Tribuna Expresso

Perfil

Futebol internacional

Decifrámos o código AVB

Falámos com o treinador João Nuno Fonseca sobre o relatório de André Villas-Boas para aquele Chelsea-Barcelona de 2006, para a Liga dos Campeões, que até nem correu bem aos blues, para descobrirmos o porquê e o como se fazem estes documentos. Sem esquecer uma verdade: “Não vais ter uma solução para todas as situações”

Hugo Tavares da Silva

Mike Egerton - EMPICS/GETTY IMAGES

Partilhar

Vamos imaginar que os olhos de José Mourinho nunca tinham tocado no futebol simples-que-não-é-assim-tão-simples do Barcelona. E, já agora, que a TV e a Internet faziam gazeta. O treinador não conhecia, por isso, aquela cultura do toque, a arte da geometria no ataque aos espaços, os terrenos baldios e os planos de contingência. Continuando pela mesma estrada, vamos acreditar que o treinador português já tinha esquecido aquele episódio, no primeiro jogo pelo Benfica, em que alguém lhe entregou o relatório do Boavista com apenas 10 jogadores titulares. Faltava só o Platini da Bolívia. Ou Erwin Sánchez.

Estamos em 2006, a meio da segunda época do português nos blues, com uma Premier League no bolso. O Chelsea acabou o Grupo G da Liga dos Campeões no segundo lugar, atrás do Liverpool de Rafa Benítez, e teve de se conformar com a inevitabilidade de jogar contra um robusto tubarão. Tocou-lhe o Barcelona de Frank Rijkaard e Mourinho pediu ao jovem André Villas-Boas um documento no qual destaparia todos os segredos da maquinaria blaugrana. Esse documento foi despejado na internet na segunda-feira.

João Nuno Fonseca, treinador de 29 anos, com passagens na Académica, Aspire e Nantes, teve acesso a esse relatório muito antes disso, quando estava na faculdade. “Na altura falava-se de como poderia ser o trabalho de bastidores, mas era bastante difícil perceber o que o AVB efetivamente produzia para ajudar no sucesso de Mourinho”, começa a contar à Tribuna Expresso. “Não tenho dúvidas que inspirou muitos jovens, como foi o meu caso, em ver na análise de jogo uma maneira de entender as dinâmicas do jogo e, mais importante de tudo, como interpretá-lo e aplicá-lo em treino. Começou a ser um relatório-referência."

1 / 4
2 / 4
3 / 4
4 / 4

Vamos lá ao osso. O desenho revelava um 4-3-3. Nesta temporada (2005/06), o Barça estaria mais agressivo na saída rápida para o ataque depois de conquistar a bola, deixando cair aquela fé cega na posse de bola paciente. Nessa fase da vertigem, procuram o passe vertical para dois rapazes que não jogavam nada mal. “Dependem muito da criatividade Messi e Ronaldinho”, alertava então AVB, que aparentava estar muito preocupado com os movimentos interiores do brasileiro, que abriam um túnel imenso de oportunidades para as subidas de Gio van Bronckhorst. “Este momento pode ser parado com faltas”.

“Erram muito na primeira fase de construção”, continua AVB. Ou seja, a tal geometria artística e a qualidade de receção-passe deixavam a desejar, segundo o observador de Mou, na hora de esboçar uma jogada desde trás. A isso juntar-se-ia o impecável relvado de Stamford Bridge (sim, isto é irónico), que também mereceu uma nota naquele documento. Deco é chave na saída limpinha com passes curtos. A subida dos laterais, que depois revelam problemas a fechar (deixam muito espaço para o corredor central), expõe a linha defensiva, isolando os centrais. O erro espreita a cada esquina. “Oleguer e Edmilson podem ser os alvos ideais para uma pressão alta”, informa Villas-Boas, como quem sente o sangue a quilómetros de distância.

Darren Walsh/Getty Images

Sem bola, AVB tira o chapéu ao instinto e leitura de Samuel Eto’o e de Deco, que sabiam quando e como pressionar, detectando a hesitação alheia. “Quando Deco e van Bommel pressionam forte no meio-campo é difícil evitar”, aponta ainda, sugerindo uma posse de bola rápida. Ou seja, mais vertical e menos mastigada, apostando até em situações 2x1 contra Edmilson, o brasileiro que não impressionava nadinha André Villas-Boas. É aqui, quando a teia estica, que é o “momento ideal para matá-los”. Enfim, é um senhor manual de instruções, que ainda especifica como é que os culés se comportam nas bolas paradas defensivas e ofensivas.

Outra vez

Este não é o primeiro relatório de AVB para Mourinho que salta para as páginas dos jornais e redes sociais. Há muitos anos já tinha sido partilhado um outro, igualmente detalhado, sobre o Newcastle United.

O que querem os treinadores nestes relatórios? “Depende muito do caráter de cada um”, continua João Nuno Fonseca. “Tu podes observar um adversário para perceber o que queres evitar que ele te faça ou então podes observar para saberes de que forma é que te queres impor. E é neste ponto que o caráter do treinador se revela e que o leva a desenvolver uma determinada identidade como equipa. Não tenho dúvidas que, ao longo dos últimos 10, 15 anos, a maneira de se produzir relatórios de observação e análise foi sendo alterada, noutros países e contextos, muito pelo sucesso que o José Mourinho teve e pela evolução de carreira do AVB, de analista para treinador. Vais a Inglaterra e já não analisam um adversário com base em dados estatísticos como acontecia há uns anos. Depende sempre de quem lidera o processo. As estatísticas são como os professores sem conhecimento: ensinam tudo menos o mais importante. Mostram mas não demonstram.”

João Nuno Fonseca

João Nuno Fonseca

Nuno Botelho

Para quem ainda não juntou as peças do puzzle, esta é a tal jogatana entre Chelsea e Barcelona que aqueceu e até meteu cultura pelo meio. “Vocês sabem perfeitamente o que é teatro e do bom. É de qualidade”, diria Mourinho na conferência de imprensa.

Lionel Messi, um garoto de 18 anos, com o mundo suspenso na ponta da bota esquerda, ameaçava ser o que acabou por ser: um génio. E os génios, já sabemos, às vezes têm problemas com os defesas. Asier del Horno deu-lhe as boas-vindas ao futebol de elite e beijou o joelho do argentino com os dentes da bota. O defesa espanhol até se livrou do vermelho, mas estavam destinados a olharem-se nos olhos: Messi voltou a enganar Asier e também Robben, perto da bandeirola de canto, e o lateral perdeu a paciência. Apesar de a entrada ter sido imprudente, ficou a anos-luz da tal primeira patada: vermelho direto.

AVB não deixou de assinalar no relatório que esta era uma equipa que procurava faltas e que já sacara aos rivais 11 penáltis e quatro vermelhos.

Mas, afinal, o que dizia o relatório de AVB sobre Messi? “É muito diferente de Giuly”, escrevia relacionando com a eliminatória da época passada, dos “oitavos”, em que os blues bateram o Barça. “O ano passado, o Giuly dava mais largura e profundidade. Messi é o oposto. Tem liberdade total e até acaba no lado oposto a criar situações 2x1 com o Ronaldinho. Ele quer receber a bola quanto antes, ligando fases de jogo através da condução (principalmente a ir para dentro com o pé esquerdo). Traz criatividade e risco para o jogo.”

Mike Hewitt/Getty Images

Na secção da avaliação individual, AVB resume: “Qualidade + velocidade mas demasiado esquerdino. Exatamente os mesmos comportamentos do Ronaldinho. Entre linhas ou diagonais. Encoraja a equipa a avançar com a condução. Incrível 1x1”.

A repetição

Quantos jogos são necessários para um observador ficar confortável com o rival? “Normalmente, entre três e cinco jogos, para poderes dizer que é provável que o adversário se vai comportar desta maneira. Há que ter também consciência de aceitar a complexidade que está inerente ao jogo. Ou seja, ser consciente de que, como treinador, não vais ter uma solução para todas as situações.”

E é este o tipo de informações standard? Fonseca diz que depende do treinador. “Tens treinadores que querem tudo explicado em relatório com imagens, ilustrações e texto. Outros consideram suficiente ter apenas vídeo ilustrado e pontos-chave. Acima de tudo, hoje em dia, utiliza-se cada vez mais imagens reais do adversário, seja vídeo ou fotografia, do que esquemas como os que vês no relatório do AVB.”

ADRIAN DENNIS/GETTY IMAGES

O Chelsea até começou a ganhar. Depois de uma bola longa milimétrica de Frank Lampard, Duff ganhou as costas da defesa catalã e cruzou para área, onde Thiago Motta encostou para a própria baliza. John Terry, com mais um golo na própria, deixou tudo igual aos 72'. Quando faltavam 10 minutos para o apito final, o Barça inventou uma transição rápida implacável: Larsson tocou para Ronaldinho, que acelerou, deixou Makélélé para trás e devolveu a Larsson, que aproveitava o espaço aberto pela diagonal de Eto’o; o sueco tocou para trás, em Rafael Márquez, que sacou um grande cruzamento com a canhota para a cabeça de Eto’o: 2-1. Demorou apenas 17 segundos. Os londrinos acabariam eliminados.

Podemos voltar só mais uma vez ao relatório de AVB? Só uma linha: “Em transição [ofensiva], eles agora querem matar o adversário rapidamente.” Et voilà. Mas, lá está, o futebol é tudo menos ciência exata e repetição da imaginação. “O importante é que se perceba efectivamente o que se quer demonstrar [num relatório], porque no final tudo é dinâmico e praticamente imprevisível”, conclui Fonseca.