as agruras da sucessão de encontros, mais forças acabam os homens de Liverpool por encontrar para conseguir grandes resultados. Dezembro começou com uma vitória pela margem mínima no dérbi de Merseyside, mas logo nessa semana, nos terrenos do Burnley (3-1) e do Bournemouth (4-1), ficou marcada a sede goleadora da equipa.
Depois de nova vitória pela margem mínima no confronto europeu, que acabou por garantir a passagem do Liverpool aos oitavos-de-final da Liga dos Campeões, os Reds dominaram e venceram o último Manchester United de José Mourinho (3-1) e ultrapassaram os Wolves de Nuno Espírito Santo com dois golos sem resposta. Fechando o ano em casa, no Boxing Day ofereceram quatro antiprendas ao Newcastle e, perante o Arsenal, uma goleada por 5-1 estabeleceu o recorde perfeito de oito jogos e oito vitórias nesse mês. Em termos pontuais, isso significou mais seis pontos somados do que os seguintes concorrentes - Chelsea, Tottenham e West Ham somaram cada um 15 pontos, perante os 21 do Liverpool.

No entanto, a chave de ouro desta fase da temporada foi guardada pela Premier League para esta quinta-feira. Seria sempre um grande jogo, um confronto entre o Manchester City e o Liverpool, sendo que tudo ficou ainda mais interessante devido à mudança de comando na liderança da prova. Mais, se o Liverpool fez um mês de dezembro para lembrar, os Citizens bem podem olhar para este último mês como um que prefeririam esquecer.

Viver e deixar morrer

Sete jogos e apenas 12 pontos somados fizeram o Manchester City cair do primeiro lugar de maneira estrondosa. Ao dia de hoje, estão apenas no terceiro lugar, ultrapassados por um Tottenham que entrou em 2019 com uma vitória fácil em Cardiff, olhando para o topo da tabela onde o Liverpool leva sete pontos de distância. Uma derrota caseira pode deitar por terra as aspirações de um novo título inglês, uma vitória relançará para mais tarde a discussão do campeão. Mas Pep Guardiola retira ensinamentos daquilo que viveu no mês de dezembro e entra em janeiro em modo de gestão de danos. Para enfrentar aquele que poderá ser um dos jogos mais complexos que terá pela frente, em termos de preparação, esta temporada.

O Manchester City entrou em dezembro com dois pontos de vantagem sobre o Liverpool e a diferença foi mantida nos dois primeiros encontros do mês, com vitórias perante Bournemouth (3-1) e Watford (2-1). A primeira derrota surgiu na deslocação ao terreno do Chelsea, onde se antevia o jogo da união de estilos entre Pep Guardiola e Maurizio Sarri. No entanto, nesta partida acabou por sobressair a capacidade de viver para o momento da equipa dos Blues, oferecendo mais iniciativa e posse de bola aos Citizens para os bater com dois golos sem resposta. O City perdia o primeiro lugar perante a equipa mais parecida que poderia enfrentar em Inglaterra, vencendo no capítulo do estilo mas sofrendo no resultado. Depois confirmou o primeiro lugar no seu grupo da Liga dos Campeões, com uma vitória por 2-1 frente ao Hoffenheim, e seguiu-se o teste final do mês de dezembro.

O último quilómetro do Alpe d’Huez

O ciclo inicia-se com uma vitória por 3-1 perante o Everton, mas um jogo extra, a contar para os quartos-de-final da Taça da Liga, pode ter sido elemento a levar em linha de conta no que aconteceu a seguir. O City empatou em Leicester, para acabar por ultrapassar a eliminatória no desempate por penáltis, numa prova onde o Liverpool há muito ficou pelo caminho. Avança o calendário para 22 de dezembro, o Manchester City entra a ganhar nesse dia perante ao Crystal Palace, com golo de Gundogan, mas acaba por perder por 2-3. No Boxing Day, a história repete-se: Bernardo Silva é o primeiro a marcar no terreno do Leicester, mas a equipa do City acaba por perder por 1-2. O ano fecha com uma vitória por 3-1 em Southampton, com todos os golos marcados no primeiro tempo e a sensação de que a vitalidade competitiva dos citizens.

Ano novo, vida nova, insistem as mensagens que nos chegam de toda a parte. Jurgen Klopp preferirá manter tudo o que conquistou na abordagem aos últimos encontros do ano de 2018. Uma média superior a três golos marcados por jogo, nove marcadores de golos diferentes, com Roberto Firmino, Mohammed Salah ou mesmo Xherdan Shaqiri a assumirem-se como decisivos na série de jogos que os levaram ao comando. A atuar fora de casa diante do City, e com a larga vantagem pontual que detém, a pressão pode não afetar uma equipa do Liverpool que vive imune a estados de alma. É o entusiasmo natural de Jurgen Klopp a contaminar a forma de jogar da sua equipa, a viver um momento de elevado confiança e inspiração coletiva.

Do lado contrário é inevitável que o Manchester City olhe para esta partida como uma questão vital. Mais do que a sensação de a equipa ter ficado “ligada à máquina” nos últimos encontros, o pior que pode acontecer a qualquer conjunto nesta fase da temporada em Inglaterra é o duvidar de si próprio. Pep Guardiola coloca as coisas de forma simples e direta: por um lado considerando o Liverpool uma das equipas mais fortes da Europa neste momento, por outro encarando a partida como uma final mas sempre sublinhando que falta ainda muito por disputar. No que toca a identidade, quer Citizens quer Reds vivem dias de profundo conhecimento e entendimento do que querem e de como o querem fazer.

Trata-se por isso daquele último quilómetro do Alpe d’Huez, onde cada um luta por si próprio em busca de mais um ou dois segundos de vantagens, neste caso em golos e pontos, e é um jogo ao qual ninguém consegue assistir sentado, levantando-se, suando, ansiando, contando os pormenores de cada pedalada rumo à meta. Faltarão, é certo, muitas outras etapas, mas esta é aquela que nos segura ao ecrã, ao jogo, ao sonho. Há qualquer coisa na maneira como a Premier League se move. Acho que estou apaixonado.