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Futebol internacional

15 anos depois, continuamos com saudades de Roberto Baggio

Roberto Baggio pendurou as botas há exatamente 15 anos, num Milan vs. Brescia, um clube que acabou por reformar também o n.º10. Um desses tesouros vive no roupeiro de Vasco Faísca. Dos cocktails molotov em Florença ao penálti contra o Brasil, a Tribuna Expresso lembra um dos maiores de sempre

Hugo Tavares da Silva

Getty Images

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O intervalo aproximava-se e a Juventus vencia por 1-0, com golo de Zambrotta. O Brescia começou a jogada desde trás, até que a bola, que normalmente sabe para que botas viaja, encontra o pé de Andrea Pirlo. Um, dois toques para orientar, passe na profundidade com aquela pinta toda à procura do movimento do avançado. A bola acabava de ganhar a lotaria: aterraria na bota direita de Roberto Baggio, que, com um toque, desviou do guarda-redes e depois encostou para o deserto com redes. Foi um bombom no dia das mentiras. O que fazia o mago do rabicho, às vezes, também parecia ter pouco de verdadeiro. Era um génio.

“Sempre que penso no Baggio, lembro-me dessa jogada, já na fase final da carreira”, conta à Tribuna Expresso Vasco Faísca, ex-futebolista que passou 13,5 anos em Itália, atual treinador do Olhanense. “O guarda-redes era o [Edwin] van der Sar, que sai um bocadinho para encurtar a distância, e ele domina e finta ao mesmo tempo. Uma coisa incrível. Eh, pá… é qualquer coisa de genial. Era um jogador fantástico.”

Esta quinta-feira, 16 de maio, celebram-se os 15 anos do adeus aos relvados de Roberto Baggio. E, à semelhança do que aconteceu no elegante golo acima mencionado, acabou tudo noutra casa por onde passou dois anos: o colossal e mítico San Siro.

“Para além da parte futebolística, é uma personagem muito interessante. É budista e, quando se manifesta publicamente, diz sempre qualquer coisa interessante. Tem uma mensagem positiva. Não tenho grandes ídolos, tenho muitos que admiro, e a ele admiro muito, gosto muito. É uma pessoa exemplar”, desabafa Faísca

Seguiu-se por essa altura a já extinta co-propriedade entre Inter e Vicenza, onde Vasco Faísca passou quatro anos da sua vida. E foi aqui, no primeiro clube de Roberto Baggio, que viveu algo bizarro. “Cheguei numa altura em que a Serie A, se não era o melhor, estava ainda entre os dois melhores campeonatos do mundo. O Vicenza não tinha um centro de treinos, saltávamos de campo em campo, uns relvados à volta. Ao lado do estádio havia um campo pelado. Estamos em 2000/2001, nesta altura já não era usual equipas da primeira divisão treinarem em pelado. Chego ao Vicenza e estava lá o Marco Aurélio, o ex-capitão do Sporting, que me diz:

- Prepara-te, vamos treinar ali.
- Ali!? Não acredito. Um pelado na Serie A…

Não queria acreditar naquilo. A verdade é que se treinava lá de vez em quando e a malta queixava-se. Depois, aparecia sempre o treinador de guarda-redes, que era de Vicenza, e dizia: ‘Vocês queixam-se, queixam-se, mas aqui treinaram dois Bolas de Ouro: Paolo Rossi e Roberto Baggio. Portanto, só têm de calar e treinar’ (risos). Com esse argumento não dava para contestar.”

Roberto Baggio é um daqueles semideuses do calcio que não precisou de juntar muitos troféus para ser imortal. Uma lenda. A história começou no Vicenza, em 1982. Atrevido e apontado a viver entre as estrelas, mudou-se para o Artemio Franchi da Fiorentina, onde jogou cinco anos. Seguiu-se a mudança para a Juve, um rival pouco simpático aos olhos dos viola. Nos dias prévios à transferência, os adeptos da Fiorentina fizeram um cerco à sede do clube, lançando cocktails molotov e tijolos. Esse triângulo amoroso teve o ponto alto no regresso do ‘10’ a Florença.

“Foi o ambiente mais intenso que me lembro antes de um jogo”, disse ao “The Guardian” Giancarlo Rinaldi, um adepto. “Havia uma ameaça genuína nas ruas. Florença ainda estava magoada depois daquela transferência e havia o medo real de que as coisas poderiam tornar-se violentas.” Baggio foi assobiado e tratado como um inimigo. Quando o árbitro apitou um penálti para a Juve, rejeitou bater, acabando por ser depois substituído. Lançaram para os seus pés um cachecol da Fiorentina e ele agarrou-o, cumprimentando depois a Curva Fiesola. Este gesto também não agradou muito aos adeptos do novo clube.

Em Turim, venceu a primeira Serie A, em 93, uma Coppa e o único troféu europeu: Taça UEFA vs. Dortmund. A mudança para Milão deu-se cinco anos depois, onde conquistou o segundo e último scudetto, com George Weah, Boban, Savicevic, Maldini, Albertini e Franco Baresi por perto.

A sua vida podia ser um poema imenso, que mistura surrealismo, beleza e derrota. A sua história na squadra azzurra foi uma tragédia. Em 90, em casa, usou o ‘15’, porque Nicola Berti tinha a ‘10’, e a sua Itália terminou em terceiro lugar, com o treinador Azeglio Vicini, depois de perder nas "meias" contra a Argentina de Diego e Caniggia.

Neal Simpson - EMPICS

Quatro anos depois, a glória e o inferno: foi, para muitos, o Campeonato do Mundo de Baggio. Categórico, brilhante, sublime, especial, goleador, tudo o que quiserem. Foi um fartote na fase KO: dois golos à Nigéria, outro à Espanha, mais dois à Bulgária. Até que chegou a final contra o Brasil. O penálti de Baggio, já sabemos todos, seguiu para o lugar que não lhe correspondia, escrevendo ali mais um triste episódio do cancioneiro futeboleiro. A tristeza viveu, crua e implacável, no corpo do codino divino naqueles segundos de reflexão. Estava destruído, com os olhos cravados na relva.

Às aventuras no Bologna e Inter, seguiu-se a derradeira: o improvável Brescia. Neste clube do norte de Itália, que acaba de subir à Serie A e suspira por Sandro Tonali (“o novo Pirlo”), passaram nomes como Hagi, Raducioiu, Pirlo e Pep Guardiola. Faísca recorda, entre amenas gargalhadas, um episódio com o catalão. “Já era treinador do Barcelona e foi lá ver um Brescia-Ascoli, eu jogava no Ascoli. Quando foi embora deve ter pensado que aquilo tinha sido pior jogo que viu na vida. Tinha chovido muito, o campo estava todo enlameado, era só pontapé para a frente. Se me tivesse cruzado com ele, tinha-lhe pedido perdão pelo que ele tinha visto. Aquilo foi uma ofensa ao futebol.”

Grazia Neri

O Brescia

Mas que clube é este, o Brescia? “Está na zona norte de Itália, numa linha que é Turim, Milão, Bergamo, Brescia, Verona, Padova, Vicenza, Veneza e Udine. Isto é uma autoestrada, que é a A4, que liga estas terras todas e é uma das zonas mais ricas, arrisco a dizer, do mundo. É um clube de uma terra rica, da Lombardia. Há possibilidades económicas importantes”, conta.

E continua: “O Brescia sempre foi, nos últimos 20 e 30 anos, um clube de passagem de grandes jogadores. Nao sei sei se faz parte de uma estratégia ou fruto do acaso, mas a história recente do futebol mostra-nos isso mesmo: têm aparecido grandes talentos e alguns até têm passado ali numa fase avançada da carreira, como Guardiola e Baggio, que brilharam”.

Há exatamente 15 anos, num Milan-Brescia, Roberto Baggio deixou o futebol mais pobre. San Siro parou para o aplaudir e adorar pela última vez. O mundo encantado dos dribles, dos golos, dos cabelos improváveis, dos livres directos, do passe milimétrico, ficava órfão de um dos maiores de sempre. Em jeito de homenagem, ainda que roubando um sonho às crianças da cidade, o Brescia reformou o n.º10.

D.R.

D.R.

Um desses tesouros vive bem acompanhado no roupeiro de Faísca, que jogou no Vicenza com Eddy Baggio. “Eu adorava o Baggio. Eu pedi-lhe se me trazia uma camisola do irmão e ele trouxe, autografada e tudo, uma coisa especial. Pedi eu e outros colegas da equipa. O Eddy estava habituado àquilo, por onde passava pediam-lhe camisolas do irmão. Nunca tive esse prazer de jogar contra o Baggio.”

Para ver o Milan-Brescia, viajar AQUI.

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    Ele não sentia gozo em marcar golos sem que antes fizesse algo de bonito. Marcou mais de 200 em Itália. Pelo meio, tornou-se budista, foi operado três vezes ao joelho antes dos 18, ficou no banco na meia-final de um Mundial porque o treinador achou que ele estava com ar de cansado e, quatro anos depois, falhou o penálti na final de outro. É isso que mais se recorda de Roberto Baggio. Mas ele, que faz hoje 50 anos, era muito mais do que isso

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