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A anatomia dos domingos perfeitos de Messi

Até os adeptos do Betis aplaudiram de pé e cantaram "Meeeeeeessi, Meeeeeeessi". O argentino celebrou o 51.º hat-trick e marcou o 28.º livre direto da carreira. Nas últimas oito temporadas apenas um clube dos big-5 tem mais livres diretos com final feliz

Hugo Tavares da Silva

Quality Sport Images/Getty Images

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Às vezes a resposta está numa página empoeirada de um dicionário online. Magia: religião dos magos; produção de atos extraordinários e sobrenaturais; encanto; fascinação. No futebol, porventura como na magia, o mundo está dividido entre os curiosos e os que sabem. Lionel Messi, o funcionário do mês de todos os meses na fábrica dos feitiços, teve mais um domingo surreal. Faz lembrar Bill Murray no papel de Phil Connors em “Groundhog Day”; às tantas, parece que vivemos numa armadilha temporal messiana: todos os domingos acontece o mesmo.

O Barcelona visitou o campo do Betis de Quique Setién e o ‘10’ voltou a ser decisivo. A alucinação começou logo aos 18’, com um livre direto belíssimo. Sublime e potente. De acordo com MisterChip, o senhor da estatística, tratou-se do 25.º golo de livre direto de Messi nos últimos oito anos, mais um do que… o Real Madrid. Ou, então, se quisermos explorar a brincadeira: apenas a Juventus (29) tem mais golos de livre direto do que o esquerdino nos cinco grandes campeonatos desde 2011/12 (Real Madrid-24, Lyon-22, Roma-21, PSG-21 e Liverpool-19).

Ao todo, Messi leva 28 golos de falta.

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Luis Suárez, companheiro de golos e mates do argentino, ajudou à festa. Primeiro isolou Messi para o 2-0 e, a seguir, inventou uma jogada em que, quem sabe por um ato divino qualquer, colou os rivais ao cheiro da relva, esmagados pela genialidade. O melhor ainda estava para vir.

Quando faltavam oito minutos para o apito final, Loren Morón recebeu do irrequieto Diego Lainez e meteu a bola perto da gaveta, reduzindo para 1-3. Ter Stegen, um jogador de campo que também enfia as luvas e pode usar as mãos, não podia fazer muito mais do que voar em vão.

E chegamos ao minuto 86. Na ressaca de mais um canto para os blaugrana, a bola, sensata, sobrou para os pés do homem de Rosário. O argentino começou a rondar a área dos homens da casa, multiplicando as opções, e tocou para Rakitic, no lado esquerdo. O croata recebeu e devolveu com a canhota, para não destoar; Messi cortou a bola por baixo e, fingindo não saber ainda o desfecho desta história, ficou a observá-la no ar. Foi um chapéu magnífico. Uma vaselina fabulosa, como dizem por lá.

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Os colegas abraçaram-no, sentiram-lhe a carne, tentaram, quem sabe, desvendar alguns mistérios daquela figura. Disseram-lhe coisas, rasgaram sorrisos. Ouve-se “Meeeeeessi, Meeeeeessi”, um cântico clássico dos adeptos catalães. Mas juntaram-se os seguidores do Betis, nas palmas, na voz e no gesto: uma vénia.

“Não me lembro de me ter acontecido antes”, diria o autor de mais um hat-trick, o 51.º da carreira (45 no Barça, 6 na seleção). “Estou agradecido, somos sempre bem tratados quando jogamos aqui.” Aqui é Sevilha, a terra de dois velhos rivais. A partir deste domingo, Messi transforma-se no único futebolista na história da La Liga a fazer um hat-trick no campo de Sevilla e Betis na mesma época.

Ernesto Valverde, o treinador dos culés, apreciou a atitude dos béticos, explicando que os adversários sofrem e desfrutam ao mesmo tempo. "É significativo que o ovacionem, é um reconhecimento." Messi leva já 29 golos (40% dos golos do Barça) e 12 assistências no campeonato.

Setién, que mudou a maneira de ver o jogo quando, no seu querido Racing, corria e desesperava atrás do Barcelona de Cruijff, estava encantado no final. “Vi grandíssimos jogadores a fazer coisas maravilhosas, mas com a continuidade e o desequilíbrio permanente que manifesta este jogador nos 12, 14 anos que leva no ativo… creio que nenhum jogador. Não sei se Pelé terá tido isto no seu tempo. É que é em todos os jogos. Todos. É um luxo coincidir com ele, vê-lo a cada domingo.”