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"Sunderland ‘Til I Die". Quando a agonia e a derrota seduzem… e os números confirmam

A Tribuna Expresso perguntou ao clube inglês o que aconteceu depois do lançamento, em dezembro, do documentário na Netflix. As visitas ao site do clube dispararam, os seguidores no Twitter idem e os três primeiros jogos em casa registaram as melhores assistências da temporada

Hugo Tavares da Silva

Ian Horrocks/Getty Images

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Aviso à tripulação: quem ainda não viu o documentário “Sunderland ‘Til I Die”, na Netflix, deve ler apenas os dois primeiros parágrafos e saltar para o sétimo (abaixo do trailer -- ou seja, é esquecer o que está entre os dois vídeos do YouTube).

O Sunderland é um dos grandes clubes de Inglaterra. Ganhou seis vezes o campeonato inglês, as mesmas que o Chelsea, e só é ultrapassado por Aston Villa (7), Everton (9), Arsenal (13), Liverpool (18) e Manchester United (20). A última conquista nem com binóculos: 1936. Quanto à FA Cup, os black cats têm dois canecos no museu do clube (1937 e 1973).

O Stadium of Light é o digno santuário que veste de acordo com a história na mochila. Sol, chuva, vitória e derrota, aquela gente está sempre lá. E é aqui que entra o documentário da Netflix. É até à morte (“‘Til I Die”), seja qual for a agonia. A música que arranca cada um dos oito episódio aperta qualquer estômago e promete algo épico. Ou brutalmente triste.

Estamos em 2017/18. O Sunderland tinha acabado de ser despromovido da Premier League. Foi necessário despedir pessoas e rasgar orçamentos obesos. Os nervos começaram na pré-época, com os adeptos a pedir o mundo, a exigir o golo em jogos particulares, a azedar, a desesperar como se estivessem na final da Liga dos Campeões. No fundo, a sofrer por antecipação.

Ter os olhos nas entranhas de um clube desgovernado e em queda livre impressiona, até porque há muito espaço para a dignidade e humanidade. A felicidade tocou à porta daqueles que desconheciam ou haviam esquecido o fado daquele gigante. Cada dia, um “wow”. Ora porque perdiam todos os jogos em casa, ora porque os treinadores estavam sempre com a corda na garganta ou ajudavam a limpar a neve do relvado para haver treino. Ou quando as contratações de inverno falhavam e era preciso olhar para os miúdos da casa, ou até quando um médio ex-Manchester City recusava sair, agarrado a um contrato milionário, impossibilitando o desafogar das contas.

Dores de cabeça. Excessos. Momentos fugazes de alegria. A simplicidade do staff invisível. A angústia que viaja do ecrã para a realidade. O que muitos imaginavam -- um conto de fadas -- nunca aconteceu, nem com o senhor Chris Coleman a liderar aqueles jogadores. “É a esperança que os mata, os fãs não conseguem lidar com o desespero”, escreveu Barry Glendenning no “The Guardian”, num artigo intitulado “Sunderland ‘Til I Die mostra o que está certo e errado no futebol inglês”.

Último lugar, mudança de proprietário e League One como destino. À 26.ª jornada, os black cats seguem na terceira posição do terceiro escalão, atrás de Portsmouth e Luton, que acabou de perder o treinador para o Stoke City.

A Tribuna Expresso contactou o clube e tentou perceber as consequências da série da Netflix, pelo menos as palpáveis, já que não é mensurável o calor e orgulho no coração dos homens e mulheres que têm o Sunderland debaixo da pele. Louise Wanless, responsável pela comunicação, deixou algumas pistas.

Em dezembro de 2018, o clube registou mais 55 mil novos users no site oficial (+30% em page views), 7000 novos seguidores no Twitter e aumentou em 50% o número de subscritores no canal do clube no YouTube relativamente ao mês anterior.

O fenómeno foi internacional: +254% users no site oficial a partir dos Estados Unidos, +524% da Alemanha, 408% da Suécia e 410% da Noruega.

Mais importante, arriscamos, terá sido o que se observou nas bancadas do Stadium of Light. Nos três jogos em casa logo a seguir ao lançamento do documentário, o Sunderland bateu recordes:

-- Bradford (26 de dezembro): 46,039, o melhor registo do clube em 2018/19, um número que os aproxima da média de grandes clubes da Premier League;

-- Scunthorpe (29 de dezembro): 33,288, o terceiro melhor registo da época do clube;

-- Luton (12 de janeiro): 37,391, o segundo melhor registo da temporada.

Na terceira divisão.