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E aí, Neymar?

Vive no Carnaval, no bem e no mal, gargalha com os pés e quer estufar esse filó como se fosse o Rei. Que Neymar é este? Leonardo Miranda, jornalista do "Globo Esporte", e Bolívar Silveira, analista e ex-Footure, respondem

Hugo Tavares da Silva

Aurelien Meunier - PSG

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Tem aquele bamboleio desavergonhado nos pés que todos os garotos fantasiam. O futebol cru, da rua ou dos descampados, dos quase gloriosos ervados, com poucas regras e problemas de consciência. Esqueçam a paciência. Vai para cima, encara o joão e desfaz o equilíbrio desse valentão. Alguns episódios longe do verde esboçavam um grande ponto de interrogação, que normalmente afrouxava quando a bola lhe obedecia. Alegria. E aí, Neymar, qual é?

Para estufar esse filó
Como eu sonhei

Se eu fosse o Rei
Para tirar efeito igual
Ao jogador
Qual
Compositor
Para aplicar uma firula exata
Que pintor
Para emplacar em que pinacoteca, nega
Pintura mais fundamental
Que um chute a gol
Com precisão
De flecha e folha seca

Aurelien Meunier - PSG

Explicar o melhor futebolista brasileiro dos últimos tempos, digno sucessor de Pelé, Romário e Ronaldo Nazário, não é tarefa fácil. Nem com a ajuda desta cantiga de Chico, que, ainda assim, dá uma pista: há um rei e um sonho, um encargo sentimental, que se constrói estufando “esse filó”. Ou seja, balançando a rede, fazendo o gol.

“Os garotos do Santos são vistos como o novo Pelé. Há sempre um novo Pelé...”, conta à Tribuna Expresso Bolívar Silveira, ex-colaborador do podcast brasileiro ‘Footure’ e analista de futebol. “São tratados desde crianças como celebridades. Neymar foi um cara sempre muito badalado desde jovem.”

E a lenda engorda. A inocência ganha ruga, o acerto não descola do pé e o ego tosse.

“Ele tem atitudes muito parecidas de quando tinha 18 anos, em 2010, e despontou ao futebol”, explica à Tribuna Expresso Leonardo Miranda, jornalista do "Globo Esporte". “Ainda no Santos, ele recusou-se a ser substituído e discutiu com o técnico Dorival Júnior, que acabou sendo demitido.” Em defesa do treinador do Santos saiu Renê Simões, na altura o técnico do Atlético Clube Goianiense, que teve umas declarações que há pouco tempo foram elevadas a profecia: “Estamos criando um monstro”.

Quando o PSG perdeu a final da Taça de França no início da semana, contra o Rennes, o ‘10’ da canarinha assinou mais uma travessura. Na altura de subir à tribuna e formalizar a desilusão, Neymar cedeu a uma provocação e agrediu um adepto com um soco. Na ressaca ainda fresca, referiu numa conta de Instagram de um amigo que “ninguém tem sangue de barata” e, através dos microfones dos jornalistas, enviou uma mensagem ao grupo liderado por Thomas Tuchel: “Têm de ser mais homens dentro do vestiário, mais unidos, [com] todo o mundo correr. O que vejo ali é que há muito jovem, não digo perdido... mas falta mais ouvidos do que a boca. Têm de escutar mais. (...) Isso não é uma equipa que vai longe, que vai ter sorte no final. A gente acaba sempre pecando nisso”.

O episódio do soco teve réplicas no esqueleto da seleção brasileira: Tite, o selecionador, resolveu retirar-lhe a braçadeira de capitão. “É difícil falar não estando por dentro, mas acho muito estranho o Neymar ter a braçadeira de capitão. Ele mesmo já disse que não quer essa responsabilidade e os técnicos deveriam atender a isso”, diz Miranda. O avançado nunca quis a braçadeira, símbolo que diferencia dos outros o homem que mostra o caminho.

Koji Watanabe

Neymar começou a viagem de capitão depois do Campeonato do Mundo, no Brasil, em 2014, conta este artigo do "Globo Esporte". Na final dos Jogos Olímpicos, dois anos depois, marcou um golaço de livre, bateu o penálti decisivo, chorou e levantou a taça. Pelo meio, falhou a Copa América 2015 por castigo: agrediu um jogador e insultou o árbitro depois de um Brasil-Colômbia. Quando Tite chegou ao escrete, confiou a braçadeira a vários jogadores. Um rodízio, como dizem na terra da velhinha e irrepetível Bossa Nova. Depois do Rússia-2018, Tite optou por definir Neymar como capitão único, para lhe dar força contra as críticas que recebeu e também para tentar arrepiar caminho rumo à responsabilidade.

“Ele não pode ser capitão”, sentencia Silveira. “Não é um exemplo fora do campo, dentro também não parece ser um líder. Tite tentou, mas não conseguiu passar essa imagem de Neymar líder. Nem fazer dele um líder.”

As histórias fora de campo e a vida pessoal do jogador registaram um novo pico este fim de semana: Neymar está a ser acusado de ter violado uma mulher em Paris, de acordo com um documento policial a que a Associated Press teve acesso. O brasileiro, recorrendo às redes sociais, expôs as mensagens trocadas com a mulher que o acusa e defendeu-se, denunciando uma "armadilha".

Instagram

Depois da agressão no PSG-Rennes, circularam rumores de que Neymar poderia não ser convocado para a Copa América. “Douglas Costa deixou de ser convocado por aquela cuspidela num jogador no campeonato italiano, mas sabemos que Neymar tem outro peso. Ia ser convocado e foi”, explica Bolívar Silveira.

Neymar, por levar um samba malandro qualquer na mente e gargalhar com os pés, parece caber naquele caixote divino desenhado pelo sábio Eduardo Galeano, para dar significado à vida de Diego Maradona. É uma espécie de deus sujo, pecador e generoso, com açúcar no jeito de ser, "que sentou pra descansar como se fosse sábado" (já que estamos numa de Chico Buarque...).

Aurelien Meunier - PSG

O futebol champagne afastou Neymar do futebol cru, da rua ou dos descampados, dos quase gloriosos ervados, com poucas regras e problemas de consciência. O tal que é impaciente, verdadeiro e que ele joga com o bamboleio desavergonhado nos pés que todos os garotos fantasiam.

O futebolista brasileiro fez apenas 16 jogos na Ligue 1 (+1 como suplente), nos quais marcou 15 golos. O campeonato tem 38 jornadas. Nas estatísticas dos mais influentes da liga, o avançado raramente dá sinais de vida, apenas nos golos, muito longe do colega Kylian Mbappé (33) e Nicolas Pepe (22), do Lille. A Liga dos Campeões, a razão da respiração dos parisienses, acabou nos oitavos de final (vs. Manchester United): Neymar esteve ausente por lesão.

Koji Watanabe

“O que se questiona sobre Neymar não é a sua qualidade, é a sua personalidade”, reflete Leonardo Miranda. “Há a noção de que ele não dá 100% de si. Mas não é que seja indisciplinado, apenas precisa ser mais sério. Nisso pesam as selfies e as publicações no Instagram, o relacionamento com uma atriz da Globo e os diversos casos de quedas em campo.” Bolívar Silveira reforça: “Desde sempre, sempre, que houve esse rumor da personalidade dele. Ele começa a perder um pouco os seus fãs, está meio manchado por lesões e histórias extra-campo. Neymar divide a população: quem gosta e quem não suporta. É um exímio jogador, mas ele deixa de jogar para vir ao Carnaval no Brasil, dá soco a torcedor… Outro dia levou um drible de um garoto da base [seleção jovem do Brasil] e derrubou o cara. Às vezes, posiciona-se de forma errada. Teve problema com o fisco brasileiro. E também há o pai dele, o empresário, que é muito mal visto…”

Miranda diz que há dois mundos na vida de Neymar, o das boas decisões (ficar no Santos e depois saltar para o Barcelona) e o das más decisões (“ida frustrada para o PSG”). “Ainda pode ser o melhor do mundo e protagonista do Brasil numa Copa do Mundo. Só o tempo dirá.”

Chris Brunskill/Fantasista

Parafusar algum joão
Na lateral
Não
Quando é fatal
Para avisar a finta enfim
Quando não é
Sim
No contrapé
Para avançar na vaga geometria
O corredor
Na paralela do impossível, minha nega
No sentimento diagonal
Do homem-gol
Rasgando o chão
E costurando a linha

Afinal, pelo menos no que toca à seleção brasileira, falamos de uma lenda. “Neymar é o segundo maior artilheiro da seleção brasileira e protagonista da conquista das Olimpíadas”, resume o jornalista do "Globo Esporte". “Foi peça-chave na Libertadores do Santos e na Champions League do Barcelona. Tudo isso aos 27 anos. Falar que Neymar é uma deceção é quase um crime. O que acontece é que ele leva nas costas o peso da crise geral do futebol brasileiro. O brasileiro valoriza muito uma Copa do Mundo e, como sempre houve protagonistas como Pelé, Romário e Ronaldo, cobram uma conquista...”

Resta-lhe estufar esse filó como o Rei.