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O penálti de Djukic, 25 anos depois

Há exatamente 25 anos, o Deportivo esteve perto de conquistar a primeira liga espanhola da sua história. O Barça de Johan, que perseguia o tetra, vencia o Sevilla, por isso faltava um golo aos de Corunha. Um penálti aos 90' podia ter sido a alegria do povo mas converteu-se em agonia...

Hugo Tavares da Silva

David Rawcliffe - EMPICS

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O Deportivo só tinha de imitar o Barcelona, na última jornada, para ganhar a primeira liga da sua história. Arsenio Iglesias, o treinador do Depor que ainda não era o Super Depor, mandou para o relvado Liaño, Donato, Ribera, Voro, Djukic, Rekarte, Nando, Mauro Silva, Fran, Manjarín e Bebeto. Seriam estes os heróis das gentes de Corunha. Do outro lado estava o Valencia de Guus Hiddink, com Mendieta, Quique Flores e Mijatovic.

O Barça até esteve a perder duas vezes, em Camp Nou, com golos de Diego Simeone e Davor Suker, mas a revolução dos rapazes de Johan Cruijff arrancou aos 20’, nas botas de Hristo Stoichkov. Os culés chegariam ao 5-2. O Deportivo teria de fazer o seu trabalhinho.

O nervosismo, a tensão e pressão não facilitaram a tarefa aos homens que vestiam de azul e branco. A bola não obedecia como antes. Estavam bloqueados. Imaginamos o desassossego da mulher enlutada que, uns tempos depois, iria ao treino do Depor pedir a Iglesias para não abandonar o clube.

O cronómetro, na sua marcha implacável, anunciava a angústia. Até que...

Penálti! O árbitro apitou penálti para o Deportivo no minuto 90, por falta sobre Nando. “Vai lançar Djukic, atenção ao sérvio, atira Djuuukic… defendeu González! Parou González!”, dizia o comentador. Bebeto, que se preparava para se lançar num voo feliz, parece ter perdido a força nas pernas. O Riazor caiu em agonia. Festejava-se em Camp Nou. Iglesias levou aos mãos ao céu e afagou o cabelo.

O tetra do ‘Dream Team’ de Johan Cruijff aconteceu assim, no meio de um dramatismo brutal, violento até (terminaram ambos com 56 pontos). Arsenio Iglesias, que até podia estar num rebuliço por dentro, era um homem simples e conformado na derrota. Talvez quisesse ensinar um pouco sobre o jogo. Afinal, não ganhar não é a mesma coisa que perder. E perder não é sinónimo de fracassar. Mais tarde, numa entrevista ao “El País”, diria que a “derrota é mais humana”.

A seguir ao Deportivo-Valencia, foram estas as palavras do homem que esteve a alguns centímetros de conquistar o primeiro título do Deportivo, que só chegaria em 2000, com Javier Irureta: “Há muito a dizer e pouco a contar. Empatámos, não pudemos ser campeões. Estava escrito assim. A equipa correu, não jogou demasiado bem. Teve muitos bloqueios, quem sabe estava demasiado nervosa. Faltou marcar um golo, há que contra-atacar duas, três vezes com muito perigo".

E continuou: "(...) Não deu, o que vamos fazer? Tenho de dizer, pelo grande desgosto que a equipa sente, que continuo a pensar que tenho de os felicitar, entendes? Deixaram a pele [em campo], tiveram cabeça todo o ano, foram perseguidos por uma grande equipa, trataram de nos desestabilizar, puseram-nos nervosos. Fizeram o que puderam, fizeram bem. Não tenho muito mais que dizer, foi uma pena. É triste e é duro. Uma vez na vida podíamos ter conseguido e não foi possível…”.

Depois da declaração, chegaram os aplausos de quem estava naquela sala de imprensa. Iglesias, generoso no tom, agradeceu.

Esta terça-feira cumprem-se 25 anos dessa noite histórica do futebol espanhol.