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Os amanhãs são mais felizes com Gasperini. "Quando perdia, ficava completamente maluco..."

A Atalanta chegou à final da Coppa e apurou-se pela primeira vez para a Liga dos Campeões, depois do terceiro lugar na Serie A, com o melhor ataque da prova. A culpa é do treinador

Hugo Tavares da Silva

Alessandro Sabattini

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A grandeza nem sempre chega em forma de prata bonita, cintilante e quase impossível. A bola não tem sempre de obedecer como fazia, ternurenta, com Diego Maradona. Ou o campo não tem de encolher e andar ao sabor das intenções revolucionárias como acontecera com o Milan de Sacchi. Ou, então, maravilhar as gentes da terra como aquele avassalador e honesto Grande Torino, barulhento inquilino do Stadio Filadelfia. Nem sempre é assim. Mas há equipas que se encaixam, quais peças de Tetris, na lembrança de quem aprecia este jogo por fazerem coisas extraordinárias e decidirem, numa certa manhã, julgar-se gigantes.

É assim que esta Atalanta Bergamasca Calcio vive. A equipa de Bergamo deixou os vizinhos Inter e Milan na imensidão do retrovisor e assegurou um lugar inédito na Liga dos Campeões com futebol valioso e o melhor ataque da Serie A, a que juntaram a final da Coppa de Itália (0-2 Lazio). O arquiteto deste castelo de ideias é Gian Piero Gasperini, um treinador de 61 anos que começou a carreira no futebol jovem da Juventus, em 94.

NurPhoto

“O mais relevante é que não é um ano mágico”, diz à Tribuna Expresso Pedro Barata, jornalista na secção de futebol internacional da “Marca” e autor do blog “Visão de Mercado”. “É um clube relativamente modesto, mas a beleza é que isto é estrutural. Não é, como os ingleses chamam, um one year wonder. Antes de Gasperini chegar, a Atalanta terminou a Serie A em 12.º, 15.º, 11.º, 17.º e 13.º.” Nestas três temporadas com o treinador natural de Grugliasco, na província de Turim, esta rapaziada que veste de azul e preto fechou as épocas em 4.º, 7.º e, agora, em 3.º, a melhor classificação de sempre.

“Gasperini revolucionou o clube”, continua Barata. “Não é um ano mágico, é o resultado de um projeto bem estruturado e pensado, com a base assente num treinador que é capaz de potenciar os jogadores e sacar deles o melhor rendimento. É um projeto que vai em contraciclo com os vizinhos Milan e Inter, que mudam dirigentes, treinadores e fazem contratações faraónicas. A Atalanta mantém uma linha, sabe o que quer e tem tido resultados. Vai contra as tendências impulsivas do futebol italiano."

ISABELLA BONOTTO

A Atalanta tem seis participações nas competições europeias. A estreia aconteceu em 63/64, na Taça das Taças, contra o Sporting: os portugueses foram mais fortes e cedo acabou o sonho italiano. Os Oribici só regressaram 24 anos depois, na mesma competição, com direito a desforra: o Sporting desta vez foi eliminado nos quartos de final, mas a Atalanta acabaria por cair nas “meias” vs. Mechelen. Seguiram-se mais quatro entradas na Taça UEFA/Liga Europa em 89/90, 90/91, 2017/18 e 2018/19.

Claro que o futebol é dos jogadores, de quem toca na bola, de quem decide, daqueles que marcam e evitam os golos, mas os treinadores têm tanto peso na decisão de como jogar, na liderança, na forma como conduzem e inspiram os seus homens, que é impossível mirar esta obra grandiosa sem compreender Gasperini, que até jogou nas camadas jovens da Juve mas que teve uma carreira modesta como futebolista. Começou, como já vimos, a treinar os garotos do maior clube de Turim, até que saltou para o Genoa, em 2006. E aí começa a lenda…

MIGUEL MEDINA

“Na primeira temporada subiu logo nessa mítica Serie B, em que sobem também Napoli e Juventus. Depois, conseguiu levar o Genoa à Europa pela segunda vez na sua história. Já aí, o Gasperini indicia esta capacidade de criar projetos consolidados, de relativo longo prazo. Três épocas no futebol italiano atual é muito…”

Diogo Tavares, um avançado que dividiu esta época entre Amora e Pinhalnovense, fazia parte desse primeiro plantel do Genoa que subiu à Serie A. “Lembro-me que foi uma época difícil. Já foi há 12 anos”, recorda à Tribuna Expresso. “Era um campeonato muito difícil e exigente, todas as equipas eram muito boas e muito fortes. Não era só o Nápoles e a Juventus. Havia o Lecce, o Bologna… Era um campeonato muito complicado.”

E o mister, Diogo? “Era muito bom. Sempre, sempre privilegiou o jogo, o resultado através do jogo. Sempre. E sempre jogou muito bem, naquela altura já utilizava o 3-4-3. Era um treinador muito exigente, exigia o máximo dos jogadores. Quando perdia, ficava completamente maluco. Se algum jogador não dava o máximo, também se passava. Era muito exigente, queria sempre o melhor. Não pretendia nem permitia outra coisa."

Pier Marco Tacca

Diogo Tavares, hoje com 31 anos, tinha apenas 19 e recorda o ex-treinador com simpatia. “Fora e dentro do campo, no treino, era muito tranquilo. Uma pessoa séria, muito simpática. Eu era miúdo, não sabia falar italiano, não percebia bem, por isso a comunicação não foi fácil, mas era um treinador que dava sempre uma palavrinha simpática. Era um treinador que ajudava e que tinha em atenção o crescimento dos jovens, como jogadores e pessoas.”

Depois de passagens fugazes por Palermo e Inter, uma escolha do clube que terá tido o dedo de José Mourinho, Gasperini voltou ao Genoa para mais três épocas (14.º, 6.º e 11.º). No verão de 2016, assinou pelo Atalanta e… È una fiaba.

ISABELLA BONOTTO

Pedro Barata sublinha o estilo dos rapazes orientados por Gaspe. “A Atalanta joga muito, muito bem. A maior parte dos jogadores são normais, estão altamente potenciados por uma maneira de jogar que traz ao de cima o melhor deles. Jogam com uma linha de três atrás, normalmente com Berat Djimsiti, José Palomino e Andrea Masiello. Depois, do meio campo para a frente, é uma equipa fascinante. Costumo dizer que jogam com duas duplas e um trio: uma dupla de médios-centro, Remo Freuler e Marten de Roon; uma dupla de alas, Timothy Castagne e Hans Hateboer (dão muita largura, muita profundidade, para gerar espaço por dentro). Estes jogam para que o trio brilhe: Duván Zapata, Papu Gómez e Josip Ilicic. É uma máquina de atacar. É o melhor ataque da Serie A".

Nicolò Campo

A Atalanta fabricou 77 golos, mais sete do que a campeã Juventus. O Inter e Milan, que ficaram em 4.º e 5.º, marcaram apenas 57 e 55 golos. Duván Zapata, um avançado colombiano, encheu o ataque da Atalanta, assinando 23 golos, a três do melhor marcador da Serie A, Fabio Quagliarella. Josip Ilicic e Papu Gómez, o que fez mais assistências na liga (12), são as cabeças pensadores e geniais desta equipa, com liberdade para criar. E correr (com bola), já que são muito fortes tecnicamente.

Agora que sabemos como foi o passado, resta saber o que traz o futuro. Com Gasperini, o amanhã feliz parece estar garantido. E com banda sonora: