Tribuna Expresso

Perfil

Futebol internacional

Liverpool e Eintracht: futebol vertical, com direito a queda no abismo

Vida muito complicada para os sobreviventes portugueses na Europa. Os adversários de FC Porto e Benfica gostam de quebrar linhas e partir velozes em direção da baliza contrária sempre que podem, oferecendo na vertigem aos adversários verdadeiras quedas no abismo. É impossível passá-los? Isso já é outra conversa, mas o ponto de partida é muito alto

Luís Mateus

Quando a adrenalina de Jürgen Klopp dispara, ninguém o pára. O treinador alemão de 50 anos cumpre a sua terceira época no Liverpool, mas ainda não conseguiu qualquer troféu

Richard Heathcote/ getty

Partilhar

Liverpool. O Liverpool que arrumou logo na primeira mão os oitavos do ano passado, com o 0-5 no Dragão. Uma equipa inglesa com princípios mais consolidados, embora a lutar taco e a taco e sem poder recuperar fôlego na luta com o Manchester City pela Premier League, e a apresentar alguns jogadores abaixo do nível da temporada transata, em que, por exemplo, Salah parecia definir sempre bem.

Um futebol feito à base de pressão alta e contrapressão na reação à perda, assumindo aquele ritmo «heavy metal», «non-stop», de transições velozes e jogo vertical de que Jürgen Klopp tanto gosta. Um futebol em que dás tudo ou não dás nada porque estás fora, está de volta ao caminho do FC Porto, desta vez a visitar primeiro Anfield antes de receber no Dragão.

A análise bem que também serve ao Eintracht. Estável num sistema de três defesas, ajudado pelos laterais, em que figura um competente Danny da Costa, e com passes diretos para os dois avançados: Luka Jovic – emprestado pelo Benfica, com a tal miserável opção de 7 milhões –, e um Haller de enorme qualidade. Explosivos, dinâmicos e cirúrgicos, com o sérvio à procura de definir no primeiro momento em que puder, e o francês mais disponível para os apoios centrais e combinações. Por vezes, nas costas dos dois da frente, surgem, com espaço, Rebic ou Gacinovic. Desde a esquerda, Kostic promete ainda inúmeros cruzamentos a reclamar finalização.

Com a força dos de Frankfurt a vir também do jogo interior, a equipa de Bruno Lage terá de encontrar as paralelas para progredir no terreno, a exemplo do que aconteceu no triunfo recente frente ao FC Porto.

Ideias semelhantes, agressividade e velocidade vários níveis acima

O mestre e o aprendiz: Jürgen Klopp e Sérgio Conceição. Não consta que o treinador português tenha procurado diretamente inspiração no alemão, mas a verdade é que o «gegenpressing» e a verticalidade extrema terão nascido por oposição e antítese ao futebol de posse tecido por Pep Guardiola no Bayern e até em contranatura face ao sucesso da seleção alemã.

Ao mesmo tempo que a ideia florescia no Borussia Dortmund, equipas como RB Leipzig, Bayer Leverkusen, Hoffenheim e Hertha entre outras, desenvolviam filosofias semelhantes. Em Frankfurt, a «Diva Caprichosa» («Die Launische Diva») ia igualmente projetando uma ideia semelhante. É Klopp quem influencia os restantes treinadores germânicos.

Conceição terá bebido de muitos, e se a sua ideia pareceu vingar por Portugal encontrou no Liverpool uma diferença abismal de qualidade nos jogadores e uma maior certeza nos processos, que deram um triunfo retumbante aos britânicos nesse encontro do Dragão. Aprendiz ou não, a verdade é que a ideia tinha um mestre e foi esse mesmo quem sorriu no fim.

Adi Hütter, com um passado de campeão e vencedor da Taça ao serviço do Salzburgo, implantou os mesmos processos em Frankfurt. Foi ajudado pelo «renascimento» do clube, assente na política desportiva alternativa de Fredi Bobic, antigo internacional alemão de ascendência eslovena e croata, capaz de encontrar soluções em mercados paralelos como os países da ex-Jugoslávia e até em Portugal.

Histórico pesado para os dragões

Terão os dragões aprendido algo com a goleada sofrida no Dragão? Essa será a dúvida que a ter a resposta positiva poderá equilibrar o embate. Porque o Liverpool não está pior.

A história não traz qualquer conforto à equipa de Sérgio Conceição, já que nunca antes venceu os «Reds». São seis jogos, três derrotas e três empates. O primeiro encontro deu-se nos quartos de final da Taça UEFA de 2000-01. Anfield viu um 2-0, as Antas tiveram de contentar-se com o nulo. Sete anos depois, a fase de grupos da Liga dos Campeões de 2007-08 não correu melhor: 4-1 no terreno dos ingleses, 1-1 no Dragão. A seguir, a época passada, nos oitavos de final os tais 0-5, com Sadio Mané endiabrado à solta, e o nulo ao jeito de cessar-fogo na Velha Albion.

Cinco títulos contra dois. Em 1976-77, o Liverpool bateu em Roma o Borussia Moenchengladbach por 3-1. Na época seguinte, novo título continental, agora com o Club Brugge como vítima, em Wembley (1-0). Idêntico resultado abateu o Real Madrid no Parc des Princes, em Paris, na temporada 1980-81. A Roma caiu em 1983-84 no Olímpico (1-1, 4-2 gp) e o «Milagre de Istambul» trouxe dos balneários um 3-0 favorável ao Milan e um Steve Gerrard de punho cerrado ainda a tempo de assinarem uma recuperação épica (3-3, 3-2 gp). Há ainda 3 Taças UEFA na sala de troféus de Anfield.

Contra isto, os dragões apresentam a Taça dos Campeões de 1987, com os golos mágicos de Madjer e Juary, e a Liga dos Campeões de 2003-04. Em Gelsenkirchen, os remates certeiros de Carlos Alberto, do MVP Deco e de Alenitchev confirmam a superioridade inequívoca do FC Porto sobre o Monaco de Didier Deschamps.

O Eintracht como tábua rasa

DANIEL DAL ZENNARO

Benfica e Eintracht nunca se defrontaram em partidas oficiais. Há apenas registo de dois jogos entre os alemães e o FC Porto, durante a Liga Europa de 2013-14: 2-2 no Dragão, 3-3 na Alemanha.

Se os encarnados tiveram três finais da Liga Europa sem vencer uma única (1983, Anderlecht; 2013, Chelsea; e 2014, Sevilha), o conjunto de Frankfurt tem já uma taça no seu museu. Em 1979-80, ganhou na final aos compatriotas do Borussia Moenchengladbach. E se o emblema da Luz vai já em 10 finais europeias e em 8 perdidas, cinco na principal prova da UEFA, o Eintracht apenas teve mais uma, a da Taça dos Clubes Campeões Europeus de 1959-60, em Glasgow, frente ao Real Madrid (7-3).

Milhões, milhões e mais milhões… a voar?

O incentivo da ideia de quem chega às meias-finais está perto de vencer o troféu também pode ser financeiro. O saldo portista está praticamente em 80 milhões, sendo que chegar às «meias» vale mais 12. Seria extraordinário para os debilitados cofres do FC Porto, há duas épocas consecutivas em contenção, face ao controlo do «fair-play» financeiro da UEFA. E pode nem ficar por aqui. Eliminar o Liverpool, coloca Barcelona ou Manchester United no caminho dos portistas, que vencendo a competição poderiam acabar com perto de 126 milhões só conquistados esta época.

Também o plano financeiro pode ser importante para a equipa de Lage, embora as diferenças para a Liga dos Campeões continuem grandes. Os encarnados já arrecadaram 52 milhões, grande parte pela participação e resultados na fase de grupos da prova milionária, e podem garantir mais sete se chegarem à final de Baku, no Azerbaijão. O vencedor da Liga Europa terá direito a mais quatro e, no total, podem ser 63. Só que o caminho, como já se viu, é complicadíssimo. Mesmo que ultrapassem o Eintracht, teriam ainda de bater Slavia Praga ou Chelsea nas meias-finais.

Grandes estrelas no Dragão e na Luz

Van Dijk, o senhor 83,4M, e Alisson, 62,5M, são algumas das figuras de cartaz do Liverpool neste seu regresso ao Dragão. Ambos deram grande estabilidade ao setor defensivo dos «Reds», além do que o central holandês acrescenta ao jogo ofensivo, sobretudo nas bolas paradas. Todos os holofotes apontam ainda para o fantástico tridente no ataque formado por Roberto Firmino, Mohammed Salah e Sadio Mané, com o suíço Shaqiri a entrar na rotação. Contudo, a grande estrela é mesmo o seu treinador. Jürgen Klopp é uma fonte de energia constante, que sabe aproveitar o ambiente e utilizá-lo a seu favor.

Do lado do Eintracht, já se enumeraram alguns nomes. Aquele que mais diz aos benfiquistas é o de Jovic, emprestado com uma opção de compra de 7 milhões, miserável para alguém que só agora foi ultrapassado por Lewandowski na luta pelo título de melhor marcador. Os portistas também pensarão que a venda de Gonçalo Paciência, recentemente regressado à competição, terá sido baixa de mais.

Ao olharmos para a mobilidade, técnica de finalização e até motivação e arrogância positiva, há que não deixar espaço para comparações: este miúdo Jovic nada tem a ver com aquele que não brilhou na Luz.

Os de Adi Hütter, que eram dos 8 apurados para os «quartos» o clube com pior ranking (77º), atrás inclusive do Slavia de Praga (72º), têm um plantel avaliado em valores semelhantes aos das duas equipas lusas: 261,7M, contra 277M do Benfica e 288M do FC Porto. Já o Liverpool não deixa dúvidas, está avaliado em 950,5M, segundo o site especializado transfermarkt.

Herrera, Pepe e Jonas a fazer falta

Dois jogadores portistas sacrificaram-se a si próprios durante a batalha no Dragão com a Roma. Herrera, muito importante na pressão alta portista, e o defesa internacional português viram amarelos que os afastam de Anfield, onde até a sua vasta experiência seria importante perante o ambiente que os restantes vão encontrar.

O mesmo se passa com Jonas, que também viu a cartolina, e falha a receção ao Eintracht. Para um jogador que marca praticamente sempre que joga não deixa de ser uma péssima notícia para Bruno Lage.

Encaixe no calendário

Em teoria, não serão os quartos de final de Liga dos Campeões e Liga Europa a poder provocar instabilidade em respetivamente FC Porto e Benfica.

Se olharmos para o calendário dos dragões, vemos que depois de dois embates com o Sporting de Braga, o último a contar para a 2ª mão da meia-final da Taça, recebe o Boavista e vai a seguir a Liverpool. Segue-se visita a Portimão e receção ao Santa Clara. Mais uma vez, em teoria, o grau maior de dificuldade poderá estar no Algarve, mas já com conhecimento do resultado da primeira partida frente aos «Reds». Já uma eventual qualificação poderia ser diferente de encarar mais à frente, com os jogos das meias-finais entre Vila do Conde e Choupana.

Do lado do Benfica, a mesma ideia. Depois do Sporting para a Taça, segue-se a Feira e a receção ao Eintracht. Recebe depois o V. Setúbal e vai a Leverkusen. Talvez o Feirense surja com alerta mais elevado, mas também aqui umas eventuais meias-finais seriam mais complicadas de gerir, depois da viagem a Braga e antes da visita a Vila do Conde.

Difíceis, mas não impossíveis de ultrapassar

Quando chegamos a esta altura, surgem também frases-feitas que procuram dar algum equilíbrio a jogos em teoria desequilibrados.

O histórico é desfavorável. O valor de mercado também, o que quer dizer que há muita qualidade nos adversários hoje sorteados. Haverá até baixas importantes em FC Porto e Benfica na primeira mão. O que é importante é que «só termina quando o árbitro apita». Uma verdade absoluta. Há que acreditar.