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Os Galáticos morreram outra vez. Paz às suas almas

O Real caiu com estrondo numa das suas piores épocas. Fora da Liga, da Liga dos Campeões e da Taça do Rei, entra agora numa longa agonia que se prolongará até maio, tempo razoável para o clube repensar a sua matriz. Ou então para despejar milhões que resolvam problemas a curto prazo. Até à próxima crise

Pedro Candeias

Leonardo Prieto

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Todas as dinastias futebolísticas começam e acabam com a ascensão e a queda do melhor jogador, nem sempre querido ou consensual, mas inquestionavelmente respeitado pela mais simples das razões: dinheiro.

Quanto melhor esse melhor jogador jogar, mais perto estará a equipa de ganhar e o plantel de receber o bónus no contrato. Tolerar caprichos da rock star que exige amor e aumentos de salário nos momentos menos apropriados faz parte da vida dentro de quatro paredes onde convivem alphas e omegas opulentos.

Logo, o erro de Florentino Pérez foram dois erros. O primeiro, não ter criado as condições necessárias para acomodar Cristiano Ronaldo no Real Madrid até ao fim da carreira, com as chatices que isso pudesse envolver – prémios, manifestações públicas de afeto, a palavrinha de conforto quando se é condenado por fraude fiscal. E depois de nada fazer, e de o mal estar feito, não ter pensado num plano alternativo.

Num momento inicial, Pérez passou subliminarmente a imagem do futebolista maior do que o clube, dos verdadeiros madridistas contra o oportunista português, uma imprecisão matemática divertida, porque o Real faz esta quarta-feira 117 anos e construiu a sua gloriosa história às costas de gigantes como Di Stéfano, Butragueño, Raúl, Figo ou Zidane.

Obviamente, sendo o Real Madrid este espetáculo de variedades, gerir os humores da estrela – como o Barcelona silenciosamente faz com Messi – é mais complicado; mas deixar fugir o tipo que marcou 450 golos em 430 jogos é uma irresponsabilidade.

Sobretudo, porque o planeamento incompetente de outras épocas fazia prever o pior. Bastava recordar o fim dramático dos Galáticos originais, substituídos pelos inesquecíveis Gravesen, Woodgate, Cicinho e Pablo Garcia, para perceber o que aí vinha.

Zidane percebeu-o a tempo – ele próprio estivera metido em encrenca igual – e trocou as voltas ao presidente que via nele o homem certo para liderar a revolução dos canteranos, por oposição ao grupo de jogadores envelhecidos e aburguesados.

À partida, a coisa fazia sentido: Zizou treinara os miúdos e, bom, Zizou era Zizou, um dos maiores futebolistas da história e um treinador acabadinho de conquistar três Ligas dos Campeões seguidas.

Só que o francês antecipou a jogada, saiu elegantemente, e para o lugar dele entrou Julen Lopetegui, despedido da seleção espanhola em pleno Mundial por negociar às escondidas com os merengues. Foi um desastre desportivo e de relações públicas anunciado que resultou numa rescisão pouco amigável e nada cavalheiresca entre as partes.

E, então, chegou Santiago Solari, um argentino com pinta aristocrática, lido e articulado, autor de alguns dos melhores textos futebolísticos publicados em Espanha, no “El País”; mais do que isso, Solari era um homem preso à casa sobre o qual Florentino poderia exercer à vontade a sua influência.

Iria finalmente empezar la era de la cantera, em força e à bruta, com Odriozola, Brahim, Marcos Llorente, Mariano, Nacho e Reguillón, sendo que apenas este acrescenta algo por beneficiar de um contexto específico - o outro defesa-esquerdo do plantel é Marcelo e Marcelo já não é um jogador profissional de futebol. Remendos que se descoseram quando a época esticou.

E os Galáticos, parte II, autodestruíram-se aos poucos.

Isco arranjou problemas com Solari, foi afastado e contra o Ajax deixou a concentração para ir até parte incerta; Bale arranjou problemas com os colegas, foi protegido por Solari e contra o Ajax jogou para ele, como Ronaldo, mas sem os golos.

Toni Kroos está deprimido, Marcelo flirta constantemente com a Juventus, Modríc perdeu o embalo da inesperada Bola de Ouro e Sergio Ramos anda a gravar um documentário sobre a sua vida para a Amazon. Na terça-feira, lá estava ele na bancada do Bernabéu com a família e a equipa de filmagem, enquanto a equipa da qual é capitão era implacavelmente desmantelada na Champions.

Ramos não jogou por uma suspensão que ele próprio procurou em Amesterdão, na primeira-mão.
Na cabeça dele, o 2-1 seria suficiente contra uma equipa de miúdos holandeses inexperientes.
Na cabeça dele, era impossível o tricampeão europeu ser afastado nesta fase.

Na cabeça dele, Ronaldo ainda era do Real Madrid.

Só que o jogo desnudou as fragilidades técnicas e estratégicas do Real Madrid que Ronaldo, independentemente das suas cíclicas crises existenciais, foi tapando com os seus golos protocolares. É que raramente o Real Madrid jogou futebol para justificar quatro Champions em cinco anos, mas havia algo intangível neste clube capaz de operar reviravoltas imprevisíveis e instantâneas com golos gerados a partir do nada. Não é por acaso que o Real apenas ganhou duas Ligas espanholas no entretanto - vencer um campeonato implica jogar coletivamente e com uma ideia; para vencer a Champions, pelos vistos, bastava ter Ronaldo e um ou outro compincha no momento certo de forma.

E, agora, sem ele ou alguém remotamente semelhante, capaz de marcar golos burocráticos, em série, o Real caiu com estrondo numa das suas piores épocas. Fora da Liga, da Liga dos Campeões e da Taça do Rei, entra numa longa agonia que se prolongará até maio, tempo razoável para o clube repensar a sua matriz. Ou então para despejar milhões que resolvam problemas a curto prazo. Até à próxima crise.