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Buffon não tem medo de chorar

O guarda-redes, a dias de completar 41 anos, deu uma entrevista à "Vanity Fair" italiana e falou sobre a depressão e os ataques de pânico com que lidou, há cerca de 15 anos, quando estava na Juventus e "tudo perdeu significado"

Diogo Pombo

NurPhoto

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Ele é aquele nosso tio porreiro.

O simpático e o sempre disponível, por quem nutrimos uma veneração saudável, cientes de que dele virá uma palavra sábia quando dos pais vem a reprimenda, uma piada fácil para as tristes dores de crescimento na adolescência, um conselho patriarcal nas alturas em que dos pais vem a cobrança. Nem era preciso virar grisalho, rugoso e mais branco na pilosidade para assim o ser.

Gianluigi Buffon é o tio futebolista por ser, há muito, um senhor no futebol, que pratica com brio e carisma entre os postes na baliza. É o quarentão que não se vergou ao peso da idade e foi desafiá-la para Paris, onde joga no PSG e vive num apartamento com vista próxima para a Torre Eiffel. Aparenta estar bem, feliz e descontraído pela forma como foi captado, no conforto do lar, pela “Vanity Fair”, revista à qual falou, uma vez mais, que já esteve muito pior.

Durante uns meses, “tudo perdeu significado”. Buffon sofria de depressão.

Achava que “os outros não se interessam”, realmente, nele, mas antes “na amostra em que estava a encarnar”. Toda a gente “perguntava pelo Buffon e ninguém pelo Gigi”, lamentou, ao falar de um momento “muito complicado” que ocorreu, algures, entre 2003 e 2004, quando ainda estava na Juventus e em Turim.

No aquecimento para um jogo da Série A, chegou ao ponto de pedir ao treinador de guarda-redes para preparar o suplente. “Tive um ataque de pânico. Não era capaz de aguentar a corrida”, admitiu, explicando que se “não tivesse partilhado esta experiência, este nevoeiro e esta confusão com outras pessoas, talvez nunca as teria ultrapassado”.

Gigi falou com familiares, amigos e quem lhe era mais chegado. Aceitou o problema, reconhecendo-o e lidou com ele - “Tive a clareza de entender que o momento tinha que ser um ponto divisório entre render-me e lidar com as fraquezas que todos temos”. Não pediu um tempo, não se refugiou em férias, não inventou com o clube uma lesão, para se evadir do futebol, por uns tempos.

Poderia tê-lo feito, como explicou ao "The Guardian", há quase seis anos, em outra das poucas vezes em que falou sobre a sua depressão: “Para os adeptos, não lhes interessa um chavo como tu estás. És visto como um futebolista, um ídolo, por isso ninguém pára para pensar e perguntar: ‘Hey, como estás?’”.

Uma indiferença alheia da qual padecem, provavelmente, todos os jogadores, sejam craques, banais, senhores ou tenham um quê de serem o tio quarentão de toda a gente.

Até mesmo para o bom gigante guarda-redes, de olho azul, gentil no discurso e excelso utilitário a parar bolas, sem espalhafatos ou acrobacias desnecessárias. “Nunca tive medo de chorar, é algo que me acontece e que não me envergonha, de toda”, garantiu, à “Vanity Fair”, sem problemas, sem vergonhas, Gianluigi Buffon, a dias de soprar 41 velas de aniversário.