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Para quê mudar quando esta “ainda é a melhor equipa do mundo”?

O líder da Premier League é o Liverpool, mas Jurgen Klopp tinha avisado que o Manchester City “ainda é a melhor equipa do mundo”... e os rapazes de Pep Guardiola responderam com uma vitória sofrida (2-1) que relançou a prova

Mariana Cabral

Shaun Botterill

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O documentário está na Amazon Prime e o trailer está aqui:

Nos oito episódios de "All or nothing" (em português, "Tudo ou nada"), documentário que mostrou a Premier League praticamente perfeita do Manchester City em 2017/18 - recorde de pontos (100), recorde de vitórias (32) e recorde de golos marcados (106) -, deu para ver um pouco de tudo: portas a bater no balneário; palavrões de alegria; palavrões de azia; sorrisos rasgados; caras feias; gritos; cantorias; Pep Guardiola às voltas como um lunático com um transtorno obsessivo-compulsivo que coça a cabeça, bate os pés e distribui beijos e palmadas pelos jogadores; a solidão de Sergio Aguero, afastado do filho que mora na Argentina; o drama familiar de David Silva, depois do nascimento do filho prematuro; a recuperação de Benjamin Mendy, o lateral que parece estar sempre lesionado mas nunca perde a boa disposição; o sapo engolido pelo sogro de Vincent Kompany, adepto ferrenho do Manchester United; e muitas palestras e conversas de gabinete e balneário, antes, durante e depois dos jogos, em vitórias, empates e derrotas.

A simpática câmara da equipa da Amazon só não entrou, ou, melhor dizendo, só não nos mostrou o que se passou num dia - se calhar o que mais gostaríamos de ter visto: 4 de abril de 2018, quando Anfield - e o Liverpool - atropelaram o City com três golos de rajada, na 1ª mão dos quartos de final da Liga dos Campeões.

Se a Premier League foi um sucesso estrondoso, a Liga dos Campeões acabou por ser um fracasso rotundo para o City, muito por culpa de um tipo sorridente que apareceu no Dortmund em 2008, mais ou menos na mesma altura em que um tipo que ainda não era careca subiu para a equipa principal do Barcelona.

Depois dos duelos titânicos com José Mourinho, Guardiola acabou por encontrar uma nova besta negra em Jurgen Klopp, o único treinador que conta mais vitórias do que derrotas frente ao espanhol: sete vitórias para Klopp, três empates para ambos e seis vitórias para Pep - a contar com a desta noite.

OLI SCARFF

Esta noite, em Manchester, ao contrário do que tem sido habitual, a pressão de ganhar estava toda do lado do City. Se, há um mês, a equipa de Guardiola seguia isolada na liderança do que parecia vir a ser uma Premier League bastante aborrecida, a prova deu uma cambalhota inesperada quando o campeão perdeu com o Crystal Palace, em casa (2-3), e, logo a seguir, com o Leicester, fora (2-1) - já depois de também ter perdido frente ao Chelsea, também fora (2-0).

Ou seja, em 20 jogos disputados na Premier League, o City já somou três derrotas (e dois empates), mais do que nos 38 jogos da época passada, quando só perdeu duas vezes (uma vez com o Liverpool, outra com o Manchester United) e empatou quatro.

Mais: nos últimos quatro jogos contra o Liverpool de Klopp, o City de Guardiola não tinha vencido nenhum, ao perder três e empatar um.

Mais ainda: o Liverpool de Klopp era (ainda é) líder da Premier League, com mais sete pontos do que o campeão, numa época em que parece bem mais refinado do que nas anteriores, não só pelo salto qualitativo na baliza com a entrada de Alisson Becker, mas também pela melhor perceção dos timings de pressão desenfreada/controlo mais retraído do bloco.

Foi assim que, antes deste City-Liverpool, a vitória se tornou imperativa para uma equipa em que duas derrotas consecutivas já constituem uma espécie de crise. Estaria na altura de mudar alguma coisa?, perguntaram a Pep. O espanhol encolheu os ombros e repetiu, pela milésima vez, que não: que foi assim que chegou onde chegou, que foi assim que sempre jogou e quis que jogassem e que não havia razão nenhuma para mudar fosse o que fosse.

Do outro lado, Klopp concordou: "Ainda é a melhor equipa do mundo. Nada mudou. Só os pontos".

Em campo, de facto, nada mudou: o City, como sempre, tentou dominar o jogo pela posse da bola, procurando maioritariamente o ataque posicional; o Liverpool, como sempre, procurou fechar o corredor central ao adversário e lançar as flechas do ataque - Mané, Firmino e Salah - nos espaços que ia encontrando, especialmente no momento de transição ofensiva.

Durante grande parte da 1ª parte, o City percebeu por que razão a equipa de Virgil van Dijk (outro salto qualitativo no centro da defesa) só sofreu oito golos em 20 jogos - não só teve muitas dificuldades em criar oportunidades de golo, como ainda teve de ver a bola quase a entrar na baliza de Ederson: Mané enviou-a ao poste (depois de uma jogada deliciosa entre Firmino e Salah) e Stones tirou-a em cima da linha, depois de chutá-la, em desespero, contra Ederson.

Aproveitando a sorte do outro lado do campo, o City respirou (este será dos poucos estádios do mundo em que um passe para trás, para o guarda-redes, é aplaudido como um recomeço tranquilo e esperançoso de uma nova jogada de qualidade) e voltou a aproximar-se da baliza de Alisson.

Já em cima do intervalo, Bernardo Silva - a jogar no corredor central com David Silva e Fernandinho (De Bruyne ficou no banco) - cruzou para o primeiro poste, onde Aguero mostrou por que razão é o maior goleador do City, ao antecipar-se a um sonolento Lovren e rematar para golo com tal potência que nem Alisson conseguiu parar a bola, apesar de estar a cobrir a zona do poste mais próximo.

Com alguma felicidade, o City ganhava mais controlo sobre o jogo, mas os 45 minutos que faltavam ainda prometiam mais Liverpool - e mais testes aos laterais titulares desta noite, Danilo e Laporte.

Aos 64 minutos, num belíssimo cruzamento de pé esquerdo, pela direita, Trent Alexander-Arnold encontrou Robertson sozinho nas costas de Danilo - o colega só teve de amortecer para o meio, onde Firminou apareceu na cara de Ederson a tocar para o 1-1.

Agora havia bem mais Liverpool e, quando parecia que a equipa de Klopp ia acelerar ainda mais, o 2-1 surgiu - mas na baliza oposta. Sterling conduziu pelo corredor central, fixou a defesa oposta e encontrou Sané sozinho pela esquerda. Quando Arnold lá chegou, já o extremo do City estava a preparar para rematar cruzado para golo.

Martin Rickett - PA Images

Depois, Aguero podia ter acabado com o jogo, mas tentou fintar Alisson e o guarda-redes brasileiro afastou a bola, e Bernardo podia ter feito o mesmo, mas Alisson voltou a defender.

Sem o 3-1, o Liverpool continuou atrás do 2-2, e o final do jogo foi sofrido para o campeão, mas sem oportunidades claras de golo na baliza de Ederson.

2-1 e duas certezas: não, Guardiola nunca mudará (e ainda bem); e não, a Premier League não acabou e ainda está longe de acabar. O Liverpool continua líder, com 54 pontos, mas o City está logo atrás, com 50. E ainda há o Tottenham, com 48, e o Chelsea, com 44.