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Mauro Icardi e um problema chamado Wanda

Há quase um mês que Mauro Icardi não joga no Inter, entre uma suposta lesão e uma complicada renovação de contrato que tem como pedra na engrenagem a sua mulher, a agente e personalidade televisiva Wanda Nara, uma antiga modelo de caráter forte. Pelo caminho, o avançado argentino, que parece ter um íman para polémicas, já perdeu a braçadeira de capitão e o respeito de alguns colegas. Esta quinta-feira vai falhar a 1.ª mão dos oitavos-de-final da Liga Europa, frente ao Eintracht Frankfurt

Lídia Paralta Gomes

Pier Marco Tacca/Getty

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O Carnaval é aquela altura do ano em que o povo aproveita para deixar umas críticas veladas a quem de direito, nomeadamente às personagens do momento, seja por bons ou maus motivos. E este ano, Valentino Rossi, Il Doctore, o mago das pistas do MotoGP, e a sua namorada, Francesca Novello, mascararam-se daquele que é, desde há um mês, o casal com mais tempo de antena nas televisões, rádios e jornais italianos: o avançado do Inter, Mauro Icardi e a sua mulher/empresária/porta-voz/agente Wanda Nara.

É uma boa fantasia de Carnaval, não só porque cumpre os propósitos do Entrudo, mas também porque Rossi é adepto confesso do Inter e provavelmente não estará contente com a confusão que vai no Giuseppe Meazza. Vai para um mês que Icardi, até há bem pouco tempo capitão e estrela-mor da equipa, não é visto a correr pelo campo com uma camisola nerazzurra, num imbróglio que envolve um contrato, um balneário dividido, uma duvidosa lesão e, à boa maneira italiana, um programa de televisão.

Mas principalmente uma mulher chamada Wanda, esposa de Icardi e que desde o final de 2015 maneja também todos os assuntos profissionais do avançado argentino.

Com contrato até junho de 2021, a renovação de Icardi, de 26 anos, foi uma das prioridades do Inter para esta temporada. Mas o clube não contava com as aguerridas técnicas de negociação de Nara, personagem controversa em Itália e que, nos intervalos do seu labor de agente de um dos avançados mais profícuos do Mundo, faz uma perninha num talk show do canal Mediaset como comentadora.

No “Tiki Taka”, assim se chama o programa, Wanda Nara, uma antiga modelo argentina de 32 anos, há muito que deixou de ser uma mera comentadora: sendo casada com um dos craques da Serie A, ela também é protagonista e tudo o que diz tem impacto, na medida em que não se coíbe, por exemplo, de criticar colegas de equipa do marido, como o fez em tempos com o croata Ivan Perisic, ou o treinador, Luciano Spalletti. Já em pleno drama da renovação que não sai, Wanda voltou a deixar uma indireta aos companheiros de Icardi: “Mais do que um contrato novo para o Mauro, o que eu queria mesmo era que o Inter contratasse alguém capaz de lhe dar cinco passes decentes num jogo”.

Icardi com Wanda Nara, sua esposa e agente, a mulher no meio do furacão

Icardi com Wanda Nara, sua esposa e agente, a mulher no meio do furacão

MIGUEL MEDINA/Getty

Com tudo isto, quatro dias após o Inter ter derrotado o Parma na 23.ª jornada da Serie A, a direção do clube decidiu retirar a braçadeira de capitão ao argentino para a entregar ao guarda-redes Samir Handanovic. No dia seguinte, alegou dores no joelho direito para não estar disponível para o encontro com o Rapid Viena para a Liga Europa, ainda que Spalletti tenha dado a entender que as razões eram outras. “A decisão de tirar a braçadeira capitão a Icardi foi difícil e dolorosa, mas tomada pelo bem do Inter. Ele foi chamado para o jogo, mas não quis estar lá. Ficou desapontado”, disse o técnico italiano. Entre os dois a relação é, no mínimo, tensa.

A polémica com a suposta lesão no joelho ficou ainda mais animada depois de o Inter ter convocado o atleta para uma ressonância magnética, anunciando depois na sua página oficial não ter encontrado nada de anormal nos exames.

Ainda assim, as dores no joelho continuam a servir de desculpa para Icardi não jogar e o argentino não se mostrou disponível para o embate de quinta-feira para a Liga Europa com o Eintracht Frankfurt, isto após o “Corriere della Sera” dar conta daquela que terá sido a definitiva discussão do avançado com Spalletti. “Esta é a última vez que falo contigo”, terá dito o avançado depois de uma troca de palavras dura com o técnico, que terá exigido ao jogador deixar a fisioterapia para se juntar aos colegas nos treinos.

Um balneário dividido e a hipótese Juventus

As atitudes do casal Icardi-Nara têm tornado o balneário do Inter num palco de guerra fria. De acordo com a imprensa italiana, o plantel está dividido entre um grupo que apelidam de Clan Slavo, formado por Ivan Perisic, Mario Brozovic e o guarda-redes Samir Handanovic, que está farto do argentino, e outro grupo que tem apoiado as exigências de Icardi. Dele fazem parte o também argentino Lautaro Martínez, o uruguaio Matías Vecino, o italiano Matteo Politano e o espanhol Borja Valero.

Ivan Perisic terá mesmo confrontado Icardi sobre as declarações de Wanda Nara no programa “Tiki Taka”. “Diz à tua mulher que não fale mais de mim na televisão”, disse alegadamente o croata, que terá também ficado incomodado com o facto de Icardi ter viajado para Madrid para assistir à final da Taça Libertadores entre Boca Juniors e River Plate em vésperas de um importante jogo de Liga dos Campeões da equipa, e também por o argentino se ter escapado ao pagamento de uma multa imposta pelo clube.

Ivan Perisic é um dos jogadores que já terá mostrado a sua insatisfação com as atitudes de Icardi

Ivan Perisic é um dos jogadores que já terá mostrado a sua insatisfação com as atitudes de Icardi

Nicolò Campo/Getty

Esta quarta-feira, Icardi e Wanda Nara reuniram-se com o diretor-geral do clube milanês, Beppe Marotta. Num lacónico tweet, o Inter deu conta que se tratou de “uma reunião amigável, com o objetivo de encontrar uma boa solução”.

Não se sabe que “boa solução” será essa, numa altura em que a relação entre clube e Icardi parece ferida de morte. O jogador mais decisivo do Inter nas últimas cinco temporadas tem mercado, ainda que os gigantes europeus fiquem de pé atrás por terem de negociar com Wanda. O diário espanhol “Marca” avança mesmo que o Real Madrid desistiu de contratar Icardi por recear o efeito da antiga modelo na carreira do avançado, algo que a própria Wanda Nara disse não ser verdade.

Outra das hipóteses chama-se Juventus. Ainda no início da polémica, o diretor desportivo da equipa de Cristiano Ronaldo, Fabio Paratici, reconheceu que Icardi interessa: “Pedimos informações sobre o jogador, quisemos saber o que pensa Icardi sobre a possibilidade de jogar pela Juve”.

A julgar pela sua atividade nas redes sociais é possível que sim, Icardi tenha interesse numa transferência para o bicho-papão da Serie A e foi através de um português que, indiretamente, fez saber essa vontade, ao colocar um “gosto” numa publicação de João Cancelo em que festejava a vitória da Juventus frente ao Nápoles.

Um casal de polémicas

Apesar de em seis épocas no Inter se ter tornado num jogador decisivo e capitão de equipa, a relação de Icardi com colegas e adeptos nunca foi perfeita. Curiosamente, ou não, o início da relação com Wanda Nara marca o início da desconfiança. Tudo porque quando Icardi subiu a sénior, na Sampdoria, encontrou no compatriota e colega de equipa Maxi López um apoio. Acontece que López era, na altura, casado com Wanda Nara. E acontece que, em menos de nada, Wanda e Icardi estavam juntos e nisto do futebol não se perdoam traições.

Icardi num jogo frente à Juventus. A equipa de Cristiano Ronaldo já fez saber que está interessada no avançado argentino

Icardi num jogo frente à Juventus. A equipa de Cristiano Ronaldo já fez saber que está interessada no avançado argentino

MARCO BERTORELLO/Getty

Sendo um dos maiores goleadores argentinos dos últimos anos, Icardi tem apenas oito internacionalizações pela seleção A. Diz-se na Argentina que o facto de Lionel Messi ser amigo de Maxi López terá a sua parte de culpa nos sucessivos esquecimentos dos sucessivos selecionadores que passaram pelo banco da Argentina nos últimos anos.

Em outubro de 2016, após o lançamento da sua autobiografia (escrita aos 23 anos…), Icardi esteve pela primeira vez perto de perder a braçadeira de capitão. Tudo por causa de uma passagem do livro em que criticava a claque Curva Nord e se auto-intitulava de herói por, supostamente, ter enfrentado alguns ultras do clube após uma derrota do Inter frente ao Sassuolo por 3-1.

“Estou preparado para os enfrentar, um por um. Eles não devem saber que cresci num dos bairros mais perigosos da América do Sul. As pessoas são mortas na rua. Quantos são? Cinquenta? Cem? Duzentos? Digam-lhes isto: vou trazer 100 criminosos da Argentina que os matam no momento”, pode ler-se na biografia.

Escusado será dizer que as palavras caíram mal na direção do clube, até porque se provou mais tarde que os relatos do suposto heroísmo de Icardi em frente aos adeptos do Inter estavam bastante insuflados.

Na altura, o Inter aplicou uma pesada multa ao argentino, mas permitiu que continuasse com a braçadeira de capitão. Desta vez, a paciência esgotou-se.