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Quando 400 vitórias em 552 jogos explicam a teimosia

Treinador do Manchester City venceu o Liverpool na quinta-feira à noite e alcançou as 400 vitórias na carreira. Em Inglaterra, chegou aos 100 triunfos

Hugo Tavares da Silva

Matt McNulty - Manchester City/Getty Images

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Passes milimétricos, primeiros toques divinos, duelos para rijos, superioridades e inferioridades, erros, pressão, golos, uma bola que não entra por um dedo e emoção. O City-Liverpool, que gozou disto tudo e muito mais, teve ainda o mérito de relançar a Premier League: cityzens e reds estão agora separados por quatro pontos.

Pep Guardiola, que sempre que não ganha uma ou outra vez é questionado sobre uma eventual mudança de filosofia, chegou às 400 vitórias na carreira. Foram precisos 552 jogos, diz o camisola 10 da estatística, MisterChip. Em Inglaterra também chegou aos redondos 100 triunfos em 144 partidas. Para fazer o mesmo, em Barcelona precisou de 139 jogos e de 132 em Munique.

Depois de perder dois jogos seguidos na Premier League, os alarmes soaram. A seguir à derrota com o Southampton, no dia 30, um dos diálogos com um jornalista do “Sun” na conferência de imprensa foi assim:

– Pep, podemos respeitar porque diz que tem uma grande crença nos seus jogadores, por tudo o que conquistaram, mas, em tempos como estes, em que está mais difícil, talvez queira mudar um pouco a sua filosofia...? Para ser mais cauteloso.
– Eu estava preocupado com essa pergunta [sorri]. Isso não vai acontecer. Não aconteceu no primeiro ano, não vai acontecer agora.
– Esperamos que não mude, mas é uma pergunta válida…
– Nem pensar.
– Não vai mudar a sua filosofia…
– Porque deveria mudar? Porque perdi dois jogos? E como ficam os que acreditam em mim? Nem pensar, isso não vai acontecer.

E lá decidiu, contra aquele super Liverpool que poderia ficar a 10 pontos de distância, enfiar dentro daquela geometria com cheirinho a laranja Fernandinho, Bernardo Silva, David Silva, Sterling, Sané e Agüero. A inovação mais cautelosa talvez tenha sido colocar Aymeric Laporte a defesa esquerdo. De resto, foi sempre a apertar à frente, com exceção para aqueles últimos minutos em que o Liverpool exerceu uma senhora pressão, empurrando os cityzens para trás, embora sem o maior brilhantismo. Para saber o que aconteceu no Etihad, leia AQUI a crónica do jogo.

Run, Bernardo, run!

Os números que enchem os olhos, depois da bola fazer o seu trabalho e de ser tocada por homens que a merecem, chegaram na ressaca daquela hora e meia excitante. E começou por Bernardo Silva. O português correu 13.7 quilómetros e colocou-se na liderança dessa lista que diz pouco sobre futebol, mas que grita sobre o compromisso do jogador que não perde a finura na canhota. Só correr é uma coisa, outra é pedalar e dar qualidade ao jogo. O objetivo era reagir rápido à perda da bola para evitar que a banda de heavy metal desse música no jardim de Ederson.

Guardiola, no final, estava rendido ao português. "Ele fez tudo o que lhe pedimos. Ajudou-nos, ganhou todos os duelos. Mostrou-nos que para jogar futebol basta ser bom. Não é preciso ser grande e alto. Ele é incrível. Há muito que não via uma perfomance assim, em todos os sentidos."

Robbie Jay Barratt - AMA/Getty Images

Há outros números, claro. Sergio Agüero, por exemplo, vai explicando por que razão é o maior goleador do Manchester City. O argentino marcou sempre nos sete jogos que o Liverpool visitou o Etihad, diz a Opta. O avançado dá ainda um bigode a outros quando se contabilizam os golos aos “big six” desde 2011/12: 37 golos contra 21 de Kane, 20 de Rooney, 18 de Robin van Persie e 17 de Hazard.

Jürgen Klopp, apesar da derrota, mantém-se como a verdadeira besta negra de Guardiola. O ex-treinador de Mainz e Dortmund venceu o catalão sete vezes (vs. seis vitórias de Pep) em 16 duelos.